25.12.2008

Categorias: Tudo
FIM

23.12.2008

Ano Novo

Categorias: Poesia, Crônicas

Minha mente é faca e tesoura
(também cola, corda, arame)
meu implacável inimigo,
que não me deixa em paz
meu tribunal de inquisição

deixa eu ver nascer jesus menino

eu - arremeti com afiadas dúvidas contra todas as datas, todos os títulos, tesourei as falácias dos homens, não sobrou um fiapo de inocência, uma nesga de ilusão, o rei um fraco, o juiz um ladrão, o bandido ontem, um herói hoje

não mais uma áfrica a se retornar, de planícies vastas e liberdade

não mais uma américa a se desbravar, não mais um partido a se apoiar, uma ideologia por que se viver

não mais uma veneza, uma grécia, um velho mundo a se visitar, cheio de respostas

sem amazônia onde se perder, e sem um mundo espiritual a que se evadir

e o amor? ah, desfigurei-o, sangrei quem me amou, pisei nas flores com muita raiva, me fiz impossível de ser amado, e ainda atirei culpas sobre quem tentou (espero que, como o buda, ela tenha sabido não aceitar meus presentes)

comi teu nome, e bebi do ódio

até que perdi o paladar

.

mas que bom! que bom que é,
que hoje eu me ajoelho no banheiro
e meu peito transborda,
lágrimas, catarros, gemidos, graças à vida!
uma luz quente vem me derreter os ferros
e a misericórdia vem me visitar,
o cristo dos oprimidos vem,
numa hora tão íntima e misteriosa
sendo um cristo nu, um cristo mãe,
um cristo fogo e um cristo água

cega as lâminas que me fizeram indiferente ao natal, só um pouquinho, porque viver entre homens não é possível sem estas tesouras e facas do pensamento, somos seres de palavras e é preciso não acreditar em nada que dizemos.

mas só hoje, sem que ninguém veja -
me deixar sentir, senhor,
aquela alegriazinha simplória
de ver nascer Jesus menino
jesus cristin bunitin bonzin -
como dizia meu pai, navalhando -
mas eu sou velhinha, agora,
meu coração fica deste tamaninho
de felicidade de ver nascer Jesus Cristinho
abençoado, iluminado,
no meio dos animais

dando um descanso às lâminas prateadas,
tornando verde, o menino do dedo verde

um ano novo cheio de verde para todos nós

Natal

Categorias: Poesia, Desenhos

22.12.2008

Natal

Categorias: Poesia, Desenhos

Sonho Ponto de Mutação

Categorias: Sonhos

Era um auditório, um ginásio, um salão de festas, um templo… alguma coisa assim. Havia filas de cadeiras para todos se sentarem, e todos estavam ali. Eu cheguei um pouco tarde, tive dificuldades para achar um lugar vago. Sentei-me. Havia música. Eu olhava em volta e só posso dizer essa frase vaga: estava todo mundo ali. Era o que eu sentia, como um grande momento, um ponto de mutação.

Quando prestei atenção vi que a música era trilha sonora de um vídeo, exibido num telão. Havia um senhor no palco, com um trumpete nas mãos, eu sentia que ele queria muito fazer um som mas não podia, tinha que esperar o vídeo. Então aquilo tudo era falso, como aquelas cerimônias que ninguém gosta mas todo mundo tem que participar, como aquele rezar da escola em que não se acredita. Percebo que há outros músicos, toda uma banda, que queria tocar mas não pode.

Não há mais telhado e uma tempestade vai chegando, primeiro em forma de um vento úmido com o som das ondas na praia, depois em forma de um alagamento. Todos levantam apressados, abandonando o lugar. Depois da tempestade, o que era um auditório eram ruínas e um chão de lodo.

Então a Madrinha Peregrina me telefona: "E aí, estás pronto para a Beleza?" Eu sei que tenho que responder "sim", mas respondo: "Não sei, não estamos todos? Se me perguntas, eu não sei, mas se quiseres me mostrar, eu vou". Ela desliga o telefone.

Anotado em 18 de Dezembro, um domingo, de 2005.

19.12.2008

Log na rede

Categorias: Estudos, Crônicas

Log é diário de bordo: você ir anotando os passos da sua pesquisa. Ser humano, um ser em pesquisa, em busca - e que vai anotando.

Meu diário caiu na rede: é peixe. Peixes na rede: cores e fomes.

Peixe, cada um é de um jeito: mil estratégias de ser, que resultam em cores, ondas: tudo para os sentidos. O mar é sem limites.

Mas, na rede, nos unimos: colegas de martírio, colegas de sobrevivência, com suas camuflagens, seus mimetismos, seus habitats singulares, órgãos que emitem luz, que soltam tinta, que provocam sons. Parece que são sós, que cada peixe está encerrado em si, que não se comunicam.

Mas partilham este comum destino de rede, e sabem disso, e mesmo quando se batem e comem ou se fecham firmemente em seus casulos, também se amam, aprendem uns com os outros, e chamam uns aos outros, secretamente, irmãos.

 

Hehe, fiquei em transe e escrevi isso aí agora, por causa do convite do Rafael Coelho para que eu respondesse umas perguntas para os que amam pateticamente os livros (poepateticos, no bom sentido!). Ele mandou para outros blogs e fêz-se uma rede. Pescou altos peixe jóia.

Vai:

1. Livro/Autor(a) que marcou sua infância:

J.R.R. Tolkien, o Senhor dos Anéis. Mas em versão oral. Meu pai era fã e me contava as histórias do livro, descrevia as passagens, ele é desenhista e pintor e desenhava e me mostrava gravuras do Frank Frazeta e aquelas coisas. Foi o "livro sagrado" da minha infância. Só fui lê-lo mesmo com quinze ou dezesseis anos! Devo confessar que o Alquimista influenciou muito meus doze anos. (ix)

2. Livro/Autor(a) que marcou sua adolescência:

O cinema foi muito mais importante que a literatura nessa fase. Li e fui fã de Arnaldo Antunes, Douglas Adams (O Mochileiro das Galáxias), e Hermam Hesse, e Milan Kundera, nos quais era aplicado pela minha querida e esclarecida vó Hebe. Tudo ia bem até o Carlos Castanheda.

3. Autor(a) que mais admira:

Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Carlos Drummond de Andrade… a briga é por aí. Se for olhar na minha estante como está hoje, predomina o Borges, é o escritor que eu mais compro e coleciono. Colecionei o Italo Calvino também. Aqui também aparecem muito os filósofos taoístas, só que ler filósofo chinês é foda, né? Eu ainda não sei chinês, mas amo Chuang Tzu, já li umas oito traduções, em três línguas. Ainda entendo pouco. Espinosa. E a Grécia Antiga. É esses trem que eu gosto hoje!

Eu colaria um adesivo no meu carro dizendo "eu leio Cecília Meireles". Ela é tipo uma maga, pra mim.

4. Autor(a) contemporâneo: Eduardo Galeano. Neil Gaiman.

5. Leu e não gostou: Eu adoro responder essa pergunta quando é "ouviu e não gostou" pra eu dizer: Rolling Stones! É difícil lembrar o que eu não gosto, eu esqueço. Andei tentando gostar de Murilo Mendes e não consegui. Mas pode ser a hora…

Lembrei de um: Oswald de Andrade. Aliás o modernismo paulista e o concretismo são mais ou menos, pra mim, não fala muito. Quer dizer,  Antropofagia é legal! Gosto assim de algumas idéias e posturas e ações, mas da literatura mesmo deles, médio. Macunaíma é legal! Mas eu daria umas melhoradas…

6. Lê e relê: Filosofia.

7. Manias: Nunca estar satisfeito, sempre querer alguma coisa, sempre num tormento d’alma, sempre buscando um tesouro qualquer. Me misturar a felino.

Eu gosto dos livros mas tenho uma relação estranha com eles. Eu não tenho muito jeito, eu levo eles pra cama, eu estrago eles. Mas eu os amo muito. Acho graça quando as pessoas me acham culto e bacana lendo. Pra mim estou fazendo a coisa mais transgressora, imoral e alucinógena que se poderia fazer. Tem outro jeito de ler, eu sei, mas não me interressa.

Do Livro mais antigo do mundo

"Começando então a composição deste livro dos bons dizeres, ditos pelo nobre lorde, pai divino, amado de deus, filho do rei, primogênito de sua raça, o prefeito e chefe senhor Ptah-hotep, para instruir os ignorantes no conhecimento dos argumentos dos bons dizeres. É vantajosa a sorte para aqueles que os escutam, e grande perda sofre quem os transgride.

Ele diz a seu filho: Não sejas arrogante por conta do conhecimento que possuis; trata o ignorante assim como tratas o douto; pois as portas da arte não estão fechadas, e nenhum artista possuiu a perfeição a que deve aspirar. Mas boas palavras são mais difíceis de encontrar que esmeraldas, e é por escravos que estas são encontradas, no meio das pedras de pegmatita".

Os Preceitos de Ptah-Hotep, traduzido (para o inglês) por Philippe Virey, é um tratado egípcio contido no Papyrus Prisse, o mais antigo livro do mundo. Está publicado no livro Records of the Past, coletânea de textos do Antigo Oriente, editado por  A. H. Sayce. Li aqui no sacred-texts.

15.12.2008

Sonho com espelho

Categorias: Sonhos

Um dia acordo e a casa está meio estranha. Saio da cama. Parece pouco antes das seis da manhã, começa a clarear, tudo é meio laranja. Me sinto meio pesado, meio devagar. Vou até o banheiro e me olho no espelho. Eu estava todo vermelho, com olheiras escuras, suando, e não conseguia abrir os olhos direito. Sentia-me em febre. Passei a mão nas bochechas, e esfreguei os olhos.

Um rosto de repente surgiu do lado inferior esquerdo do espelho, uma cara sorridente entrou no retângulo do espelho, me olhando, era eu mesmo, mas tinha um aspecto claro, inocente, saudável, e ria para mim, meio irônico. Então eu apontei e gritei, é meu outro eu! Meu outro eu! E me dei conta de que estava sonhando.

Logo estava na cama, acordado, e me lembrava de tudo.

Anotado numa sexta, 3 de dezembro, 2004.

Um Sonho

Categorias: Sonhos

Estava numa feira de etnologia, vazia. Como um museu de culturas exóticas. Não havia mais ninguém lá, além de mim. E havia pseudomalocas à minha volta, havia penas e máscaras, mas tudo era meio fake. Então vi o fantasma de um velho pajé, fumando, apressado, lembrando o coelho da Alice, "oh dear, estou atrasado!". Ele some no meio das barracas da feira.

Uma voz dentro da mente: "Vira"! Eu me viro e estou numa esquina, uma esquina qualquer de uma cidade. Nesta esquina há uma lata de lixo e ao lado dela um enorme saco preto, no chão. Eu penso que devo colocar o saco de lixo na lata. Eu agarro o saco, mas ele rasga e o corpo de um cachorro cai de dentro dele.

Olhei para o outro lado e subindo a rua vinha uma família de caboclos. Quando eles chegaram mais perto vi que tinham penas, como se houvessem peles de aves coladas às peles deles, do pai, da mãe, da filha e do filhinho menor; como se eles tivessem trocando de pele, como alguns bichos fazem, de pássaro para homem, as peles de ave estavam se soltando e caindo pelo chão, estavam rasgadas e rotas e as penas, oleosas; e seus olhares.

O menino me olha e eu sinto tanta tristeza que saio correndo, saio desembestado pelas ruas do bairro. Entro correndo por uma favela. Chego diante de um lavajato. Alguns homens estão trabalhando. Um negão elegante, todo vestido de branco, impecável, de colares, sai dali (de um lavajato?) e me repara, eu parado ofegante ali na rua. Eu chego até ele e deito a cabeça no seu ombro e choro.

Anotado em uma segunda-feira, 06 de dezembro de 2004.

11.12.2008

Adentrismo

Categorias: Poesia, Adentrismo

ETERNIDADE

Ele reviu-se:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.

Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.

Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
morrendo
numa estrela.

Ele despiu-se
de quê?
De tudo
que amara. Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.

Jorge de Lima.

Ê trem!

Categorias: Poesia

CACHIMBO Do SERTÃO

Aqui é assim mesmo.
Não se empresta mulher,
não se empresta quartau
mas se empresta cachimbo
para se maginar.
Cachimbo de barro
massado com as mãos,
canudo comprido, que bom!
- Me dá uma fumaçada!
- Que coisa gostosa só é maginar!
Sertão vira brejo,
a seca é fartura,
desgraça nem há!
Que coisa gostosa só é cachimbar.
De dia e de noite, tem lua e tem viola.
As coisas de longe vêm logo pra perto.
O rio da gente vai, corre outra vez.
Se ouvem de novo histórias bonitas.
E a vida da gente menina outra vez
ciranda, ciranda debaixo do luar.
Se quer cachimbar, cachimbe seu moço,
mas tenha cuidado!
- O cachimbo é de barro
se pode quebrar.

 Jorge de Lima

10.12.2008

Adentrismo da Mestra

Categorias: Poesia, Adentrismo

POR ENQUANTO, DEVORO APENAS

Por enquanto, devoro apenas,
com paciente ritmo,
estas folhagens do mundo.

Por enquanto, sou este corpo necessário
que se enruga à luz do dia, à leveza do ar.
Corpo não escolhido,
aceito, de paciente ritmo.

Deixai-me depois dormir meu tempo indispensável
enrolada nestes fios que humilde tece
um paciente ritmo,
deixai-me descansar nesta experiência de tela frágil
onde prolongo a aprendizagem
de cada instante na escola do paciente ritmo.
Estarei ouvindo os comandos
de infinitos professores sem voz.

Deixai-me elaborar as asas claras
de paciente ritmo,
para a alegria de não ter mais peso,
de desprender-me do obrigatório alimento,
de ter merecido a etérea liberdade.

Deixai-me ir, enfim, sobre ar e luz,
com a substância apenas das cores,
no ritmo paciente
que me vai desfazer em cinzas de seda,
num pequeno arco-íris de pó.

Mas tudo isto está sendo inventado agora,
por este corpo melancólico,
de paciente ritmo,
que resignado devora
(na verdade inapetente)
as folhagens do mundo. 

Cecília Meireles, do livro Estudante Empírico. 

Em MEIRELES, Cecília. Obras Completas, vol. 4, pp.  176.

4.12.2008

Ecos da solidão

Categorias: Poesia

NOVO DIA

tantas coisas
a aurora não resolve
– esta minha angústia
ampliada e traduzida
em sangue que escorre
em sangue que pulsa

Fênix.

LONGA NOITE

noite d’alma -
meu planeta interior
gira lento, pesado,
descreve uma elipse enorme…
as noites aqui duram
muito mais que na terra.

Eu.

Adentrismo

Categorias: Poesia, Desenhos, Adentrismo

SONETO DO CORIFEU

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinícius de Moraes, Rio, 1956. 

2.12.2008

Emoção de Deus

Categorias: Poesia
 
 
emoção de deus
o samba
a mangueira fundamental
plantada
a festa iluminada
secreta
carnaval, escola

paulinho da viola
todo mundo paramentado
tudo azul numa festa no céu
antepassados
chama

funk
fundamentos do funk
guerrilha, armas
um céu de luzes mais distantes
um inferno íntimo
a emoção de deus
entusiasmo na penumbra
sexo tiros
ranço, cansaço
dinheiro notas de dinheiro
esfregadas na cara, na boca, no rosto
bactérias e germes imundos

emoção de deus
a sublime harmonia
um sapato, um chapéu
um leve balanço
uma xamânica dança de salão
sabática

homens pretos, com suas mãos grossas
homens pretos de almas distantes
paramentadas de luzes e metais reluzentes
seus lábios sérios e seus antigos relógios
ogãs consagrados, alabês iniciados
um músico norte-americano
era cego e agora vê
o brilho do preto, e ri

jovens que vocês conhecem
jovens brasileiras
a delícia, a prata da casa
a pobreza
a carne de primeira

homens úteis, úteis animais
a cadeia alimentar
fazenda, soja, gado
os bem alimentados
minas gerais, são paulo
os sertanejos
as instituições, as organizações criminosas
as emoções que damos a deus!

sentimento de deus
um céu a que se voa
por um cipó, um poste, uma folha
reino que se alcança
passeando pelos sons
uma visão interior
um mistério

morrer, é importante que se saiba como

raros momentos
amores, vinhos, livros

nesse incrível momento agora
a emoção de deus

ai de quem chora triste ou amargo!
guarde lágrimas para o bom chorar
que ele há -

 o êxtase
 
 
 

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