Minha mente é faca e tesoura
(também cola, corda, arame)
meu implacável inimigo,
que não me deixa em paz
meu tribunal de inquisição
deixa eu ver nascer jesus menino
eu - arremeti com afiadas dúvidas contra todas as datas, todos os títulos, tesourei as falácias dos homens, não sobrou um fiapo de inocência, uma nesga de ilusão, o rei um fraco, o juiz um ladrão, o bandido ontem, um herói hoje
não mais uma áfrica a se retornar, de planícies vastas e liberdade
não mais uma américa a se desbravar, não mais um partido a se apoiar, uma ideologia por que se viver
não mais uma veneza, uma grécia, um velho mundo a se visitar, cheio de respostas
sem amazônia onde se perder, e sem um mundo espiritual a que se evadir
e o amor? ah, desfigurei-o, sangrei quem me amou, pisei nas flores com muita raiva, me fiz impossível de ser amado, e ainda atirei culpas sobre quem tentou (espero que, como o buda, ela tenha sabido não aceitar meus presentes)
comi teu nome, e bebi do ódio
até que perdi o paladar
.
mas que bom! que bom que é,
que hoje eu me ajoelho no banheiro
e meu peito transborda,
lágrimas, catarros, gemidos, graças à vida!
uma luz quente vem me derreter os ferros
e a misericórdia vem me visitar,
o cristo dos oprimidos vem,
numa hora tão íntima e misteriosa
sendo um cristo nu, um cristo mãe,
um cristo fogo e um cristo água
cega as lâminas que me fizeram indiferente ao natal, só um pouquinho, porque viver entre homens não é possível sem estas tesouras e facas do pensamento, somos seres de palavras e é preciso não acreditar em nada que dizemos.
mas só hoje, sem que ninguém veja -me deixar sentir, senhor,
aquela alegriazinha simplória
de ver nascer Jesus menino
jesus cristin bunitin bonzin -
como dizia meu pai, navalhando -
mas eu sou velhinha, agora,
meu coração fica deste tamaninho
de felicidade de ver nascer Jesus Cristinho
abençoado, iluminado,
no meio dos animais
dando um descanso às lâminas prateadas,
tornando verde, o menino do dedo verde
um ano novo cheio de verde para todos nós
