Sítio do Pica-pau multicolorido
Judeu português brasileiro, farmacêutico, minas gerais, 1870, há quanto tempo? nalguma roça profunda, naquele tempo.
De portugal o diploma e o nome: Lobato. Mestre maçom de carteirinha e com canudo de bacharelado, teve farmácia, ia de porta em porta com remédios, partos, despartos, contra amarelões e coceiras.
Diz que se sumia no mato 3 dias, por causa dos passarinhos. Era lobisomem. Lia muito, era muito culto, poetizava, provavelmente usava drogas. Mas que era isso em 1870, em roça profunda, interior de Minas? Todo mundo sabe, só eu sei - era lobisomem. Morreu aos 28 anos, de um sopro no coração. Lidava com substâncias, na prática, ali, e também no latim.
Devia ter prateleiras de vidrinhos, como um alquimista.
Sua esposa assumiu sua farmácia e criou seus cinco filhos. O caçula recebeu aos seis anos a visita de uns homens-ternos, adotando-o, iniciando-o e internando-o no colégio. Como será que vai ser
o filho do lobisomem?
Escrever é poder, é por ordem. Meu pai num dia de neve, meu pai um lobo cinzento, visitou minha mãe numa ausência do marido, amou-a, não pouparam unhas e dentes, sangraram-se, minha mãe foi feliz.
O lobo foi-se embora. Não sei as melhores palavras, sinto que descreverei o óbvio, a maldição sobre minha mãe, a fuga, o ódio no olhar do marido, o ódio em todos os olhares da tribo, eu bebendo desse ódio, bebendo leite de ódio de seios banidos.
Eu abandonado, eu crescendo lobisomem, eu matutando a vingança.
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Na leitura de “História do Mundo para Crianças” pode-se encontrar um exemplo desse grande orgulho humano, dessa necessidade de se afirmar como ser superior ao resto da natureza, como obra-prima da criação. Dona Benta descreve os homens da Idade da Pedra: “Eram puros animais selvagens, dos mais ferozes e brutos. Diferença única: andavam sobre dois pés. Fora daí, peludos como os lobos e cruéis como todas as feras. Não dormiam em casas. Quando a noite vinha, o chão lhes servia de cama.” etc.
São os clichês do civilizado que descreve o mundo natural. Dona Benta descreve os homens primitivos como bárbaros selvagens mais para servirem como anti-modelo, como justificativa de todo o projeto que viria depois - a civilização. Eu percorri as ruas de São Paulo, e posso dizer pra você que hoje até uma luta feroz entre leões e hienas pela carne de um cervo degolado me parece calma e harmoniosa, gentil e dotada de uma justiça sublime, em comparação com as ações dos homens civilizados.
