25.9.2008

Adentrismo

Categorias: Poesia, Adentrismo

Dois poemas de Cecília Meireles.

ESTUDO NA LOJA DO SONHO

Doce estudo.
Doce estudo aquele.
Tínhamos vagas flores
pousadas nos cabelos
como poetas antigos,
deuses, mortos recentes.
Doce estudo aquele.
Tocávamos longas harpas,
cordas frouxas de seda,
não para sermos ouvidos:
para invenções, apenas.
Doce estudo.

Clara tranquilidade
dos olhos transparentes.
Corpo sem qualquer fúria,
alma: cristal atento.
Doce estudo aquele.

Escolhíamos tempo.
Vivíamos nunca e sempre.
Trocávamos nomes, datas,
éramos outros e os mesmos.
Doce estudo.

Não tínhamos noite ou dia:
estrelas e planetas
solitários expunham
movimento e desenho
de divinos esquemas.
Doce estudo aquele.

Nada era necessário:
em nossas curvas harpas
refletia-se tudo
em som: nuvem sem peso.
Na seda frouxa soavam
sombras que íamos vendo.
Doce estudo.

[Sonhos, 1961]

COM AS MINHAS LIÇÕES BEM APRENDIDAS

Com as minhas lições bem aprendidas, com meus exercícios bem feitos, estudante empírico, autodidata aplicado, tenho todos os sofrimentos aceitos pela minha e por outras vidas.

Com o peso da minha humildade, montanha enorme sobre os meus ombros, estudante empírico, autodidata aplicado, vou com meus olhos de vastos assombros pelas ruas novas da nova Cidade.

Meu nome não sabes, nem é necessário, e de família e nascimento, estudante empírico, autodidata aplicado, ficaram os dados perdidos no vento, aéreas letras de registro vário.

Minha aprendizagem é uma calma conquista, para as provas de qualquer instante: estudante empírico, autodidata aplicado, em alma e corpo sou memória de diamante, vida sem pálpebra, disciplinada vista.

Mas decerto o que aprendo é meu somente, meu patrimônio incomunicável, sem herdeiro; estudante empírico, autodidata aplicado, professor meu sou e único aluno verdadeiro, e, a minha, é a escola comum da humana gente.

Apenas meu esforço ultrapassa noite e dia, torna-me em aula constante o tempo do mundo, estudante empírico, autodidata aplicado, desvalido, em mim mesmo, e para além, me aprofundo, para o curso já sem palavras da sabedoria.

 [Estudante Empírico, 1961]

 In: MEIRELES, Cecília. Poesia Completa, Volume 4. pp. 104 e pp.174.

24.9.2008

Pitágoras? Ou mais tarde?

Categorias: Sonhos

Eu sonhei com o mestre, numa casinha num campo gramado. Ele era negro e também branco; era chinês, e era também o Chico Xavier. Sentamo-nos à mesa. Tudo muito simples, calmo e bom. Lembro bem do mestre. Não lembro tão bem de mim mesmo.

 

23.9.2008

Poema críptico para cinéfilos

Categorias: Poesia, Crônicas, Cinema

o nascimento de uma nação:
a invasão do sítio do pica-pau amarelo
pelo zumbi dos palmares

 

 


Adentrismo

"My wealth let sons and brethren part. Some things they cannot share: my work well done, my noble heart — these are mine own to wear."

Geber (daqui)

Minha riqueza deixai filhos e irmãos repartir. Algumas coisas ninguém pode partilhar: meu trabalho bem feito, meu nobre coração - estes só eu posso gozar.

 

19.9.2008

Adentrismo

Categorias: Estudos, Adentrismo

"Ser livre é, antes de tudo, escapar da escravidão que a ignorância impõe, da escravidão que em nós mesmos reside, e trazer a inteligência a iluminar os atos e as vidas; ser livre é compreender que a injustiça é o mal, e que a ordem social não deve ser a ordem exterior, prepotente, resultado de uma imposição tirânica, mas sim o acordo entre todas as aspirações".

In BOMFIM, Manoel. América Latina: Males de Origem. pp. 334, citado em AGUIAR, Ronaldo Conde. O Rebelde Esquecido: Tempo, vida e obra de Manoel Bomfim, pp. 26. O grifo é do Aguiar.

18.9.2008

Delírio

Categorias: Estudos, Crônicas

"Há ainda uma terceira espécie de delírio: é aquele inspirado pelas Musas. Quando ele atinge uma alma virgem e pura, transporta-a para um mundo novo e inspira-lhe odes e outros poemas que celebram as gestas dos antigos e que servem de ensinamento às novas gerações.

Mas quem se aproxima dos umbrais da arte poética, sem o delírio que é provocado pelas Musas, julgando que apenas pelo intelecto será bom poeta, sê-lo-á imperfeito, pois que a obra poética inteligente empalidece perante aquela nascida do delírio".

In PLATÂO. Fedro.

15.9.2008

Estudo

Categorias: Estudos, Mistérios

"O pajé aproximou-se e fez duas voltas ao redor do círculo cantando na língua dos espíritos. Fazia isso e balançava a pena de mutum contra o vento com o objetivo de equilibrar o universo e nossa vida. Em seguida pediu que eu fechasse os olhos porque eu iria atravessar o portal do tempo e me reencontrar com a tradição. Confesso que fiquei com medo mas obedeci. Peguei uma cuia que ele me ofereceu e tomei seu conteúdo num único gole…

O TÚNEL DO TEMPO 

Minhas lembranças e meu corpo foram transportados para outra dimensão. Encontrava-me num lugar desconhecido para meus olhos, porém muito familiar a meu espírito. Ali encontrei os meus antepassados, que antes so encontrara em sonhos. Receberam-me como quem estava sendo esperado há muito tempo. Com eles conversei bastante usando a linguagem do sonho. Ensinaram-me coisas que eu não conhecia e, acho, não teria tempo de aprender jamais. Tudo era muito rápido. Um autêntico cursinho pré-vestibular onde muita coisa é relembrada ao aluno, coisas que ele já sabia, mas que havia esquecido.

Enquanto estive ali - imaginei que era muito tempo, mas foi puro engano quando voltei à realidade -, ia ouvindo as vozes dos antepassados que me sussurravam a sabedoria antiga. De olhos fechados via o universo sendo criado, os antigos morando no centro da terra, num mundo perfeito. Via os espíritos criadores atuando sobre nossa gente, trazendo benefícios a todos; alertando nosso povo a trilhar o caminho do bem, da paz, da harmonia. Vi nossos antepassados lutando para sobreviver, construindo uma sociedade igualitária, uma sociedade que não permite que uns tenham mais que os outros; vi nossa gente, enfim, cantando, dançando, contando e ouvindo histórias para manter a tradição viva, permanente. Quanta coisa bonita de ver! Quanta alegria, felicidade, harmonia!

Depois de viver os caminhos dos antepassados, abri meus olhos e voltei a ver a realidade que me cercava. Nesse instante o velho pajé aproximou-se e disse-me que minha experiência havia terminado."

In: MUNDURUKU, Daniel. Um Estranho Sonho de Futuro. pp. 85-87.

The End segundo Lennon e Mcartney

Categorias: Poesia

"And in the end, the love you take
is equal to the love
you make"

14.9.2008

Nova Era

Categorias: Crônicas, Sonhos

Sonho com uma casa pegando fogo. Assisto da calçada. Alguém se aproxima e diz que aquilo era parte da profecia. “Eu vim trazer a espada para separar o pai do filho”. Olho para o céu. Há incontáveis luas, de vários tamanhos. “O planeta”, continua o outro, “está entrando numa nova era astronômica”. Uma das luas vem caindo rapidamente em direção à terra. Vendo-a agora tão próxima, parece de borracha.

12.9.2008

Sabá

Categorias: Estudos, Poesia, Mistérios

Na calçada da avenida Paraná, apinhada de carros fumacentos, camelôs  e música sertaneja, pedestres, antenas, formigas, em frente a uma loja da Nova Brasília.

Duas caixas enormes contêm milhares de pés de meia, de todas as cores e modelos. Uma placa diz:

“Promoção. Meias de criança sem par: R$ 0,50 a unidade.”

Uma dúzia de mulheres circundam os caixotes caçando meias com habilidade, buscando formar pares com as mais parecidas, num agitado e colorido fuçar e comparar.

No ombro de cada mulher está pousada uma coruja.

As corujas parlamentam.

 

 

11.9.2008

Estudos em dança e música

Categorias: Estudos

Esse poder da música para integrar e curar, para libertar o parkisoniano e dar-lhe liberdade enquanto dura a canção ("Você é a música/ enquanto durar a música", T.S. Eliot), é absolutamente fundamental e pode ser observado em todos os pacientes. Isso foi mostrado e discutido admiravelmente com grande perspicácia por Edith T., ex-professora de música. Ela afirmou que se tornara "desgraciosa" ao ser acomentida pelo Parkisonismo, que seus movimentos passaram a ser "rijos, mecânicos - como os de um robô ou uma boneca", que ela perdera sua "naturalidade" e "musicalidade" de movimentos originais, que - em uma palavra - ela se tornara "amúsica". Felizmente, acrescentou, a doença fora "acompanhada por sua própria cura". Ergui uma sombrancelha. Ela explicou: "A música. Como fiquei amúsica, preciso ser ‘remusicada’". Muitas vezes, contou, ela se achava "hirta", completamente imobilizada, destituída da força, do impulso, da idéia de qualquer movimento; nesses momentos, sentia-se "como uma fotografia, uma moldura rígida" - um mero plano óptico, sem substância ou vida. Nesse estado, nessa ausência de estado, nessa irrealidade intemporal, ela permanecia imóvel e impotente até aparecer a música: "Canções, melodias que eu conhecia de anos atrás, melodias atraentes, melodias rítmicas, do tipo que eu adorava para dançar".

Com aquela repentina imaginação da música, aquele aparecimento espontâneo de música interior, o poder de movimento e ação retornava subitamente, bem como o senso de substância, de personalidade e realidade restaurada; então, como explicou Edith, ela podia "sair dançando da moldura", do visual plano e rígido em que estava presa, e mover-se com liberdade e graça: "Era como se de repente eu me lembrasse de mim mesma, de minha melodia de viver". Porém, da mesma maneira inopinada, a música interior cessava e, junto, desaparecia todo movimento e realidade, e Edith recaía instantâneamente no abismo parkisoniano".

in SACKS, Oliver. Tempo de Despertar. nota pp. 93/94. O grifo em negrito é meu.

8.9.2008

Aforismo

Categorias: Crônicas

Enquanto nada aconteceu, tudo pode acontecer.

7.9.2008

Samba Sufi Mata ou Dá Vida

Categorias: Estudos

"(…) O mais chamativo dos fatos sobre a música entre os Chishtis* é a morte de Qutb al-Din Bakhtiyar Kaki no fim de uma sessão musical em Delhi, em 1235 (sua tumba está em Qutb Minar ao sul de Delhi). Ele entrou em êxtase quando os cantores recitaram um verso Persa de Ahmad-i Jam: Aqueles golpeados pela faca da submissão / sempre desde então encontram vida. O costume diz que, quando alguém entra em êxtase durante tais sessões, deve-se repetir a mesma linha do verso até a pessoa retomar os sentidos.

A tradição oral informa que, cada vez que os cantores entoavam a primeira parte do verso, Qutb al-Din era conduzido próximo à inconsciência (’golpeado pela faca da submissão‘); mas quando a segunda parte do verso era recitada (’sempre desde então encontram vida‘), ele revivia. De acordo com a história, os discípulos de Qutb al-Din mandaram parar a música depois que já a repetiam por três dias inteiros. Infelizmente, os cantores pararam no meio do verso, e o santo homem morreu. Este não é de forma alguma um caso isolado de morte durante um sama’ **. Coleções biográficas estão cheias destes incidentes, o mais recente deles tendo acontecido menos de um século atrás quando um Sufi Chishti chamado Muhammad Hussayn Ilahabadi morreu em Ajmer durante a recitação de versos sobre a ascensão do Profeta."

 * uma seita ou ramo dos sufis.
** uma roda de samba sufi.

Traduzido de: THE SHAMBALA GUIDE TO SUFISM. Carl W. Ernst, Ph. D. pp. 186.

 

Se eu fosse te dizer adeus em palavras

Categorias: Estudos, Poesia, Crônicas

Se eu fosse te dizer adeus em palavras

ai, que palavras?

eu só preciso do tempo de um olhar, que dirá por si próprio. se eu fosse te encontrar um dia, eu só daria a chance, de se manifestar.

tudo cairia.

I Ching

50. O caldeirão

sobre a madeira a chama: caldeirão. assim para cumprir sua missão, o adepto se posiciona.

como a madeira e o vento, que alimentam a chama de baixo, a lenha inerte se torna, uma vez mais, luz do sol. / cuidando do fogo está o alquimista, experimentando com a luz e o calor, criando novas artes. / posicionado sobre a chama está o caldeirão.

de acordo com a receita, as coisas cruas se ajuntam para convergir nos resultados esperados, o princípio e o propósito do mais alto, para o qual estas mudanças são oferecidas. / os sábios estão tentando criar a mais alta cultura, alimentando a saúde e a excelência, a nobreza e uma ética. / xamãs, com poções e medicinas, criam estas mudanças em seus estados alterados. / conhecimento, como ciência aplicada, deve lidar com o presente, mas servirá a um propósito.

o caldeirão é a oferenda mais promissora

o soberano prefere governar uma cultura mais desenvolvida. / para este fim, ele pode usar sua posição, e o que ele sabe sobre a ciência, para alimentar e trazer à tona o melhor que há em seu povo. / o sábio cuida da chama e do caldeirão para assegurar o sucesso da oferenda. / a fórmula que os antigos alquimistas procuravam estava atuando debaixo de seus cadinhos o tempo todo enquanto eles a buscavam acima. / eles tinham apenas que fazer as analogias viverem, aplicá-las no mais largo sentido. / para o cozinheiro, também, que vai alimentar as promessas da humanidade: a primeira coisa que ele precisa é de combustível, um bom sopro de ar e umas fagulhas. / em seguida, o local dedicado à mudança, os temperos crus e bons apetites. / a alquimia serve a propósitos e poderes superiores, o chumbo do nosso ser torna-se ouro, torna-se uma vida a que damos valor; o estômago transforma comida em luz, um cozido é transformado em serenidade, coragem e sabedoria. / deliciosos aromas atraem os espíritos para nos ajudar. / então, o que é sacrificado aqui, senão alguns feixes de lenha, e estes ingredientes básicos, submetidos à transformação? / sacrificar não significa perder as coisas: significa torná-las sagradas.

assim o passado é sacrificado aqui, redimido para um valor maior.

traduzido daqui: http://www.hermetica.info/

5.9.2008

Beleza

Categorias: Estudos, Poesia, Mistérios

O casamento da alma

Descendo à terra,
aquela estranha e inebriante beleza do mundo invisível
repousa nos elementos da natureza.

E a alma do homem
que alcançou o correto equilíbrio,
percebendo esta alegria oculta,
faz-se enamorada e enfeitiçada.

E deste místico casamento nascem
as canções do poeta, conhecimento interior,
a linguagem do coração, o viver virtuoso,
e a linda menina Beleza.

A Grande Alma dá ao homem como dote
a glória oculta do mundo. 

Do THE SECRET ROSE GARDEN OF SA’D UD DIN MAHMŪD SHABISTARĪ, RENDERED FROM THE PERSIAN WITH AN INTRODUCTION BY FLORENCE LEDERER, London, J. Murray [1920]

4.9.2008

Tao Te Ching

Categorias: Estudos, Poesia, Mistérios

… do Tao Te Ching.

18

Quando o grande Tao se perde, há Virtude e Justiça.
Quando os entendidos e os sabidos se manifestam, há grande hipocrisia.
Quando as seis relações não estão em harmonia, há piedade filial e compaixão.
Quando o país está em crise, leais servidores aparecem.

19

Liberte-se da "sacralidade" e abandone "sabedoria" e as pessoas serão beneficiadas, cem vezes.
Livre-se de "caridade" e abandone "Justiça" e o povo vai se voltar para a compaixão e piedade.
Livre-se da esperteza e abandone o lucro, e os ladrões e bandidos não vão mais existir.
Uma vez que os três acima são apenas palavras, eles não são suficientes.
Logo deve haver algo que inclua por inteiro aos três.
Veja a origem e mantenha o estado não-diferenciado.
Abaixe o orgulho e diminua o desejo.

20

Livre-se de "aprender" e não haverá ansiedade.
Quanta diferença há entre o "sim" e o "não"?
Quão longe um do outro estão "bem" e "mal"?
No entanto, o que deixa as pessoas perplexas não deve ser desconsiderado.

Estou espalhado, nunca tendo estado num centro confortável.
Todo o povo se diverte, como se estivesse no Festival do Grande Sacrifício,
Ou escalando a Plataforma da Primavera.
Eu, sozinho, permaneço, não tendo ainda me revelado.
Como uma criança que ainda não riu.
Cansado, como alguém desesperado, sem um lar a que retornar.
Todo o povo aproveita em dobro, enquanto eu deixei tudo para trás.
Ignoro o que se passa na mente dos outros.
Tão bobo!
Enquanto a maioria das pessoas é limpa e clara, eu somente sou obscuro.
O povo em geral sabe tudo.
Só para mim tudo parece encoberto.
Tão liso!
Como o oceano.
Soprando por aí!
Parece que não há lugar para descansar.
Todo mundo tem uma meta em mente.
Eu somente sou ignorante como uma abóbora.
Eu somente sou diverso das pessoas,
Ainda vivendo junto de mamãe.

 

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