7.11.2009

Ativismo

Categorias: Crônicas

Ativismo: entrevista na Época com Jack Cole. Ou aqui, se o link da Época sair do ar.

Não é só porque sou um degustador convicto de Cannabis Sativa. É principalmente porque trabalho com educação e arte, em diversas escolas das periferias de BH, principalmente no Alto Vera Cruz, onde estou há mais de cinco anos, e vejo e sinto o que essa cultura doida do tráfico está fazendo com as crianças. E acredito que a solução é falar abertamente do assunto, é encarar as drogas como são, é legalizá-las e discuti-las como problema de saúde e de consciência, ao invés de marginalizar e criminalizar usuários e mesmo traficantes que entram nessa barca furada cedo, por ignorância e falta de opção.

Vem daí o ativismo deste blog.

Época – Aqui estamos discutindo colocar metralhadoras em helicópteros e aumentar a pena por tráfico.

Cole – Não estou querendo me meter nos assuntos de seu país, mas não cometam o mesmo erro que nós. Você coloca uma metralhadora no helicóptero, o traficante compra um foguete. Você entra com um tanque, ele compra bazucas. E isso vai parar onde? Vão fazer um Vietnã urbano?

5.11.2009

Epígrafe dos loucos

Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.

Lima Barreto.

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Minha Mãe, Rosa, Barbacena

“(…) o mistério cósmico, essa coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose da inevitável verdade. Precisamos também do obscuro”. João Guimarães Rosa.

"Ele era um grande observador. Viveu a infância meio retirado. Eram oito irmãos, mas ele ficava mais num canto sozinho, lendo, apreciando a natureza, vendo os passarinhos. (…) Papai gostava muito de ler, ele lia com vela. (…) De noite tiravam a vela dele: apagar a luz naquela época significava tirar a vela. Ele então lia à luz da lua. Quando tinha aquela lua cheia e vinha aquela luz forte, ele lia. Eu acho que ele não era apenas gênio. Tinha vários gênios dentro dele.” Agnes Guimarães Rosa.

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Em Belo Horizonte, na rua Caldeira Brant, morava o dr. Joaquim Lôbo, bacharel em direito e escritor de crônicas e romances. Em 1964, dr. Joaquim conheceu, em Barbacena, o Guimarães Rosa, com quem trocou alguns sinais maçônicos.

Barbacena do rio das mortes, mortes de tupis principalmente, mortos pelos viscondes e pelos devotos da piedade, cidade de luzes e climas, boa para pêssegos e manicômios.

Dr. Joaquim, nervos esgarçados entre a normalidade penal e cívica e a loucura primal que trazia no sangue da família, estava em Barbacena para internar sua filha Andresa. Andresa quer dizer: a audaz. Andresa, a que ousa.

Andresa era então uma jovem magra, em novembro completando quinze anos de vida, cabelos lisos e longos, usava óculos. Desde nascida amava livros e amava música. Adolescente, estudava inglês, escutava rock, andava com uma biografia de Emily Dickinson debaixo do braço, beijava outras meninas na boca, bebia cachaça, fumava maconha.

E sentia o invisível e a textura densa do silêncio bíblico da hipocrisia evangélica de sua mãe Rute. E os cheiros e fluídos das amantes do pai, dr. Joaquim e sua fixação em putas, em pobres mulatas, autoritário, neurótico, intenso pai, que Andresa amava e queria para si e odiava e queria que morresse de uma vez.

Onde andava a bondade e a compreensão entre a burguesia brasileira, em 1964? Ah!, a autoridade positiva, a ordem, o progresso, a moral e os bons costumes…

Cansado dos intensos embates, dr. Joaquim crê não ter outra solução para Andresa que não o sanatório em Barbacena.

Dr. Joaquim conhece Guimarães Rosa num encontro na Academia de Letras de Barbacena. O Rosa discursa sob o brasão da cidade, que é o braço decepado do Tiradentes dentro do esotérico triângulo, e chama Barbacena “nosso lugar geométrico”. Dr. Joaquim admira aquele homem robusto e inteligente.

Dr. Joaquim não sabe que Andresa também conhecerá o Rosa.

Rosa está no pátio do hospício, a meditar. Gostava de observar as flores e os loucos, e vê Andresa, loucaflor, e Andresa o vê. Aproximam-se.

“Tens um gato sempre contigo”, Andresa lhe diz.

“Eu sei”, responde o Rosa, “e tu tens um lobo".

Uma pausa. Diz o escritor: "Rogarei para que te cures”.

“Sou apenas um sintoma”, diz a menina.

“Isto é, eu bem sei”.

“O que sou, é fenômeno da natureza, ou é de outro mundo?”

Sentaram-se, e olham as plantas, o sol, os ares.

Andresa: “Sonho com mansões, tão lindas. Caminho pelas ruas e olho as casas, atenta aos detalhes, tantos… tudo é nobre e rico, jardins com muitas árvores, belos cães, janelas, madeira e pedra, telhados em lindos formatos. Essa paisagem me dói muito por dentro, é muito forte. São como as fontes de cristal que sonhei bem pequena, e cuja lembrança me delira. Que mundo é esse que me invade por dentro, de bem dentro?”

Rosa não sabe, mas sabe.

Recita:

No jardim das Hespérides, sem flores
na discrição dos tufos de folhagem,
passeiam passos lentos
homens de túnica longa,
como os magos da Rosa-Cruz
…………………………………………………….

Os anciões perpassam
intérminos terraços,
com olhos tranquilos, olhos gelados,
de tanto olharem o sol.
E as mãos tateiam calmas,
como se os dedos mergulhassem
a translucidez de uma água,
esculpindo
invisíveis e impossíveis formas novas.

e os dois sorriem um pouco.

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“A loucura comunal deixa de ser loucura e torna-se mágica. Loucura governada por leis e em plena consciência. Todas as artes e ciências repousam em harmonias parciais. Poetas, loucos, santos, profetas”. Novalis.

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Parte de tudo neste conto é verdade. A primeira inspiração é um artigo de jornal (não tenho à mão agora, vou ver se acho lá em casa) sobre o esoterismo na obra do Rosa em que meu avô, Manoel Lobato, quando perguntado se Rosa era maçom, diz que "trocou sinais maçônicos" com ele (embora não existam, que eu saiba, registros oficiais da iniciação de Rosa em lugar nenhum).

Meu avô, que é escritor, escreve muito (e bem) sobre a loucura, tema de muitos diálogos nossos.

A primeira citação, do Rosa, e a última, de Novalis, eu tirei do artigo "Guimarães Rosa e a imagem poética", de Carlos Willer, publicado na revista Poesia Sempre, n° 28, ano 15, 2008.

A fala de Agnes Guimarães Rosa, filha do escritor, tirei de uma entrevista sua para a Revista do Livro, n° 45, ano 14, out. 2002.

O poema que Rosa recita é um trecho de Paraíso Filosófico, do livro Magma, e eu tirei daqui.

Indico também o discurso de posse do Rosa na ABL, onde ele diz que Barbacena é "nosso local geométrico". Aqui.

 

4.11.2009

Adentrismos Mestre Oluô Agenor

Dois adentrismos do Oluô Agenor Miranda Rocha, retirados do livro "Um Vento Sagrado", de Muniz Sodré e Luís Filipe de Lima.

Eu não entendo como é que tanta gente hoje em dia se deixa seduzir pelo dinheiro fácil e passa a cobrar por trabalhos, pelo jogo, por uma orientação qualquer. E cobram uma fortuna, até em dólar! No meu tempo, não havia isso. Aninha e Abedé, por exemplo, nada cobravam. Mas o candomblé foi-se transformando em comércio, até mesmo muita gente séria passou a agir assim. Costumo dizer que o candomblé evoluiu, sim, mas não em seus preceitos. Evoluiu nos figurinos e no hábito de se pedir dinheiro. A religião não pode ser um meio de sustento. Eu trabalhei minha vida inteira, hoje recebo minha aposentadoria e não peço nada a ninguém. E tasmbém nunca cobrei por jogo ou qualquer outro trabalho espiritual. Ora, isto foi um dom que Deus me deu, como é que eu vou cobrar dos que batem à minha porta? Os africanos de meu tempo, assim como os tios e tias nascidos no Brasil, viviam quase todos em grande dificuldade, mas nem por isso faziam de seu sacerdócio um comércio. Na maioria dos casos, dedicavam-se ao comércio ambulante, à estiva.

pp. 84.

Eu entendo o orixá como um vento sagrado. Quem é tomado por ele recebe, como se diz, um "barravento". Quando o orixá vem, às vezes está manifestado de forma serena - o vento está calmo; às vezes, o orixá começa a tremer, tremer convulsivamente - o vento está mais forte.

Eu não tenho superstição de qualquer tipo. Imagina, não colocar bolsa no chão, não abrir guarda-chuva dentro de casa, não colocar o chapéu em cima da cama… tudo bobagem! O que mais vale é o coração limpo, a mente limpa. O que estiver errado, o santo conserta.

pp. 99.

Axé! Mojubá tio Agenor!

Do rosário dos ifás
Nem zumbi é sabedor
Os segredos do seu povo
Só quem sabe é Oluô

Paulo César  Pinheiro, Oluô (samba).

Ativismo

Categorias: Crônicas

Dois ótimos posts sobre a questão das drogas no blog Not Tupi.

Poção Mágica de Satã.

Total e irrestrita.

Deusa

Categorias: Desenhos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

31.10.2009

Bichos

Categorias: Desenhos

Bichos

Categorias: Desenhos

Peixes

Categorias: Desenhos

adentrismo

Categorias: Adentrismo

 

 

30.10.2009

Um Leminski

Categorias: Poesia, Adentrismo

Hieróglifo

Todas as coisas estão aí
para nos iluminar.
Discípulo pronto,
o mestre aparece,
imediatamente,
sob a forma de bicho,
sob a forma de hino,
sob o vulgo de gente,
como num livro, devagar.

Mestre presente,
a gente costuma hesitar,
nem se sabe se o bicho sente,
o que sente a gente,
quando para de pensar.

Paulo Leminski, de O ex-estranho.

26.10.2009

Sonho com cartas

Categorias: Sonhos

Na sala de estar, sentados em roda, eu, minha irmã, o professor Pasquale e uma garota, adolescente e linda de morrer. Conversávamos quando apanho um maço de cartas de tarô. "Vamos cada um tirar uma carta", digo. Escolho a minha, sem olhar qual é, e estendo a mão com as cartas para os outros tirarem as suas. A garota demora um pouco a escolher, ajoelha-se no chão, pensa, e por fim apanha não uma, mas três cartas.

Pasquale mostra a sua. "A Morte". Eu digo: "Parece que nosso amigo professor Pasquale está enfrentando um momento de grandes mudanças em sua vida". Minha irmã mostra a sua, é um esqueleto. A carta pertence a um tarô xamânico que vi certa vez. Explico que ela indica a base, a estrutura de nossa vida e que tem um sentido de iniciação.

Minha vez. Minha carta mostra um gato preto e um coração. "Seu é o gato!", diz minha irmã. Dizendo isso um gato de verdade aparece, sobe no sofá e chega o rosto perto do meu. É um gato preto e branco. Acaricio-o, sentindo-me feliz. Um outro gato, também preto e branco mas não igual ao outro, aparece e toca meu rosto com a pata. "Está com ciúmes", diz minha irmã. Então ponho os dois gatos no colo, muito orgulhoso.

Agora a vez da jovem garota. Quando ela vai mostrar suas cartas, eu acordo.

Sonho anotado em 08 de setembro de 2007. O primeiro gato era o Bartolomeu.

Banda (velho desenho)

Categorias: Desenhos

24.10.2009

Espírito da Colmeia

Categorias: Cinema


22.10.2009

Sonho Tesouro da Biblioteca

Categorias: Sonhos

Lá estava eu na biblioteca pública, esquecido funcionário empoeirado. Foi então que Caela Terra entrou, toda cigana, dizendo que veio buscar os pertences de seu "antigo amor". Ela começou a arrastar todas as estantes, abrindo um espaço bem no meio da biblioteca. Ali, ela começou a cavar o chão, primeiro destruindo o mármore, com as mãos, então cavando, cavando… fui ajudá-la. Cavamos até encontrar uma arca.

Dentro da arca, há papéis, com desenhos e poemas. São os meus desenhos e poemas! "Estes são do homem que amei", diz Caela, olhando pra mim sem me reconhecer. Eu sei que sou eu, mas ela fala como se fosse uma outra pessoa, alguém que morreu faz muito tempo. Estou tão emocionado ali, vendo aqueles desenhos!

Adaptado de um sonho que anotei em 23 de agosto de 2005.

 


 

Estudos

Categorias: Estudos

Nosso povo viveu em três tempos: antes do contato, o contato e depois dele. O que temos de antes do contato aprendemos ouvindo histórias e através dos rituais sagrados - era um tempo de riqueza cultural, de fartura, em que vivíamos felizes em harmonia com a natureza. O que precisávamos pedíamos a ela e ela nos dava, sem pedir nada em troca. Nós éramos da natureza e a natureza era nossa casa.

Rânison Xacriabá, graduando no FIEI (Formação Intercultural de Educadores Indígenas)/UFMG. Tirado da revista (maravilhosa) Tabebuia, do projeto Literaterras da FALE - UFMG.

Em contraste com isto.

 

Adentrismo Llansol

Categorias: Poesia, Desenhos, Adentrismo

Fiquei a saber que o dom poético é a língua tocada pela expansão do universo, que este caminha para o vivo.

Maria Gabriela Llansol.

Outra!

Mais uma epígrafe para um livro sobre política no Brasil:

Se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse votação, Jesus teria de fazer coalizão com Judas.

Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro de 2009.

20.10.2009

Epígrafe para um livro atacando a classe política

Epígrafe do livro "O que o Sol tem a ver com isso?"

Nós somos um país tropical, nunca vão encontrar santos por aqui.

Fernando Gabeira, 18 de outubro de 2009. Tirei do Hermenauta também.

Coletânea de Epígrafes

 

Quando o jogo termina, Rei e Peão retornam para a mesma caixa.

 

Provébrio Italiano, tirei daqui.

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