Ainda a malandragem
Diálogo de sábios sobre temas tangentes à discussão sobre malandragem, o jeitinho brasileiro e a preguiça.
Sérgio Buarque de Holanda (1968): Se os primeiros colonos da América Inglesa vinham movidos pelo afã de construir, vencendo o rigor do deserto e selva, uma comunidade abençoada, isenta das opressões religiosas e civis por eles padecidas em sua terra de origem, e onde enfim se realizaria o puro ideal evangélico, os da América Latina se deixavam atrair pela esperança de achar em suas conquistas um paraíso feito de riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles se ofereceria sem reclamar labor maior, mas sim como dom gratuito. Não há, neste último caso, contradição necessária entre o gosto da pecúnia e a devoção cristã. Um e outra, em verdade, se irmanam frequentemente e se confundem: já Cristóvão Colombo exprimia isto ao dizer que com o ouro tudo se pode fazer neste mundo, e ainda se mandam almas ao céu.
Eduardo Viveiros de Castro (2002):
Entre os pagãos do Velho Mundo, o missionário sabia as resistências que teria a vencer: ídolos e sacerdotes, liturgias e teologias - religiões dignas desse nome, mesmo que raramente tão exclusivistas como a sua própria. No Brasil, em troca, a palavra de Deus era acolhida alacremente por um ouvido e ignorada com displicência pelo outro. O inimigo aqui não era um dogma diferente, mas uma indiferença ao dogma, uma recusa em escolher, inconstância, indiferença, olvido: "a gente destas terras é a mais bruta, a mais ingrata, a mais inconstante, a mais avessa, a mais trabalhosa de ensinar de quantas há no mundo", desfia e desafia o desencantado Vieira. Eis por que são Tomé fora designado por Cristo para pregar no Brasil; justo castigo para o apóstolo da dúvida, esse de levar a crença aos incapazes de crer - ou capazes de crer em tudo, o que vem a dar na mesma: "outros gentios são incrédulos até crer; os brasis, ainda depois de crer, são incrédulos".
Octavio Paz (1959): Do mesmo modo que uma pirâmide asteca por vezes recobre um edifício mais antigo, a unificação religiosa [empreendida pelos colonizadores espanhóis católicos no México] somente afetava a superfície da consciência, deixando intactas as crenças primitivas.
Rui Barbosa (1919): [As elites políticas brasileiras consideram o Brasil] um país de resignação ilimitada e terna indiferença, […] [povoado] por uma ralé semi-animal e semi-humana de escravos de nascença, concebidos e gerados para a obediência, como o muar para a albarda, como o suíno para o chiqueiro, como o g
orila para a corrente, […]uma raça cujo cérebro ainda não se sabe se é de banana, ou de mamão, para se empapar de tudo que lhe imputam; uma raça cujo coração ainda não se estudou se é de cortiça, ou de borracha, para não guardar mossa de nada que o contunda.
Questiono Rui: Os porcos não foram feitos para o chiqueiro, nem os gorilas para a corrente! (Ver Quem pra quem?)
Olavo Bilac (1909): Aos bandeirantes se deve a exploração e a povoação do Brasil. E se milhares de índios pagaram com a liberdade e com a vida essa obra de civilização, milhões de homens de uma nova nacionalidade, que talvez ainda venha a ser a mais forte da terra, estão hoje gozando
a prosperidade, o bem estar, a fortuna e o conforto, que foram longamente preparados e cimentados pelos esforços dos perseguidores e pelas lágrimas dos perseguidos.
Este, acima, é um exemplo de intelectual de elite carioca, e estas suas palavras, fina pérola de seu racioncínio.
A. Carneiro Leão (1924): Nós, até 1888 e 1889, éramos uma nação com uma determinada organização social, uma diferenciação de classes definida […]. Uma tal organização economica e social, apesar das suas injustiças, mantinha um aspecto de gravidade e de lisuras políticas. Os senhores, com a independência dada pela fortuna material e a consciência da sua superioridade de classe, faziam uma política e uma administração públicas que eram o reflexo das suas qualidades de altivez e honestidade. Daí a sensação de correção, desprendimento, elevação de vistas, que se tinha, geralmente, durante a mo
narquia, do ambiente político brasileiro. A abolição, libertanto, porém, uma população ainda considerável de escravos, e a república, um ano depois, nivelando-a, igualando-a juntamente com o retso do povo, aos ex-senhores, deram, a todos, as possibilidades de atingirem as mais elevadas situações políticas e sociais […]. De maneira que do balanço geral ressalta ser o nosso problema básico a educação nacional.
Ralph Ellison (1964): Não é a cultura que vincula os povos com origens parcialmente af
ricanas agora dispersos pelo mundo inteiro, mas uma identidade das paixões. Nós compartilhamos um ódio pela alienação imposta a nós pelos europeus durante o processo colonial e imperial e somos vinculados mais por nosso sofrimento comum do que por nossa pigmentação.
W. E. B. Du Bois (1897): A característica de nossa era é o contato da civilização européia com os povos não desenvolvidos
… Guerra, assassinato, extermínio e devassidão, este tem sido reiteradamente o resultado de se levar a civilização e o abençoado evangelho às ilhas do mar e aos pagãos sem lei.
Antonio Machado:
A verdade é verdade,
diga-a Agamenon ou seu porqueiro.
Agamenon: De acordo.
Porqueiro: Não me convence.
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As falas de Sergio, Eduardo, Octavio e Rui tirei do Livro das Citações do Eduardo Gianetti. As de Olavo e de Carneiro Leão, do Aprendizado do Brasil, de André Botelho (UNICAMP, 2002). As de Ellison e Du Bois, do O Atlântico Negro de Paul Gilroy.
