30.9.2009

Adentrismo samba dionisíaco

Categorias: Música, Adentrismo

Um minuto de silêncio
Para o cabrito que morreu
Se hoje a gente samba
É que o couro ele nos deu

Castigue o couro do falecido
Bate o bumbo com vontade
Que a moçada quer sambar
Castigue o couro do falecido
Morre um para bem de outros
A verdade é essa, não se pode negar…
(Tá bom? Tá…) 

Monsueto Menezes

26.9.2009

Sítio do Pica-pau multicolorido

Judeu português brasileiro, farmacêutico, minas gerais, 1870, há quanto tempo? nalguma roça profunda, naquele tempo.

De portugal o diploma e o nome: Lobato. Mestre maçom de carteirinha e com canudo de bacharelado, teve farmácia, ia de porta em porta com remédios, partos, despartos, contra amarelões e coceiras.

Diz que se sumia no mato 3 dias, por causa dos passarinhos. Era lobisomem. Lia muito, era muito culto, poetizava, provavelmente usava drogas. Mas que era isso em 1870, em roça profunda, interior de Minas? Todo mundo sabe, só eu sei - era lobisomem. Morreu aos 28 anos, de um sopro no coração. Lidava com substâncias, na prática, ali, e também no latim.
Devia ter prateleiras de vidrinhos, como um alquimista.

Sua esposa assumiu sua farmácia e criou seus cinco filhos. O caçula recebeu aos seis anos a visita de uns homens-ternos, adotando-o, iniciando-o e internando-o no colégio. Como será que vai ser
o filho do lobisomem?

 

Escrever é poder, é por ordem. Meu pai num dia de neve, meu pai um lobo cinzento, visitou minha mãe numa ausência do marido, amou-a, não pouparam unhas e dentes, sangraram-se, minha mãe foi feliz.

O lobo foi-se embora. Não sei as melhores palavras, sinto que descreverei o óbvio, a maldição sobre minha mãe, a fuga, o ódio no olhar do marido, o ódio em todos os olhares da tribo, eu bebendo desse ódio, bebendo leite de ódio de seios banidos.

Eu abandonado, eu crescendo lobisomem, eu matutando a vingança.

————-

Na leitura de “História do Mundo para Crianças” pode-se encontrar um exemplo desse grande orgulho humano, dessa necessidade de se afirmar como ser superior ao resto da natureza, como obra-prima da criação. Dona Benta descreve os homens da Idade da Pedra: “Eram puros animais selvagens, dos mais ferozes e brutos. Diferença única: andavam sobre dois pés. Fora daí, peludos como os lobos e cruéis como todas as feras. Não dormiam em casas. Quando a noite vinha, o chão lhes servia de cama.” etc.

São os clichês do civilizado que descreve o mundo natural. Dona Benta descreve os homens primitivos como bárbaros selvagens mais para servirem como anti-modelo, como justificativa de todo o projeto que viria depois - a civilização. Eu percorri as ruas de São Paulo, e posso dizer pra você que hoje até uma luta feroz entre leões e hienas pela carne de um cervo degolado me parece calma e harmoniosa, gentil e dotada de uma justiça sublime, em comparação com as ações dos homens civilizados.

Covalescente

Categorias: Poesia, Desenhos

Cresce,
cobertor
e acalma o mundo
e divide com todos
este aconchego

Cale as
complexas existências
e os sofrimentos da prisão
e põe todo mundo
lendo charlie brown

 

 

25.9.2009

Ativismo

Categorias: Crônicas

A guerra do nosso governo [dos EUA] contra a cannabis e os consumidores de cannabis [ao contrário de "protejer nossas crianças", o argumento típico] é perigosa para a saúde e segurança de nossas crianças. Ela permite que jovens tenha acesso não-regulado à maconha - mais fácil hoje do que elas têm ao álcool. Ela permite que os jovens interajam e façam amizade com traficantes de outras drogas ilegais e mais perigosas. Ela faz com que as crianças não levem em consideração as mensagens educacionais que elas recebem em relação os potenciais riscos à saúde das "drogas pesadas" e dos remédios controlados, porque os garotos dizem, "se eles mentem para mim em relação à maconha, porque eles não estariam mentindo sobre todo o resto também?"

Mais importante, as leis criminalizantes mais provavelmente resultam em ter nossas crianças colocadas atrás das grades e estigmatizadas com uma ficha criminal por toda a vida do que resultam em elas terem menos vontade de experimentar a maconha.

Daqui, deste site: alternet.org, muito bom site de mídia alternativa (em inglês).

24.9.2009

Adentrismos Chineses

Categorias: Poesia, Adentrismo

"Meu sol precisa de sono"

Gu Cheng (poeta contemporâneo). Será que isso fica tão bom em chinês quanto em português? Poesia…

A Tu Fu, um gracejo

Encontrei-te no alto da montanha de Fan-kuo
Chapelão na cabeça, sob o sol do meio-dia.
Achei-te emaciado, magro de dar pena.
Estarás sofrendo de novo do mal da poesia?

Li Po (701-762)

Ratos na biblioteca

Todos dormem. A lâmpada queima com uma luz azulada,
A rataria esfomeada esgueira-se dos seus buracos:
Pim pum - a barulhada de pires e pratos
Que se quebram - pondo fim a meus sonhos.

Impaciento-me. Derrubarão o tinteiro sobre a mesa?
Preocupo-me. Estarão roendo os livros nas estantes?
Meu filhinho imita o miado de um gato,
Solução por certo sem o menor efeito!

Mei Yao-Ch’en (1002-1060)

O Alaúde

O alaúde sobre o escabelo torneado.
Sento-me, indolente e emocionado:
É preciso que dedilhe as cordas?
O vento roça-as e, sós, soam as notas.

Po Chü-Yi (772 - 846)

In: Revista Poesia Sempre, nº27. Tradução de A.B. Mendes Cadaxa.

 

Samba feito com amor

Categorias: Poesia, Música

Eu ando pelos becos da favela
buscando ela, buscando ela

e quando a encontro pelas ruas da cidade
que felicidade! que felicidade!

Peço a Deus que sempre me conceda
te ver vestida de seda, vestida de seda

Vivendo nosso amor cheio de malícia…
mas cuidado com a polícia! cuidado com a polícia!

 

23.9.2009

Aqueles estudos

Categorias: Estudos

 

A literatura é coisa de palavras, não de letras, apesar do nome; nasce com os cantos e fórmulas mágicas dos sacerdotes transmitidos oralmente de memória em memória. Carmina, como os romanos chamavam à poesia, significava versos, e charms, encantos; ode, entre os gregos, significava originalmente encantamento; o mesmo com as palavras inglesas rune e lay e o alemão lied. A cadência e o metro, sugeridos talvez pelos ritmos da natureza e da vida corporal, foram provavelmente desenvolvidos por mágicos, ou shamans, para preservar, ressaltar e transmitir "a magia de seus versos" (BRIFFAULT, Robert. The Mothers). Os gregos atribuíram os primeiros hexâmetros aos sacerdotes délficos, inventores deste metro para uso dos oráculos.

 

Will Durant, História da Civilização, vol. I.

21.9.2009

Adentrismo Laerte Genial

Categorias: Adentrismo

Adentrismo Miração Pura

Categorias: Poesia, Música, Adentrismo

Deu meia noite,
a lua faz um claro
eu assubo nos aro
vou brincar no vento leste

a aranha tece
puxando o fio da teia
a ciência da abelha
da aranha e a minha
muita gente desconhece

muita gente desconhece, olará, viu?
muita gente desconhece
muita gente desconhece, olará, tá?
muita gente desconhece

a lua é clara,
o sol tem rastro vermelho
é o mar um grande espelho
onde os dois vão se mirar

rosa amarela
quando murcha perde o cheiro
o amor é bandoleiro
pode até custar dinheiro
é fulô que não tem cheiro
e todo mundo quer cheirar

todo mundo quer cheirar, olará, viu?
todo mundo quer cheirar
todo mundo quer cheirar, olará, tá?
todo mundo quer cheirar

João do Vale

Adentrismo

Categorias: Poesia, Adentrismo

O xamã e os deuses

O xamã era um menino;
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redemoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.

Washington Queiroz

18.9.2009

Poema

Categorias: Poesia

aqueles olhos de bebê
que o que não sabe, inventa

aqueles olhos de turista,
desacostumados

aquela generosidade
dos que não têm nada

Três poemas de sentido obscuro

Categorias: Poesia

-

Jaguatirica
realiza-se
em cores, miados
mandíbulas

peixes fluem
refluem
ouro, prata
e este poema -

naderías, tonterías!

minha natureza -
só, inútil
e poeta

pertenço-me

-

forço até lágrimas
cerco, flecho
o menino-poeta

fustigo-lhe
bato-lhe
e ele geme
em versos

queria dizer
o abandono de tudo
e no entanto
tudo está aí

-

cago ouro -
riqueza da folha morta
esconderijo da lacraia:
há vida

sei não morrer:
segredo

não é segredo
porque quero -
é além palavras

cago prata -
estonteante brilho cego
trovão ensurdecedor

sei viver:

17.9.2009

Adentrismo

Categorias: Estudos, Poesia, Adentrismo

(…) E a sábia preguiça solar. A reza. A energia silenciosa. A hospitalidade.
Bárbaros, pitorescos e crédulos. Pau-Brasil.
A floresta e a escola. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.

Oswald de Andrade, Manifesto Poesia Pau-Brasil, 1924.

Epígrafe

"Não busquem os antigos: busquem aquilo que eles buscavam."

Matsuo Bashô.

9.9.2009

Adentrismo Domínio da Linguagem

Categorias: Poesia, Adentrismo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe deste rio,
o fio de água porque ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz, a seca ele combate

João cabral de Melo Neto.

8.9.2009

Adentrismo de Mestre

Categorias: Estudos, Adentrismo

"Quando escrevo, não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem, acreditava na expressão. Eu lera Croce, e a leitura de Croce de nada me serviu. Eu queria expressar tudo. Pensava, por exemplo, que, se precisava de um pôr-do-sol, devia encontrar a palavra exata para o pôr-do-sol - ou melhor, a mais surpreendente metáfora. Agora cheguei à conclusão (e essa conclusão talvez soe triste) de que não acredito mais na expressão; acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que esta palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar. O leitor, se for rápido o suficiente, pode ficar satisfeito com nossa mera alusão a algo".

Jorge Luis Borges, in "Esse Ofício do Verso". O grifo é meu.

Aqueles estudos

Categorias: Mistérios

Da terra da Ásia, do santo Tmolo eu acorro, doce esforço e fatiga agradável de sentir - já que é por Bromios. Eu exalto Baco por meus gritos de Evoé!

Quem vem lá? Quem vem lá? Que se afaste! Que cada um guarde pura sua língua, observando bem o silêncio sagrado! Sempre segundo o rito, Dioniso será glorificado por mim.

Feliz o homem afortunado, instruído do divino mistério, que, santificando sua vida, se faz a alma de um fervente, aquele que, na montanha, participa das bacanais, santamente purificado, que pratica as orgias de Cibele, Grande Mãe, e que, brandindo o tirso, se orna de uma banda de hera, para servir Dioniso. Vamos bacantes, vamos bacantes! Bromios, Deus filho de Deus, Dioniso, tragam-no outra vez das montanhas da Frígia, para as praças da Hélade, onde os coros estão bem à vontade, tragam-no, Bromios!

Eurípides, As bacantes.

4.9.2009

Desenhos

Categorias: Desenhos

3.9.2009

Estudo

Categorias: Estudos, Mistérios

"O Kamarãpi (ayahuasca) é um legado de Pawa (o Deus supremo), que deixou a bebida para que os Ashaninka adquirissem o conhecimento e aprendessem como se deve viver na Terra. As respostas a todas as perguntas dos homens estão acessíveis com o aprendizado xamânico, que é realizado através do consumo regular e repetitivo da bebida, durante anos. A formação do xamã (Sheripiari), no entanto, nunca pode ser considerada como concluída. Se a experiência lhe confere respeito e credibilidade, ele também está sempre aprendendo. É através do Kamarãpi que o Sheripiari realiza suas viagens nos outros mundos e adquire a sabedoria para curar os males e as doenças que afetam a comunidade".

Daqui, não deixem também de ouvir a música. Muito bom…

Jardim, peixes, pássaros

Categorias: Desenhos

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