Três Sonhos
Saturno
Eu e meu primo Vicente vadiávamos pelo bairro encenando filmes de fantasia. Tínhamos determinadas construções e pontos do bairro que eram sets preferenciais e ali quedávamos desenvolvendo nossas tramas. Assim cumpríamos o trajeto pelos lugares mágicos da vizinhança.
Depois, quando o filme terminava, após muitas batalhas e viagens no tempo (éramos vidrados em viagens no tempo), em geral deixando o final aberto para uma série de continuações, nosso trajeto nos levava sempre ao bar da esquina, onde nossos pais eram fiéis fregueses e podíamos pendurar a conta.
Bebíamos coca-cola e distribuíamos oscars um ao outro de acordo com nossa performance. Premiávamos o melhor ator, o mais criativo (diretor), o que melhor fazia os ruídos e gestos e pirações verbais (efeitos especiais).
Certa vez, num dia muito especial, Vicente apontou-me no horizonte uma pirâmide. Eu vi. Era enorme. Uma pirâmide em estilo Asteca, imponente em meio a cidade. Caminhamos em sua direção.
Entramos em um lote vago, atravessamos umas mamonas, uns entulhos, e nos aproximamos dela. Era tão enorme, tão enorme que dava medo só de estar perto dela, como aquelas torres que são tão altas que dão a impressão de dobrarem-se no céu, caindo pra cima de nós, era tão grande que era difícil fixar o olhar sobre ela, senti que seria esmagado.
“Vamos embora”, disse eu.
Vicente observava, curioso. “Ela não estava aqui ontem!”
“É Saturno”, comentei, “Saturno é o nome”.
Anotado Sexta, 12 de Novembro de 2004.
Sonho do herói e do poeta
Um tribunal da inquisição foi montado e Samuel Taylor Coleridge foi declarado culpado e morto com uma flechada.
Vi um grande edifício de estilo greco-egípcio que era uma universidade, e as portas se abriram e saíram os estudantes, todos bem alinhados, os rapazes de terno, as moças de vestido. Joviais, riam alto e falavam fácil.
Então um exército de cruzados medievais, soldados de Cristo com armaduras azuis, capas vermelhas, espadas e escudos e elmos, avançaram sobre os jovens, atacando-os. Fez-se o caos, todos corriam de um lado para o outro, a noite caiu, a lua surgiu tingida de sangue, era um massacre.
Ninguém me notava.
Então, ouço o motor. Vejo chegar um guerreiro numa motocicleta, lutando bravamente ao lado dos estudantes.
Quinta, 25 de Janeiro, 2005.
Transmissão (Sonho da Mandioca)
Toco a campainha e aguardo junto ao muro de ardósia. Daí a pouco o portão se abre, minha avó convida-me a entrar. Estou a tanto tempo longe de casa! Sigo-a até a sala e sentamo-nos num dos extremos da mesa de jantar. Pouso as mãos sobre a madeira escura da mesa, miro por um instante os retratos dela e de meu avô logo quando se casaram, aqueles retratos antigos que os pintores retocavam, emoldurados em formato oval, pendurados na parede ao fundo.
Enquanto conversamos (lembro de tudo mas não das palavras) a empregada traz um prato com pedaços de mandioca frita. Familiares meus entram e saem da sala, como vultos, espectros. Eu e vó continuamos concentrados um no outro. Falamos sobre as coisas.
Com seus dedos grossos e enrugados, suas unhas crescidas esmaltadas em vermelho, minha avó toma pedaços de mandioca e os parte, ainda quentes soltam fumaça, e me dá de comer, levando à minha boca. Aceito. Mas então percebo que fios escuros, como os que escapam das blusas de lã ou como grossos pelos de urso ou finas palhas de aço, se enroscavam nos pedaços de mandioca, ou melhor, saíam de dentro deles, brotavam de dentro da mandioca, e minha avó, indiferente, levava os pedaços à minha boca enquanto discorria sobre a família e os valores cristãos, e desejo avisá-la pois me repugna por na boca a mandioca com cabelos, mas ela parece nem perceber, sinto um fio destes na língua, sinto gastura, não gosto de cabelo na língua, com os dedos em pinça tento tirá-lo, é metálico, minha avó já prepara mais um pedaço, que faço, que farei, que fiz? Acordei.
Anotado algum dia de 2004.
