Adentrismo
Dois poemas de Cecília Meireles.
ESTUDO NA LOJA DO SONHO
Doce estudo.
Doce estudo aquele.
Tínhamos vagas flores
pousadas nos cabelos
como poetas antigos,
deuses, mortos recentes.
Doce estudo aquele.
Tocávamos longas harpas,
cordas frouxas de seda,
não para sermos ouvidos:
para invenções, apenas.
Doce estudo.
Clara tranquilidade
dos olhos transparentes.
Corpo sem qualquer fúria,
alma: cristal atento.
Doce estudo aquele.
Escolhíamos tempo.
Vivíamos nunca e sempre.
Trocávamos nomes, datas,
éramos outros e os mesmos.
Doce estudo.
Não tínhamos noite ou dia:
estrelas e planetas
solitários expunham
movimento e desenho
de divinos esquemas.
Doce estudo aquele.
Nada era necessário:
em nossas curvas harpas
refletia-se tudo
em som: nuvem sem peso.
Na seda frouxa soavam
sombras que íamos vendo.
Doce estudo.
[Sonhos, 1961]
COM AS MINHAS LIÇÕES BEM APRENDIDAS
Com as minhas lições bem aprendidas, com meus exercícios bem feitos, estudante empírico, autodidata aplicado, tenho todos os sofrimentos aceitos pela minha e por outras vidas.
Com o peso da minha humildade, montanha enorme sobre os meus ombros, estudante empírico, autodidata aplicado, vou com meus olhos de vastos assombros pelas ruas novas da nova Cidade.
Meu nome não sabes, nem é necessário, e de família e nascimento, estudante empírico, autodidata aplicado, ficaram os dados perdidos no vento, aéreas letras de registro vário.
Minha aprendizagem é uma calma conquista, para as provas de qualquer instante: estudante empírico, autodidata aplicado, em alma e corpo sou memória de diamante, vida sem pálpebra, disciplinada vista.
Mas decerto o que aprendo é meu somente, meu patrimônio incomunicável, sem herdeiro; estudante empírico, autodidata aplicado, professor meu sou e único aluno verdadeiro, e, a minha, é a escola comum da humana gente.
Apenas meu esforço ultrapassa noite e dia, torna-me em aula constante o tempo do mundo, estudante empírico, autodidata aplicado, desvalido, em mim mesmo, e para além, me aprofundo, para o curso já sem palavras da sabedoria.
[Estudante Empírico, 1961]
In: MEIRELES, Cecília. Poesia Completa, Volume 4. pp. 104 e pp.174.
