Linguagem
Mais árduo, e por isso mesmo mais apaixonante, foi o trabalho da tradução dos textos religiosos. De maneira nenhuma por causa do uso constante que as Belas Palavras fazem da metáfora: basta saber que, quando o texto fala do "esqueleto da bruma", ele nomeia o cachimbo de barro onde os sábios fumam seu tabaco; que a "flor do arco" designa a flecha; que o nascimento de uma criança se diz "uma palavra se provê de um assento"; o embaraço do tradutor provém mais da dificuldade de dominar o espírito que corre secretamente sob a tranquilidade da palavra, de captar a embriaguez deste espírito que marca com seu selo todo discurso enigmático.
CLASTRES, Pierre. Na introdução de: A Fala Sagrada. Mitos e cantos sagrados dos índios guarani. SP: Papirus, 1990. Pp. 17.
