30.8.2008

Aulinha

Categorias: Estudos, Poesia, Mistérios

Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida

Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.

Poesia sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.

Poesia, sobre o telúrio,
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade

28.8.2008

Sonho

Categorias: Sonhos, Desenhos

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

 

Neste século XX que passou, o Santo imprimiu suas marcas na vida brasileira.

No Rio de Janeiro, o Bispo. Ele era esquizofrênico ou tinha uma missão?

Ele acreditava que os anjos e a Virgem comandavam ele. Ele era Jesus o filho de Nossa Senhora. Mais um.

No Acre, Mestre Irineu. E quem vai julgar sem conhecer? E, conhecendo, quem vai julgar? O mestre não se julga.

Mestre dizia que era guiado pela Lua, a Virgem.

Hoje o daime, apesar de toda a polêmica, é respeitado e admirado no mundo todo. O vegetal. E as práticas tradicionais ligadas a ele são cultural e institucionalmente reconhecidas. Às vezes.

Hoje, o trabalho do Bispo do Rosário é reconhecido e admirado no mundo todo. Assim como o de Ernesto Nazareth. E Lima Barreto.

Eu vejo claramente Nossa Senhora agindo, criando… êta, Nossa Senhora!

É meu lado Adélia Prado.

Neste mesmo século, Chico Xavier observou: Minha vida foi desapropriada pelo sagrado.

 

27.8.2008

Saudade

Categorias: Crônicas
"Tenho saudades da minha terra
Tenho saudades da Aldeia Real"
Cantiga de caboclo 

 

 

Foto: Maravilhosa Raquel Tormin. 

 

26.8.2008

Adentrismos

Categorias: Estudos, Poesia, Adentrismo

Construí a minha casa no meio do país dos homens,
Mas não se ouve nela o ruído da sua passagem.
E, se me perguntas a razão, lhe digo:
Tenho o coração muito longe.

Na sebe do lado leste ocasionalmente apanho crisântemos;
Vejo do meu local tranqüilo a Montanha do Sul,
Com um sopro tão belo ao crepúsculo.
Filas de pássaros voam aos pares.
Tudo isso tem um profundo sentido,
E bem o queria dizer – mas esqueci a palavra.

Sebe do Leste, de T’ao Yuan-ming (365-427).
Ilustrações minhas. 


 

25.8.2008

Adentrismos

Hoje, a morte está diante de mim:
como a cura de uma doença,
como caminhar em um jardim, depois de ter estado inválido. 

Hoje, a morte está diante de mim:
como o cheiro da mirra,
como velejar com tempo bom e vento. 

Hoje, a morte está diante de mim:
como o curso de um rio,
como o retorno de um homem do campo de batalha para o lar.

Hoje, a morte está diante de mim:
como o lar que um homem anseia encontrar,
depois de anos passados no exílio. 

 

– Pyramid Texts (3000 BC)

 

http://www.molloy.edu/sophia/ancient_lit/death.htm

19.8.2008

Quem pra Quem?

Categorias: Estudos

Extraído do “Lieh Tzu”, clássico taoísta.

Certa vez, um homem promoveu um grande banquete, para uma centena de convidados. Quando alguém ofereceu um presente de peixe e frango, o anfitrião disse com apreço, “Deus é mesmo generoso com as pessoas, plantando cereais e criando peixes e frangos para nosso uso.”

A multidão de convidados ecoou tal sentimento. Um rapaz de uns vinte anos, no entanto, que esteve sentado no canto mais remoto da sala de banquete, veio à frente e disse ao anfitrião, “Não é como você diz, senhor. Todos os seres do universo são criaturas em par conosco. Nenhuma espécie é maior ou menor que a outra, elas somente controlam umas às outras pelas diferenças entre sua inteligência e poder; elas comem umas às outras, mas isso não quer dizer que foram feitas umas para as outras. Pessoas pegam aquilo que podem comer e comem, mas isso quer dizer que Deus fez aquilo para elas? Se for assim, uma vez que mosquitos mordem a pele e tigres e lobos comem carne, não seria correto dizer que Deus fez os homens para os mosquitos e criou a carne para os tigres e os lobos?”

 

 

Traduzi outros contos desse clássico taoísta. Para lê-los, aqui.  

Aforismo quilombola

Categorias: Crônicas

Não compre, plante!

 

17.8.2008

Brinquedos

Categorias: Poesia, Desenhos

Adultos andam de um lado para o outro
pisando meus brinquedos espalhados pelo chão 

deuses preocupados com absolutos
chutando displicentes meus detalhes
docemente ajeitados, combinados

amarrei uma fitinha no canto da porta
alguém nem viu, passou e esbarrou

montei um sorriso de pétalas de flores
que varreram sem parar, sem reparar

não faz mal não
tenho o que eles não têm
tenho tempo

suspiro e recomeço a construção
tecendo gravetos que sobraram de uma poda
adultos vêm e vão

ela, linda, passou por aqui um dia
sentou-se comigo, tomou minha mão
entre as suas, macias
adormeci em seu colo, ouvindo suave canção

deixou-me um presente

um boneco de madeira e lã
o boneco de um mago
de uma terra depois do mar,
depois da montanha, depois da areia

depois do islã

continuei pequeno, encontrável nos cantos
em silêncio ou resmungando
tecendo destinos de reinos de invenção

adultos morrendo passam procurando
com pressa aquela donzela que é meu irmão
não digo nada, mas tenho pena
não sabendo procurar, procuram-na em vão

 

14.8.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Tento habitar o palácio cujas portas arrebentou o aríete Monteiro Lobato.

Creio

Categorias: Estudos

"Originalmente o poeta era o líder de uma sociedade totêmica de dançarinos religiosos. Seus versos - versus é a palavra latina que corresponde ao grego strophe, ambas com o significado de ‘uma volta’ - eram dançados em torno de um altar ou recinto sagrado, e cada um deles dava início a uma nova volta ou movimento na dança. A palavra ‘balada’ tem a mesma origem: deriva do latim ballare, dançar, e designa o poema dançado. Todas as sociedades totêmicas na Europa arcaica se encontravam sob o domínio da Grande Deusa, a Senhora das Coisas Selvagens. As danças eram sazonais e se adequavam a um padrão anual do qual, gradualmente, emerge o grande tema poético único: vida, morte e ressurreição do Espírito do Ano, filho e amante da Deusa."

GRAVES, Robert. A Deusa Branca, pag 484.

13.8.2008

Fonte

Categorias: Desenhos

12.8.2008

Do Livro das Mudanças

Categorias: Estudos

32 - Trovão e vento

Continuidade 

"A tempestade parece uma drástica mudança para quem está confinado a um único local: primeiro ela vem, depois ela vai. Mas a tempestade apenas se move, ela vaga pela terra, sempre se comportando tal qual o clima, sempre uma expressão temporal das eternas estações. Conservando sua energia através de todas as mudanças, ela nunca se exaure completamente. Ela se conecta com o que sempre persiste e assim nunca esgota seu movimento. Mesmo as calmarias e o olho imóvel dos furacões são parte de sua força movente. O sábio, como a tempestade, conecta-se com o que sempre persiste. Assim, ficar firme, ou manter uma direção, significa balanço e adaptação. Tudo que se pode manter é uma meta de longo prazo, ou um sonho ou um propósito elevado.

Apenas algumas coisas que os humanos fazem agora estarão do mesmo jeito em dez mil anos. Persistir, sobreviver ou continuar significa aprender e mudar, estar aberto ao poder e à mudança, e transformar estes em vantagem. Pensamentos, e outras coisas com pontas afiadas, não se dão muito bem contra o tempo se eles não são renovados e reconstruídos de vez em quando. Gostamos de pensar em nossas mentes conscientes, em nossos "eus", como seres contínuos, embora toda noite eles pareçam não estar em lugar nenhum. Gostamos de pensar em nosso espírito sobrevivendo através do tempo, mas quem sabe dizer onde ele vai entre as vidas? O quê desta entidade segue com o tempo? Entre você e suas células, a quê você se reduz ou o quê mantém? O quê vai ser coerente ou se repetir? O quê realmente precisa continuar? A lua parece passar por fases radicais, no entando, no tempo de nossas vidas, ela praticamente não muda. Meios de vida ou de aprendizado são passados de ser para ser, como passamos tochas ou títulos. Este processo que a vida tem para aprender dura, persiste. Nós somos o que ficou daquele velho e úmido peixe que primeiro se arrastou para a praia. Algo daquele sujeito permanece. Persistimos nos adaptando, não ficando sempre os mesmos."

11.8.2008

Budistas

Categorias: Poesia

1

Volta para a mente original
não vá contra sua natureza 

estamos cada vez mais feios
mais distantes 

ele está feio agora,
mas sua alma é bela
a alma que ali vai é bela,
mas enfeiou-se com os anos

ocultou-se na feiura
lá se encontra, ache-a 

2 

Retornando ao ser original
embriagando-se de suco de uva

léguas e léguas caminhadas
para dentro do sertão do erro
repetindo, débilmente
eu só quero ser amado, eu só quero ser amado

sendo picado pela cobra
retornando para o lago 

3 

Nascendo para o não-nascido
alcançando o antes

digo um sonho e a palavra sonho
ecoa
deita-se na relva com os animais 

retornando à mente original
quem passa diz:
tipo um budista 

7.8.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Tapete Voador

Dois tambores e uma cítara
é a receita de voar
um tapete
um narguilê
e santa maria ganja

bate tambor
ritmo mole
voz de clementina

donde esta luz quente
um leite
em que és peixe
e nadas

giro de muitos braços
vê-la te faz chorar?
beija e perdoa
gira de novo
não te demores
num mesmo lugar

pó das fadas
pirlimpimpim
pensar coisas boas

um pã de pêlo oleoso
fedorento
cuspindo vinho?

olha de novo
bela flauta
passarinho plumadinho
de verde e dourado

giro de pés
molejo
pedro pã e o peão
a piorra
o mundo
a pipa
a nave estelar

não tema que te dilacerem
e te dilaceram
e te comem

tambor e cítara
te recompõem
sempre mais puro

5.8.2008

Dama de Espuma

Categorias: Poesia

Dama de Espuma (ou o quê ela me disse naquela noite fria e quente)

Dama de espuma
hálito
gosto de sal 

embriagada
sopro em tua nuca
mergulha, homem

dama de espuma
tenho teu pau
na ponta da língua

de doida, meu riso
suado perfume
me fode, homem 

4.8.2008

Afronta

Categorias: Poesia

A criança
Quando passa um avião
Faz que o agarra no ar
Guarda-o por dentro da blusa
E faz um pedido

Quando cai uma estrela cadente
Faz-se um pedido
"Me leva", é como soam os pedidos

Olhamos ansiosos os brilhos no céu
Esperando, com saudade,
Esperando que eles voltem
Que eles finalmente voltem
Para nos buscar
Para nos levar de volta 

Estranhos prazeres
Soltar papagaio
Tacar pedra no fundo do rio
Por que isso nos fascina?

É que algo de nós vai na pipa
Na pedra

Soltar papagaio
Tacar pedra no fundo do rio
É um desafio aos limites
É uma afronta ao inalcançável

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