5.11.2009

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Minha Mãe, Rosa, Barbacena

“(…) o mistério cósmico, essa coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose da inevitável verdade. Precisamos também do obscuro”. João Guimarães Rosa.

"Ele era um grande observador. Viveu a infância meio retirado. Eram oito irmãos, mas ele ficava mais num canto sozinho, lendo, apreciando a natureza, vendo os passarinhos. (…) Papai gostava muito de ler, ele lia com vela. (…) De noite tiravam a vela dele: apagar a luz naquela época significava tirar a vela. Ele então lia à luz da lua. Quando tinha aquela lua cheia e vinha aquela luz forte, ele lia. Eu acho que ele não era apenas gênio. Tinha vários gênios dentro dele.” Agnes Guimarães Rosa.

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Em Belo Horizonte, na rua Caldeira Brant, morava o dr. Joaquim Lôbo, bacharel em direito e escritor de crônicas e romances. Em 1964, dr. Joaquim conheceu, em Barbacena, o Guimarães Rosa, com quem trocou alguns sinais maçônicos.

Barbacena do rio das mortes, mortes de tupis principalmente, mortos pelos viscondes e pelos devotos da piedade, cidade de luzes e climas, boa para pêssegos e manicômios.

Dr. Joaquim, nervos esgarçados entre a normalidade penal e cívica e a loucura primal que trazia no sangue da família, estava em Barbacena para internar sua filha Andresa. Andresa quer dizer: a audaz. Andresa, a que ousa.

Andresa era então uma jovem magra, em novembro completando quinze anos de vida, cabelos lisos e longos, usava óculos. Desde nascida amava livros e amava música. Adolescente, estudava inglês, escutava rock, andava com uma biografia de Emily Dickinson debaixo do braço, beijava outras meninas na boca, bebia cachaça, fumava maconha.

E sentia o invisível e a textura densa do silêncio bíblico da hipocrisia evangélica de sua mãe Rute. E os cheiros e fluídos das amantes do pai, dr. Joaquim e sua fixação em putas, em pobres mulatas, autoritário, neurótico, intenso pai, que Andresa amava e queria para si e odiava e queria que morresse de uma vez.

Onde andava a bondade e a compreensão entre a burguesia brasileira, em 1964? Ah!, a autoridade positiva, a ordem, o progresso, a moral e os bons costumes…

Cansado dos intensos embates, dr. Joaquim crê não ter outra solução para Andresa que não o sanatório em Barbacena.

Dr. Joaquim conhece Guimarães Rosa num encontro na Academia de Letras de Barbacena. O Rosa discursa sob o brasão da cidade, que é o braço decepado do Tiradentes dentro do esotérico triângulo, e chama Barbacena “nosso lugar geométrico”. Dr. Joaquim admira aquele homem robusto e inteligente.

Dr. Joaquim não sabe que Andresa também conhecerá o Rosa.

Rosa está no pátio do hospício, a meditar. Gostava de observar as flores e os loucos, e vê Andresa, loucaflor, e Andresa o vê. Aproximam-se.

“Tens um gato sempre contigo”, Andresa lhe diz.

“Eu sei”, responde o Rosa, “e tu tens um lobo".

Uma pausa. Diz o escritor: "Rogarei para que te cures”.

“Sou apenas um sintoma”, diz a menina.

“Isto é, eu bem sei”.

“O que sou, é fenômeno da natureza, ou é de outro mundo?”

Sentaram-se, e olham as plantas, o sol, os ares.

Andresa: “Sonho com mansões, tão lindas. Caminho pelas ruas e olho as casas, atenta aos detalhes, tantos… tudo é nobre e rico, jardins com muitas árvores, belos cães, janelas, madeira e pedra, telhados em lindos formatos. Essa paisagem me dói muito por dentro, é muito forte. São como as fontes de cristal que sonhei bem pequena, e cuja lembrança me delira. Que mundo é esse que me invade por dentro, de bem dentro?”

Rosa não sabe, mas sabe.

Recita:

No jardim das Hespérides, sem flores
na discrição dos tufos de folhagem,
passeiam passos lentos
homens de túnica longa,
como os magos da Rosa-Cruz
…………………………………………………….

Os anciões perpassam
intérminos terraços,
com olhos tranquilos, olhos gelados,
de tanto olharem o sol.
E as mãos tateiam calmas,
como se os dedos mergulhassem
a translucidez de uma água,
esculpindo
invisíveis e impossíveis formas novas.

e os dois sorriem um pouco.

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“A loucura comunal deixa de ser loucura e torna-se mágica. Loucura governada por leis e em plena consciência. Todas as artes e ciências repousam em harmonias parciais. Poetas, loucos, santos, profetas”. Novalis.

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Parte de tudo neste conto é verdade. A primeira inspiração é um artigo de jornal (não tenho à mão agora, vou ver se acho lá em casa) sobre o esoterismo na obra do Rosa em que meu avô, Manoel Lobato, quando perguntado se Rosa era maçom, diz que "trocou sinais maçônicos" com ele (embora não existam, que eu saiba, registros oficiais da iniciação de Rosa em lugar nenhum).

Meu avô, que é escritor, escreve muito (e bem) sobre a loucura, tema de muitos diálogos nossos.

A primeira citação, do Rosa, e a última, de Novalis, eu tirei do artigo "Guimarães Rosa e a imagem poética", de Carlos Willer, publicado na revista Poesia Sempre, n° 28, ano 15, 2008.

A fala de Agnes Guimarães Rosa, filha do escritor, tirei de uma entrevista sua para a Revista do Livro, n° 45, ano 14, out. 2002.

O poema que Rosa recita é um trecho de Paraíso Filosófico, do livro Magma, e eu tirei daqui.

Indico também o discurso de posse do Rosa na ABL, onde ele diz que Barbacena é "nosso local geométrico". Aqui.

 

Um comentário »

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  1. Eu sabia! eu sabia que era tudo verdade… mas não é porque são textos tirados de documento. É outra verdade. Fui lendo e adquirindo a tal verdade de que falo.Gosto tanto de seus textos…um beijin.

    cristina — November 9, 2009 @ 1:16 pm

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