7.11.2009

Ativismo

Categorias: Crônicas

Ativismo: entrevista na Época com Jack Cole. Ou aqui, se o link da Época sair do ar.

Não é só porque sou um degustador convicto de Cannabis Sativa. É principalmente porque trabalho com educação e arte, em diversas escolas das periferias de BH, principalmente no Alto Vera Cruz, onde estou há mais de cinco anos, e vejo e sinto o que essa cultura doida do tráfico está fazendo com as crianças. E acredito que a solução é falar abertamente do assunto, é encarar as drogas como são, é legalizá-las e discuti-las como problema de saúde e de consciência, ao invés de marginalizar e criminalizar usuários e mesmo traficantes que entram nessa barca furada cedo, por ignorância e falta de opção.

Vem daí o ativismo deste blog.

Época – Aqui estamos discutindo colocar metralhadoras em helicópteros e aumentar a pena por tráfico.

Cole – Não estou querendo me meter nos assuntos de seu país, mas não cometam o mesmo erro que nós. Você coloca uma metralhadora no helicóptero, o traficante compra um foguete. Você entra com um tanque, ele compra bazucas. E isso vai parar onde? Vão fazer um Vietnã urbano?

4.11.2009

Ativismo

Categorias: Crônicas

Dois ótimos posts sobre a questão das drogas no blog Not Tupi.

Poção Mágica de Satã.

Total e irrestrita.

13.10.2009

Adentrismo MST

Categorias: Crônicas, Adentrismo

 

Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.

Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.

 

Maurício Caleiro, daqui.

9.10.2009

Ainda a malandragem

Categorias: Crônicas, Adentrismo

Diálogo de sábios sobre temas tangentes à discussão sobre malandragem, o jeitinho brasileiro e a preguiça.

Sérgio Buarque de Holanda (1968): Se os primeiros colonos da América Inglesa vinham movidos pelo afã de construir, vencendo o rigor do deserto e selva, uma comunidade abençoada, isenta das opressões religiosas e civis por eles padecidas em sua terra de origem, e onde enfim se realizaria o puro ideal evangélico, os da América Latina se deixavam atrair pela esperança de achar em suas conquistas um paraíso feito de riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles se ofereceria sem reclamar labor maior, mas sim como dom gratuito. Não há, neste último caso, contradição necessária entre o gosto da pecúnia e a devoção cristã. Um e outra, em verdade, se irmanam frequentemente e se confundem: já Cristóvão Colombo exprimia isto ao dizer que com o ouro tudo se pode fazer neste mundo, e ainda se mandam almas ao céu.

Eduardo Viveiros de Castro (2002): Entre os pagãos do Velho Mundo, o missionário sabia as resistências que teria a vencer: ídolos e sacerdotes, liturgias e teologias - religiões dignas desse nome, mesmo que raramente tão exclusivistas como a sua própria. No Brasil, em troca, a palavra de Deus era acolhida alacremente por um ouvido e ignorada com displicência pelo outro. O inimigo aqui não era um dogma diferente, mas uma indiferença ao dogma, uma recusa em escolher, inconstância, indiferença, olvido: "a gente destas terras é a mais bruta, a mais ingrata, a mais inconstante, a mais avessa, a mais trabalhosa de ensinar de quantas há no mundo", desfia e desafia o desencantado Vieira. Eis por que são Tomé fora designado por Cristo para pregar no Brasil; justo castigo para o apóstolo da dúvida, esse de levar a crença aos incapazes de crer - ou capazes de crer em tudo, o que vem a dar na mesma: "outros gentios são incrédulos até crer; os brasis, ainda depois de crer, são incrédulos".

Octavio Paz (1959): Do mesmo modo que uma pirâmide asteca por vezes recobre um edifício mais antigo, a unificação religiosa [empreendida pelos colonizadores espanhóis católicos no México] somente afetava a superfície da consciência, deixando intactas as crenças primitivas.

Rui Barbosa (1919): [As elites políticas brasileiras consideram o Brasil] um país de resignação ilimitada e terna indiferença, […] [povoado] por uma ralé semi-animal e semi-humana de escravos de nascença, concebidos e gerados para a obediência, como o muar para a albarda, como o suíno para o chiqueiro, como o gorila para a corrente, […]uma raça cujo cérebro ainda não se sabe se é de banana, ou de mamão, para se empapar de tudo que lhe imputam; uma raça cujo coração ainda não se estudou se é de cortiça, ou de borracha, para não guardar mossa de nada que o contunda.

Questiono Rui: Os porcos não foram feitos para o chiqueiro, nem os gorilas para a corrente! (Ver Quem pra quem?)

Olavo Bilac (1909): Aos bandeirantes se deve a exploração e a povoação do Brasil. E se milhares de índios pagaram com a liberdade e com a vida essa obra de civilização, milhões de homens de uma nova nacionalidade, que talvez ainda venha a ser a mais forte da terra, estão hoje gozando a prosperidade, o bem estar, a fortuna e o conforto, que foram longamente preparados e cimentados pelos esforços dos perseguidores e pelas lágrimas dos perseguidos.

Este, acima, é um exemplo de intelectual de elite carioca, e estas suas palavras, fina pérola de seu racioncínio.

A. Carneiro Leão (1924): Nós, até 1888 e 1889, éramos uma nação com uma determinada organização social, uma diferenciação de classes definida […]. Uma tal organização economica e social, apesar das suas injustiças, mantinha um aspecto de gravidade e de lisuras políticas. Os senhores, com a independência dada pela fortuna material e a consciência da sua superioridade de classe, faziam uma política e uma administração públicas que eram o reflexo das suas qualidades de altivez e honestidade. Daí a sensação de correção, desprendimento, elevação de vistas, que se tinha, geralmente, durante a monarquia, do ambiente político brasileiro. A abolição, libertanto, porém, uma população ainda considerável de escravos, e a república, um ano depois, nivelando-a, igualando-a juntamente com o retso do povo, aos ex-senhores, deram, a todos, as possibilidades de atingirem as mais elevadas situações políticas e sociais […]. De maneira que do balanço geral ressalta ser o nosso problema básico a educação nacional.

Ralph Ellison (1964): Não é a cultura que vincula os povos com origens parcialmente africanas agora dispersos pelo mundo inteiro, mas uma identidade das paixões. Nós compartilhamos um ódio pela alienação imposta a nós pelos europeus durante o processo colonial e imperial e somos vinculados mais por nosso sofrimento comum do que por nossa pigmentação.

W. E. B. Du Bois (1897): A característica de nossa era é o contato da civilização européia com os povos não desenvolvidos… Guerra, assassinato, extermínio e devassidão, este tem sido reiteradamente o resultado de se levar a civilização e o abençoado evangelho às ilhas do mar e aos pagãos sem lei.

Antonio Machado:

A verdade é verdade,
diga-a Agamenon ou seu porqueiro.
Agamenon: De acordo.
Porqueiro: Não me convence.

 

 

 As falas de Sergio, Eduardo, Octavio e Rui tirei do Livro das Citações do Eduardo Gianetti. As de Olavo e de Carneiro Leão, do Aprendizado do Brasil, de André Botelho (UNICAMP, 2002). As de Ellison e Du Bois, do O Atlântico Negro de Paul Gilroy.

8.10.2009

Malandragem

Categorias: Crônicas

"Eu fui fazer um samba em homenagem à nata da malandragem". Malandragem estratégia de sobrevivência? malandragem dos pequenos contra a super-malandragem de elite?

Eu queria escrever uma crítica ao artigo de Cláudio Moura e Castro na Veja, a Veja nunca é suficientemente esculhambada, que porcaria de revista.

O artigo aqui. Malandro é o senhor com esse papo mole, hein, dr. Castro? Quer mais malandro que Dom João VI? Dom Pedro II exemplo de intelectual anti-malandro? Diante de uma elite destas, de uns ricos destes, uns poderosos no calibre do Sarney, do Edir Macedo… eu sinto é falta de mais malandragem!

Os Monarquistas batem palmas!

A malandragem carioca não é mais que o realismo, o pragmatismo, o fruto da observação por parte do povo (explorado, escravizado, enganado) de que, mesmo com muito estudo, religião e pompa, o espírito dos que aqui vieram (e aqui estão) como elites é mal e decadente.

Mas não vou ficar criticando o artigo não. Ai, que preguiça…

Só canto assim:

O mundo me condena,
e ninguém tem pena,
falando sempre mal do meu nome
deixando de saber
se eu vou morrer de sede
ou se eu vou morrer de fome
mas a filosofia hoje me auxilia
a viver indiferente assim
nesta prontidão sem fim
vou fingindo que sou rico
pra ninguém zombar de mim.

Não me incomodo que você me diga
que a sociedade é minha inimiga
pois cantando neste mundo
vivo escravo do meu samba
muito embora vagabundo
quanto a você da aristocracia
que tem dinheiro mas não compra a alegria
há de viver eternamente
sendo escravo desta
gente que cultiva a hipocrisia.

Filosofia, Noel Rosa.

Ou então esta tira aqui do Rafael Sica, parece feita sob medida como anti-ilustração do artigo do dr. Castro.

 

25.9.2009

Ativismo

Categorias: Crônicas

A guerra do nosso governo [dos EUA] contra a cannabis e os consumidores de cannabis [ao contrário de "protejer nossas crianças", o argumento típico] é perigosa para a saúde e segurança de nossas crianças. Ela permite que jovens tenha acesso não-regulado à maconha - mais fácil hoje do que elas têm ao álcool. Ela permite que os jovens interajam e façam amizade com traficantes de outras drogas ilegais e mais perigosas. Ela faz com que as crianças não levem em consideração as mensagens educacionais que elas recebem em relação os potenciais riscos à saúde das "drogas pesadas" e dos remédios controlados, porque os garotos dizem, "se eles mentem para mim em relação à maconha, porque eles não estariam mentindo sobre todo o resto também?"

Mais importante, as leis criminalizantes mais provavelmente resultam em ter nossas crianças colocadas atrás das grades e estigmatizadas com uma ficha criminal por toda a vida do que resultam em elas terem menos vontade de experimentar a maconha.

Daqui, deste site: alternet.org, muito bom site de mídia alternativa (em inglês).

22.8.2009

Girar no coreto

Categorias: Poesia, Crônicas

os anjinhos do transe
batem palmas de luz
escutando atabaques

que coisa gostosa,
que cura,
é girar no coreto!

(Para a Barquinha)

 

 

 

 

Tomar Groselha

Categorias: Poesia, Crônicas

Douglas me contou
que aos dez anos
tomou um xarope concentrado de groselha
oito por um
e passou muito mal do fígado

agora, dez anos depois,
é que estava experimentando de novo a groselha

concluímos
que tudo é bom
na dose certa

29.7.2009

Pois é

Categorias: Estudos, Crônicas

"…pois as leis da natureza, que são descritivas, isto é, que dizem o que realmente acontece, não devem ser confundidas com as leis humanas, que são prescritivas, isto é, dizem o que deve (ou não deve) ser feito."

Antonio Cícero, aqui.

3.7.2009

Simples verdade

Categorias: Crônicas

 

"O povo é chamado a votar a cada quatro ou seis anos mas depois das eleições passa para segundo plano enquanto deputados, ministros, funcionários e o próprio presidente repartem com seus amigos empresários os contratos, os acertos confidenciais e todo tipo de verba pública."

 

Rubén Escobar, em entrevista recente sobre o golpe em Honduras. Daqui. 

4.6.2009

Sonho

Categorias: Poesia, Crônicas, Sonhos

Sonhei que te batia na cara, te dei um tapa, e outro - bem forte - e você tinha vindo tão mansa, deitara na minha cama, elogiara meu velho quarto malarrumado - me doeu, porque eu sei que você viajou o mundo e eu fiquei preso nesse quarto velho.

Você só está sendo piedosa, então eu te bato bem forte, na cara, na face, com raiva.

Mas depois eu te beijo e te pego com tanto desejo contido, os sons frios e secos dos tapas e palavras ruins se transformam num farfalho úmido confuso de sussurros e gemidos, de um velho prazer que espera.

Bati porque amo - e acordo de mais um pesadelo.

2.6.2009

Fala bonita

Fala do tio Teo acerca do paraíso
(vertida em poema por seu sobrinho-neto
)

E se o paraíso existe?
Eu te pergunto: e se lá é mesmo um lugar?
E se, como um rio, for só se abandonar
e depois de despencar das serras,
de enlamear as planícies,
de lamber os seixos,
chegar no mar, no paraíso, naturalmente, inevitavelmente?

 

 

25.5.2009

Louco Adeus

Categorias: Poesia, Crônicas

Gente
eu vou me aposentar
de ser essa eterna tentativa

eu não devia estar aqui
escrevendo artigos
me relacionando com as pessoas
disputando cargos
comendo em restaurante
scholar self-made man

eu devia estar cuidando de um jardim
numa cidade do interior
um sujeito de afetuosas, estáveis e poucas relações
vida simples

eu sou muito inteligente
mas meu emocional é muito dançado
e gente assim acaba louca

muitos insistem que as pessoas deviam ler mais
eu devia ser afastado das bibliotecas
na minha casa haverão só uns poucos volumes de poesia e romances
eu careço muito de regularidade
e de interior

esse mundo muito exterior do capitalismo moderno
me pira

prevendo isso
eu já vou fazendo meu próprio asilo
o mais confortável possível pra mim
ninguém vai nem perceber que fiquei louco de vez

de vocês
espero que quando venham me visitar
seja divertido

5.5.2009

RATIO (Diálogo)

Categorias: Estudos, Crônicas

Sempre me pareceu sem sentido o dizer que os animais são irracionais. Minha amiga a gata Sibila sem dúvida é um animal racional. Ela pode ser burra. Eu a julgo burra, em comparação a mim. Por exemplo, quando ela caga no cimento, e fica tentando cavar o nada para enterrar o cocô. Você, observando, diz, que burro, não consegue perceber que o cimento não é terra, não vai cobrir seu cocô. Ela não pensa, diz o senso comum. O gato faz aquilo por instinto. É bizarro o espetáculo de, levado por essas idéias, enxergar um robô estúpido onde está Sibila.

Afinal o que entendemos por razão? Quem classifica o animal (ou o vegetal ou o universo) como sendo irracional entende por razão algo como uma intenção, um julgamento. O homem tem razão porque tem consciência, intenção.

E porque soma dois mais dois.

Razão é medida, proporção. Razão é relação de forças, equilíbrio. Ratio. Se razão é uma beleza, quer dizer, razão é uma harmonia.

Então, dizer que o gato é irracional?

Não é.

Não é! Seus contornos, seus instintos, o uso que ele faz dos sentidos, das formas e potencialidades que ele tem, e como ele se relaciona com seu entorno, isso tudo tem intenção, isso tudo tem muita razão. Existe razão pra tudo ser assim como é.

Por irracional entendemos tudo aquilo que é incapaz de comunicar sua racionalidade para nós.

(risos)

Dado que tudo, olhando-se pelo olhar abrangente do filósofo, é racional, uma vez que em cada partícula e em cada vida e planeta se manifesta a mesma lei das harmonias, das proporções, os jogos de luz e sombra, os choques, os amores…  que belos!

Enfim, dado isto que você falou, a visão dos homens de que existe um irracional não passa de uma disfarce para sua ignorância.

Olha, vocês conversam aí. Eu pensei em Sibila como robô, pensei que a diferença é que um robô a gente monta e desmonta, liga e desliga. Ali na Tibilita vai uma vida, e por mais que seu corpo possa parecer com uma máquina, é uma máquina que tem algo que ainda nos escapa, que é a vida.

Há pessoas que não acreditam nisso…

Hum. Sempre me vem à mente o mestre Zênon. A mania dos homens de querer criar novas formas de vida e sua inquietação gera tanto os bens da medicina e das artes quanto as perseguições e as guerras.

Bom de você é que nunca nos deixa chegar a conclusões…

Justamente. Assim o jogo não termina.

—————–

Conta o Véi Chinês, que tava numa feira de informática. Chegou junto de um rapaz que jogava um desses jogos de luta do bem contra o mal. O rapaz de repente vira-se para o monge e diz: “Eu não entendo. Eu sou o bem e ele o mal. Ele é feio e gosmento, eu loiro e transado. No entanto, eu mato ele, ou ele me mata. Os objetivos do bem e do mal são os mesmos: Vencer. Bem, no final, é aquele que vence. Eu só sei matar, matar, dominar. O que eu faço, ó sábio chinês?” “Passa aqui o controle, eu seguro o bem e o mal pra você um pouco enquanto você toma um chá e descansa, tá bem?”

27.4.2009

Ticumbi

Categorias: Poesia, Crônicas

Farda e fitas
Rufa o pandeiro do
General Alegria

(Ticumbi de Dunas de Itaunas, jan. 2009)

27.3.2009

Adentrismo muito pessoal

Nomeei-me "Vários Um".

Só depois, achei o poema. Hoje, ele me fala muito, e aqui o adentro.

ESTRAMBOTE MELANCÓLICO

Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.

Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.

Carlos Drummond de Andrade. 

Pensando também na Amana que escreveu isso que é tão indescritivelmente nosso, nunca tinha antes visto o que é um segredo verdadeiro, que não se revela não porque se não deve mas porque não tem jeito mesmo. 

22.2.2009

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Delírios de quem dorme acordado. Ou de quem acorda no sono.

The ancient masters of the Tao / Had subtle marvelous mystic penetration / A depth that cannot be known. / It is exactly because that they are unknowable / That we are forced to pay attention to their appearance.”    Lao-Tse, Tao te Ching, cap. 18

  

————————————————————

O tecido esvoaçante do mar.

O tecido esvoaçante do mar chocava suas abas na madeira do navio…

Fui ter com o oráculo. Era uma velha sábia, que num quarto em penumbra, disse-me para construir um ovo. Eu trazia nas mãos um pássaro, vivo, trêmulo, de úmidas penas pretas, uma espécie de gralha recém nascida, pode imaginar? - e em torno dele eu deslizava minhas mãos, como se faz com a argila, e o ovo ia se fazendo, se criando, fechando o corvo.

Nos veios e imperfeições do ovo ela leu minha sorte. Leu que minha terrível e derradeira batalha estava próxima, e que para garantir minha sobrevivência eu deveria encontrar uma determinada cidade, e lá deveria subir num poste de iluminação, ricamente ornado, cheio de volutas, para depositar no seu cume uma vela acesa.

Grande parte de nós é luz / grande parte de nós é água / o que a gente não vê / é muito mais rápido que a luz / o som e o vento são invisíveis / pelo menos a olho nu / e são mais lentos que a luz / você sabe deles através da orelha e da areia.


Já houve na minha cozinha, junto com a Joana, uma bruxa, cujo nome não devo pronunciar. Ela uma vez quizilou com um marinheiro de ares nobres e olhos de felino, curioso e folgado, e o rapaz primeiro ficou surdo, depois ficou mudo e depois ficou cego, depois perdeu o poder do tato, por fim virou um fantasma e desapareceu. Passadas algumas semanas, alguém jogou a dona no mar.



Por fim veio uma tempestade, após um longo e tedioso outono, e o mar assobiou para mim uma cantiga indefinível, e os raios, os golpes das ondas e o vento armado até os dentes, partiram ao meio e levaram ao fundo nosso barco amarelo. Numa praia distante, fui apanhado por um velho pescador, que tinha uma filha de pele de figo, que usava sempre um curto vestido anil. 

23.12.2008

Ano Novo

Categorias: Poesia, Crônicas

Minha mente é faca e tesoura
(também cola, corda, arame)
meu implacável inimigo,
que não me deixa em paz
meu tribunal de inquisição

deixa eu ver nascer jesus menino

eu - arremeti com afiadas dúvidas contra todas as datas, todos os títulos, tesourei as falácias dos homens, não sobrou um fiapo de inocência, uma nesga de ilusão, o rei um fraco, o juiz um ladrão, o bandido ontem, um herói hoje

não mais uma áfrica a se retornar, de planícies vastas e liberdade

não mais uma américa a se desbravar, não mais um partido a se apoiar, uma ideologia por que se viver

não mais uma veneza, uma grécia, um velho mundo a se visitar, cheio de respostas

sem amazônia onde se perder, e sem um mundo espiritual a que se evadir

e o amor? ah, desfigurei-o, sangrei quem me amou, pisei nas flores com muita raiva, me fiz impossível de ser amado, e ainda atirei culpas sobre quem tentou (espero que, como o buda, ela tenha sabido não aceitar meus presentes)

comi teu nome, e bebi do ódio

até que perdi o paladar

.

mas que bom! que bom que é,
que hoje eu me ajoelho no banheiro
e meu peito transborda,
lágrimas, catarros, gemidos, graças à vida!
uma luz quente vem me derreter os ferros
e a misericórdia vem me visitar,
o cristo dos oprimidos vem,
numa hora tão íntima e misteriosa
sendo um cristo nu, um cristo mãe,
um cristo fogo e um cristo água

cega as lâminas que me fizeram indiferente ao natal, só um pouquinho, porque viver entre homens não é possível sem estas tesouras e facas do pensamento, somos seres de palavras e é preciso não acreditar em nada que dizemos.

mas só hoje, sem que ninguém veja -
me deixar sentir, senhor,
aquela alegriazinha simplória
de ver nascer Jesus menino
jesus cristin bunitin bonzin -
como dizia meu pai, navalhando -
mas eu sou velhinha, agora,
meu coração fica deste tamaninho
de felicidade de ver nascer Jesus Cristinho
abençoado, iluminado,
no meio dos animais

dando um descanso às lâminas prateadas,
tornando verde, o menino do dedo verde

um ano novo cheio de verde para todos nós

19.12.2008

Log na rede

Categorias: Estudos, Crônicas

Log é diário de bordo: você ir anotando os passos da sua pesquisa. Ser humano, um ser em pesquisa, em busca - e que vai anotando.

Meu diário caiu na rede: é peixe. Peixes na rede: cores e fomes.

Peixe, cada um é de um jeito: mil estratégias de ser, que resultam em cores, ondas: tudo para os sentidos. O mar é sem limites.

Mas, na rede, nos unimos: colegas de martírio, colegas de sobrevivência, com suas camuflagens, seus mimetismos, seus habitats singulares, órgãos que emitem luz, que soltam tinta, que provocam sons. Parece que são sós, que cada peixe está encerrado em si, que não se comunicam.

Mas partilham este comum destino de rede, e sabem disso, e mesmo quando se batem e comem ou se fecham firmemente em seus casulos, também se amam, aprendem uns com os outros, e chamam uns aos outros, secretamente, irmãos.

 

Hehe, fiquei em transe e escrevi isso aí agora, por causa do convite do Rafael Coelho para que eu respondesse umas perguntas para os que amam pateticamente os livros (poepateticos, no bom sentido!). Ele mandou para outros blogs e fêz-se uma rede. Pescou altos peixe jóia.

Vai:

1. Livro/Autor(a) que marcou sua infância:

J.R.R. Tolkien, o Senhor dos Anéis. Mas em versão oral. Meu pai era fã e me contava as histórias do livro, descrevia as passagens, ele é desenhista e pintor e desenhava e me mostrava gravuras do Frank Frazeta e aquelas coisas. Foi o "livro sagrado" da minha infância. Só fui lê-lo mesmo com quinze ou dezesseis anos! Devo confessar que o Alquimista influenciou muito meus doze anos. (ix)

2. Livro/Autor(a) que marcou sua adolescência:

O cinema foi muito mais importante que a literatura nessa fase. Li e fui fã de Arnaldo Antunes, Douglas Adams (O Mochileiro das Galáxias), e Hermam Hesse, e Milan Kundera, nos quais era aplicado pela minha querida e esclarecida vó Hebe. Tudo ia bem até o Carlos Castanheda.

3. Autor(a) que mais admira:

Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Carlos Drummond de Andrade… a briga é por aí. Se for olhar na minha estante como está hoje, predomina o Borges, é o escritor que eu mais compro e coleciono. Colecionei o Italo Calvino também. Aqui também aparecem muito os filósofos taoístas, só que ler filósofo chinês é foda, né? Eu ainda não sei chinês, mas amo Chuang Tzu, já li umas oito traduções, em três línguas. Ainda entendo pouco. Espinosa. E a Grécia Antiga. É esses trem que eu gosto hoje!

Eu colaria um adesivo no meu carro dizendo "eu leio Cecília Meireles". Ela é tipo uma maga, pra mim.

4. Autor(a) contemporâneo: Eduardo Galeano. Neil Gaiman.

5. Leu e não gostou: Eu adoro responder essa pergunta quando é "ouviu e não gostou" pra eu dizer: Rolling Stones! É difícil lembrar o que eu não gosto, eu esqueço. Andei tentando gostar de Murilo Mendes e não consegui. Mas pode ser a hora…

Lembrei de um: Oswald de Andrade. Aliás o modernismo paulista e o concretismo são mais ou menos, pra mim, não fala muito. Quer dizer,  Antropofagia é legal! Gosto assim de algumas idéias e posturas e ações, mas da literatura mesmo deles, médio. Macunaíma é legal! Mas eu daria umas melhoradas…

6. Lê e relê: Filosofia.

7. Manias: Nunca estar satisfeito, sempre querer alguma coisa, sempre num tormento d’alma, sempre buscando um tesouro qualquer. Me misturar a felino.

Eu gosto dos livros mas tenho uma relação estranha com eles. Eu não tenho muito jeito, eu levo eles pra cama, eu estrago eles. Mas eu os amo muito. Acho graça quando as pessoas me acham culto e bacana lendo. Pra mim estou fazendo a coisa mais transgressora, imoral e alucinógena que se poderia fazer. Tem outro jeito de ler, eu sei, mas não me interressa.

Do Livro mais antigo do mundo

"Começando então a composição deste livro dos bons dizeres, ditos pelo nobre lorde, pai divino, amado de deus, filho do rei, primogênito de sua raça, o prefeito e chefe senhor Ptah-hotep, para instruir os ignorantes no conhecimento dos argumentos dos bons dizeres. É vantajosa a sorte para aqueles que os escutam, e grande perda sofre quem os transgride.

Ele diz a seu filho: Não sejas arrogante por conta do conhecimento que possuis; trata o ignorante assim como tratas o douto; pois as portas da arte não estão fechadas, e nenhum artista possuiu a perfeição a que deve aspirar. Mas boas palavras são mais difíceis de encontrar que esmeraldas, e é por escravos que estas são encontradas, no meio das pedras de pegmatita".

Os Preceitos de Ptah-Hotep, traduzido (para o inglês) por Philippe Virey, é um tratado egípcio contido no Papyrus Prisse, o mais antigo livro do mundo. Está publicado no livro Records of the Past, coletânea de textos do Antigo Oriente, editado por  A. H. Sayce. Li aqui no sacred-texts.

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