"Antigos presentes! A memória não recupera o passado, não. Recupera antigos presentes!"
Claudio Ulpiano, daqui.
Batuque na Lapinha da Serra - MG. Foto: Clóvis Fabrício.
"Antigos presentes! A memória não recupera o passado, não. Recupera antigos presentes!"
Claudio Ulpiano, daqui.
Batuque na Lapinha da Serra - MG. Foto: Clóvis Fabrício.
Pra cantar samba
Não preciso de razão
Pois a razão
Está sempre com dois lados
Amor é tema tão falado
Mas ninguém ouviu
Nem cumpriu a grande lei
Cada um só ama a si próprio
Liberdade, igualdade
Aonde estão? Não sei
Mora na filosofia, morô, Maria?
Pra cantar samba
Vejo o tema na lembrança
Cego é quem vê
Só aonde a vista alcança
Mandei meu dicionário às favas
Mudo é quem
Só se comunica por palavras
Se o dia nasce
Renasce o samba
Se o dia morre
Revive o samba
Mora na filosofia, morô, Maria?
Filosofia do Samba, Candeia.
"Como compreender que permaneçam com tanta força lideranças e mecanismos de poder preservados e/ou construídos no período da ditadura, pela e para a ditadura? Como se sabe, do latifúndio ao poder incontrastável dos bancos, da mídia monopolizada de Roberto Marinho aos serviços públicos deteriorados da saúde e da educação, da dívida interna à externa, de José Sarney a Antônio Carlos Magalhães, passando por Delfim Neto, são inúmeras as continuidades entre as trevas da ditadura e as luzes da democracia. E o que dizer da cultura política autoritária, cuja vitalidade ninguém pode contestar tantos anos depois de fechado o período da ditadura militar?"
Em REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade, pp. 10.
"Inspirado como um boi no pasto
Inspirado bem alimentado e casto
Inspirado como um boi sem saco
Pacato, capado e sem pecado
Como um boi mascando seu amido
Tudo lindo e semi-adormecido
Som macio e gosto colorido
E o vazio lotado de infinito
Inspirado e gordo como gado![]()
Carne fresca recheando o couro
Com um olho para cada lado
Inspirado como nem um touro
Inspirado como um boi pesado
Esperando amor no matadouro"
Edvaldo Santana
Nas matas do Brasil, mistérios do Rei Salomão. Quem entende esse país maluco? Mário de Andrade? Conheci negro a favor de Dom João VI, conheci índio progressista, conheci branco que andava nu que nem bicho. Há favelados que são nobres aristocratas, há ricos na lama lambendo o resto do crack na lata. Mas há, na maior parte, em comum, a ignorância. Os professores não querem ensinar, os alunos não querem aprender. Imprimem-se livros e mais livros para analfabetos.
Andava a pé pela estrada de terra, flauteando, quando passou um amigo, de carro, e brincou, "Eia Pedrinho, lá vai pro Sítio do Pica-Pau
Amarelo?" Lá ia, sim, para um sítio onde batemos nosso candomblé de caboclo, onde tomamos do vegetal misterioso da floresta e entramos em contato com os encantados, dançando, cantando, batendo tambor, tocando maracá, executando rituais. Na Umbanda, mãezona, a gente tenta fazer a utópica união entre negros, índios e brancos. A gente tenta casar o positivismo, o espiritismo, o iluminismo, com nosso nativo dionisismo, misticismo, primitivismo. Dá certo, será?
E eu que me chamo Pedrinho e também Lobato, à toa que me chamo isso, fiquei meditando, num é que é? E o pó do pirlimpimpim é a névoa da Jurema, a força do Vegetal, que rompe os limites do sonho e da realidade, que rompe os limites entre o além e o aqui, e nos ajuda a, eventualmente, ligar nós com nós mesmos.
Se diz, ideia besta, essa de sítio do pica-pau, com cucas e sacis, e pó mágico - mas que gerou uma semente na minha cabeça, me fez reler os livros do Lobato, que são livros de um tanto de gente, que Lobato era, sim, canibal, e ler suas biografias, ler muito Marisa Lajolo e ler o Furacão na Botocúndia, e ler o infeliz Presidente Negro. E foi num bom timing meu interesse porque logo veio o Pre-Sal e o Barack Obama… o porviroscópio do Lobato era bom. Sua visão é que era meio… diferente
da minha, vamos dizer assim. O porviroscópio mostra, mas cada um tem seu olho pra ver… José Bento, que homem mais oportunista era este! Importando ideias e adaptando-as ao Brasil, brincou de Positivista, de Progressista, de Eugenista, de Fazendeiro, de Capitalista, de Comunista. Que deserviço fez comparando as histórias que vinham do povo mestiço e negro e índio brasileiro com as dos livros europeus, reforçando um padrão colonialista etc. etc. Muito o que reclamar do Lobato!
Mas eu peguei o sítio pra mim, como muita criança fez. Habitei o sítio, como era o sonho dele. Mas meu sítio é multicolorido… eu casei com a pretinha, eu vi nobreza africana e barbaridade branca. Pra mim qualquer índio é mais cristão que o Papa! É como uma relação de filho e pai, em que você herda, mas algumas coisas você confronta, você tenta derrubar. A modernidade tinha a utopia do progresso, a modernidade olhou com muita fome para a ciência: saber tudo, controlar tudo, humanizar tudo, estatizar tudo, libertar tudo. Fausto, Golem, Caligari. O mito do botão vermelho da bomba atômica. Poder sobre a criação. Frankenstein. Transgenia.
Para acalmar essa dor, goles de natureza. Gota de orvalho. E cultivar o singelo amor. Porque tecnologia é bom, quando é útil e divertido. Mas no coração dos homens… citando a Carta aos Mortos do Affonso Romano de Sant’Anna: "Amigos, nada mudou em essência. Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina." Ouso crer que há mudança, sim, mas, como diz o Mestre Chuang, nosso conhecimento é limitado, e o universo, ilimitado. Aquele que busca compreender o ilimitado usando o limitado corre sério risco de ficar lelé.
A Globo, seguindo Jorge Amado, que opinou que as crianças não precisam de subterfúgios como o "rapé mágico" para ir para o mundo da imaginação, tirou o pirlimpimpim da sua versão internética do sítio. Mas os mil psiquiatras e a indústria farmacêutica que nos digam sobre a força do signo: o elixir cabalístico, o ópio de cada dia, a pílula azul, Aleph, Beth, X, Y. Dois de manhã e dois à tarde. Tá garantida vossa felicidade.
Lobato, ariano, meteu as caras! Pôs pra fora um monte de feridas, ainda não superadas.
A ele, homenagens!
PS. Sobre ele: Lendo e Escrevendo Lobato, muito bom, de onde eu tirei a crítica do Jorge Amado. E Furacão na Botocúndia, muito bom também.
"Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma".
Vinícius de Moraes
Raíz-Bem-Firme-No-Céu andava pelo lado ensolarado da montanha. Quando ele veio dar à beira de um límpido riacho, encontrou o Homem-Sem-Nome e lhe disse: "Posso, por favor, perguntar-lhe sobre como governar o mundo?"
"Sai daqui, seu chato", respondeu o Homem-Sem-Nome. "Tal questão não tem graça nenhuma. Logo agora, estou para juntar-me ao criador de tudo; e, depois disso, vou fazer-me um passarinho e voar à-toa por aí. Porquê vem me encher a cabeça com tal pergunta, como se eu me preocupasse com este tipo de coisa?"
Mas Raíz-Bem-Firme-No-Céu repetiu sua pergunta. Então o Homem-Sem-Nome respondeu:
"Ande com o coração leve, adote uma atitude indiferente, siga espontâneamente com as coisas, deixe-as seguir seu curso natural e não se ache grande coisa - assim o mundo se governa".
Chuang Tzu
a lei que faz o bandido
a posse faz o ladrão
não haveria tráfico
se não houvesse proibição
de que me serve mocinho
se não existe vilão?
se moisés precisou fixar as leis numa tábua
é que os homens já não seguiam suas leis
quem segue leis gravadas em tábuas
verá suas leis se tornarem pó
e que leis seguem os cupins?
que leis seguem os leões?
a lei que faz o bandido
a posse faz o ladrão
não haveria tráfico
se não houvesse proibição
de que me serve mocinho
se não existe vilão?
nosso povo oprimido
rebola para seguir certas leis
leis que os autores das leis
eles mesmos não seguem!
quanto mais leis tem um povo
mais difícil ele é
é assim desde os tempos
de antes da arca de noé
a lei que faz o bandido
a posse faz o ladrão
não haveria tráfico
se não houvesse proibição
de que me serve mocinho
se não existe vilão?
Para ouvír o samba na sofrível interpretação do autor, clique aqui.
Um vizinho ligou e denunciou um pezinho de maconha no quintal de uma amiga. Quando dez PMs entraram na casa, minha amiga estava com a filha de 7 anos. Os PMs reviraram a casa toda, hostilizando, ameaçando. Assustada, a criança começou a chorar. A mãe foi abraçá-la e os policiais a impediram, disseram "a menina agora é nossa". Ligaram para o conselho tutelar.
Diante do conselho, o pai da criança afirma que sua mulher é uma boa mãe. A delegada retruca, "Boa mãe? Como uma mulher que fuma isso, ainda por cima na presença da filha, pode ser uma boa mãe?" O conselho passa a guarda da menina ao pai. "A gente pode te visitar a qualquer momento, inclusive à noite. Se sentir um cheirinho sequer, ou houver qualquer indício, nós tomamos a guarda da menina".
Sobre uma mesa, ali na delegacia, a ‘evidência’, o vaso, com a plantinha dentro. Uma planta. O casal não possuía armas, ou outras drogas, a mãe não estava embriagada ou cometendo atos de violência, eles não vendiam nada - eram usuários de maconha e tinham um pé de maconha em casa.
A polícia e o estado têm uma cultura de violência, de terrorismo, de intimidação com as camadas mais pobres. Há diversos mecanismos criados pelo próprio estado para marginalizar e criminalizar uma parcela da população. É simples: a ideia de liberdade, de igualdade e de direitos humanos não tem duzentos ou trezentos anos; o hábito da escravidão, do preconceito, da dominação pela violência, é multi-milenar.
Bom, nestes dias de novembro chuvoso de 2008, entre tantas sérias bandeiras a se levantar neste mundo, levantamos essa. Paz! Amor!
Liberdade pra plantinha!
“Humildade
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”
Cora Coralina
Cortei as mãos em você, matei-me, sem querer, no meu desleixo, de te amar.
Agora que o barco se quebrou e chegou o dia do grande desastre, eu queria salvar alguma coisa. Meu corpo, imperfeito, meu cabelos precocemente brancos e parcos, minhas rugas de melancólico filósofo, e meu pênis, vivo companheiro, estarão sepultados no mar… e tudo que é pesado se desmancha, e minhas blasfêmias contra a vida, e meus desejos de possuir a beleza. Tudo isso se perde.
Eu queria salvar alguma coisa - aquele pequeno fauno, aquele anjo furtivo, que eu era quando não percebia, eu esquecia de ser e era. Uma intimidade com os animais, um choro de manhã chuvosa, um quintal misterioso.
Eu te amo tanto, eu me sinto tão traído, tão abandonado…
Reeditando, com link melhor:
Yes We Can (Legalize Marijuana)!
Em homenagem a um casal de amigos, preso por ter um pezinho de maconha no quintal. Quilombo, aqui, é a terra onde a gente concorda com as leis sobre as quais vive!
Bonita
o sol da tarde batendo na cortina
bonita pé de tangerina
Bonita
a criança e o velho dando as mãos
bonita pé de limão
Bonita
o sorriso que não se esperava
bonita pé de jabuticaba
Bonita
o aluno que de repente ensina
bonita a estrela vespertina
Bonita
são joão com seu manto todo azul
bonita vênus e o cruzeiro do sul
Bonita - brilho
Bonita - luz
Construindo muros os porquinhos se protegem do Lobo Mau; mas quem é o Lobo Mau? Desconfio que o porquinho construtor de muros e o Lobo Mau sejam sócios. Os ingleses acabaram com a escravidão? Somos unânimes em condenar os porquinhos imprudentes tocando flauta e rabeca, satisfeitos com choça de palha e pau, indiferentes às conquistas da civilização, e desafeitos ao trabalho. Onde andava o Lobo Mau no tempo dos índios?
Tiraram
os grilhões, mas de tão acostumados, não nos libertamos, como o coleirinha do meu pai que tinha vinte anos de gaiola - abri-lhe a porta, mas ele não sabia sair. Temos muitos milhões em investimentos no ramo da segurança - terroristas islâmicos, não nos abandonem agora! Temos muitos milhões investidos no ramo da construção - Lobo Mau, não nos falte!
(Imagem tirada do panfleto do Museu do Escravo, que fica em Belo Vale, MG)
"Furtivo e cinza na penumbra última, vai deixando suas pegadas na margem deste rio sem nome que lhe saciou a sede da garganta e cujas águas não repetem estrelas. Esta noite o lobo é uma sombra que está só e que procura a fêmea e sente frio. É o último lobo da Inglaterra. Odin e Thor sabem disso. Em sua alta casa de pedra um rei deliberou acabar com os lobos. Já forjado foi o sólido ferro de tua morte. Lobo saxão, inutilmente geraste. Não basta ser cruel. Tu és o último. Mil anos adiante um homem velho vai sonhar-te na América. De nada pode servir-te esse futuro sonho. Estás cercado de homens que seguiram pela floresta os rastros que deixaste, furtivo e cinza na penumbra última."
Jorge Luis Borges
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