22.2.2009

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Delírios de quem dorme acordado. Ou de quem acorda no sono.

The ancient masters of the Tao / Had subtle marvelous mystic penetration / A depth that cannot be known. / It is exactly because that they are unknowable / That we are forced to pay attention to their appearance.”    Lao-Tse, Tao te Ching, cap. 18

  

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O tecido esvoaçante do mar.

O tecido esvoaçante do mar chocava suas abas na madeira do navio…

Fui ter com o oráculo. Era uma velha sábia, que num quarto em penumbra, disse-me para construir um ovo. Eu trazia nas mãos um pássaro, vivo, trêmulo, de úmidas penas pretas, uma espécie de gralha recém nascida, pode imaginar? - e em torno dele eu deslizava minhas mãos, como se faz com a argila, e o ovo ia se fazendo, se criando, fechando o corvo.

Nos veios e imperfeições do ovo ela leu minha sorte. Leu que minha terrível e derradeira batalha estava próxima, e que para garantir minha sobrevivência eu deveria encontrar uma determinada cidade, e lá deveria subir num poste de iluminação, ricamente ornado, cheio de volutas, para depositar no seu cume uma vela acesa.

Grande parte de nós é luz / grande parte de nós é água / o que a gente não vê / é muito mais rápido que a luz / o som e o vento são invisíveis / pelo menos a olho nu / e são mais lentos que a luz / você sabe deles através da orelha e da areia.


Já houve na minha cozinha, junto com a Joana, uma bruxa, cujo nome não devo pronunciar. Ela uma vez quizilou com um marinheiro de ares nobres e olhos de felino, curioso e folgado, e o rapaz primeiro ficou surdo, depois ficou mudo e depois ficou cego, depois perdeu o poder do tato, por fim virou um fantasma e desapareceu. Passadas algumas semanas, alguém jogou a dona no mar.



Por fim veio uma tempestade, após um longo e tedioso outono, e o mar assobiou para mim uma cantiga indefinível, e os raios, os golpes das ondas e o vento armado até os dentes, partiram ao meio e levaram ao fundo nosso barco amarelo. Numa praia distante, fui apanhado por um velho pescador, que tinha uma filha de pele de figo, que usava sempre um curto vestido anil. 

Sonho

Categorias: Sonhos

Estou lembrando de quando comecei a navegar. Eu era ainda um garoto. Naquele dia amanheceu um vento frio, havia um cheiro de chuva no ar. Acordei, olhei o teto, olhei a cama ao lado onde meu irmão já não estava, levantei-me, procurei minhas roupas na penumbra do quarto, desci as escadas de ferro.

Minha mãe e minha tia estavam de saída, e ajudei-as a levar os embrulhos até a portaria. Traziam guarda-chuvas. Minha mãe disse que ia levar os embrulhos até o hotel, roupas lavadas e um presente pro José, que fez lá em casa uns serviços de pedreiro, que ele é, além de porteiro do hotel. Era um dia bonito então me ofereci para levar os embrulhos. Elas disseram, “Tudo bem, leve, mas não vá se afogar!”, e se foram.

Segui caminhando quando veio a água. Não foi do céu que ela veio: subitamente a rua começou a se alagar, de uma água límpida e fria, correndo mansa como se a rua fosse o leito de um rio, e de cada rua vinham águas que se encontravam, e iam acumular-se no cruzamento da São Lázaro com avenida Augusto dos Anjos, e iam se acumulando ali sem que se pudesse saber de onde vinham. Eu segui caminhando e reparando no que a água fazia com as ruas: no início as varria, límpida e fria água de montanha, mas depois começou a encher-se de fúria e de lama, e então rapidamente estava chovendo e ventando e quem antes pudesse estar a molhar os pés naquela repentina e desavisada abundância de água fresca e misteriosa, agora já entrou, trancou a porta e está rezando. É o dilúvio!

Quanto a mim, já estava às braçadas, levado pela correnteza em fúria, quando avistei um barco vindo em minha direção. Agarrei-me a ele e subi, e enfim deitado ofegante na madeira do convés, reparei no céu, o sol, oculto sob núvens cor da noite.

Adentrismos Zen

Categorias: Poesia, Adentrismo


Dos mestres Zen.


I


Uma cabana solitária no pico de uma montanha no meio de mil outras
Metade da cabana ocupada por um velho monge, metade por uma nuvem
A noite passada foi tempestuosa e o vento levou embora a nuvem
Afinal, a nuvem não se compara à quietude do velho monge.


II


Poderes sobrenaturais, atividades incríveis,
milagres: Eu cato lenha, eu apanho água.

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