Nenhuma religião, mas somente mistérios.
No meu romance que eu não vou escrever, ou estou sempre escrevendo, Dioniso nasce no Brasil (na Amazônia na verdade, ainda não havia Brasil nesse tempo), institui os mistérios por aqui, morre em Machu Pichu, vira várias plantas, depois monta numa onça e depois num golfinho e viaja pra índia, aparece lá como Shiva, fuma maconha (charas) no Himaláia e depois vai pra Grécia ensinar o povo a tomar vinho e dançar e curar e ser feliz. Mas é profundamente mal entendido. Termina no Brasil contemporâneo, passa pelo Rio no carnaval, faz uma reflexão sobre a decadência de tudo e ruma à Amazônia para voltar às raízes.
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Fiz uma pesquisa, mais ou menos exaustiva, dos mistérios greco-romanos, especialmente Elêusis e Baco. Me interessa o assunto como tal dentro do esforço meu de compreender a Grécia antiga, paixão lugar-comum entre nós. Falando em lugar-comum, me dava preguiça o tanto de lugares comuns que são repetidos sobre a Grécia, os deuses gregos, os filósofos. Então, adentrei-me. Fiz um semestre de grego antigo na Letras (UFMG), suficiente pra ler um pouco do grego. Além do João (em arche era o logos e o logos estava pros ton teon e tal), ficou marcado um texto fictício em que Homero se apresentava como curador, profeta, cantor, professor (não estou com o texto agora, minhas apostilas de grego estão em casa e eu não, depois adentro o texto aqui no blog), enfim, um verdadeiro griot, um mestre, no estilo xamã. Foi nascendo aí meu interesse pelo passado mágico da poesia, pela relação entre poesia, música, dança e estados alterados de consciência, que é uma das minhas pesquisas hoje. Depois fui ler Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, livro I, que a Martins Fontes publicou bilíngue grego-português. Só depois de um tempo de familiaridade, depois de Junito de Souza Brandão e muitos outros, é que comecei a entrar nas peças trágicas e nos diálogos platônicos. Está na minha agenda ler o Euripides and His Age do Gilbert Murray. Tô acabando uma segunda lida no controverso Julgamento de Sócrates do I. F. Stone, um bom livro mas que devia chamar "O Julgamento de Platão". Acho que o Stone foi meio como o Platão, criou um Sócrates que mais coubesse para expressar seus próprios pensamentos. Mas é um grande livro de um grande cara!
Voltando aos mistérios, meu interesse ali estava em alguns pontos, sendo o primeiro as origens da poesia e do drama. Outro, a questão dos estados alterados de consciência e seu lugar na cultura antiga. Ponto cheio de polêmicas. Sou dos que acreditam que se usava drogas em Elêusis. Walter Burkert, que é um dos mais confiáveis estudiosos porque se atém às fontes e não especula demais, em seu Antigos Cultos de Mistério pondera que acha improvável o uso de drogas em Elêusis porque considera que a embriagues alucinógena ou que nome se dê é muito individual e não consegue imaginar como seria isso numa cerimônia em que podiam estar presentes centenas de iniciados. Mesmo assim, ele se pergunta como por quase dois mil anos pessoas foram iniciadas em Elêusis e tiveram visões e êxtases, que mistério é esse afinal?
Eu julgo que faltou a Burkert assistir a uma cerimônia do Santo Daime ou da barquinha, ou da igreja do Peiote, pra ver como pode uma cerimônia com centenas de pessoas envolver alucinógenos e ainda assim manter-se coerente, e que, no caso de certas substâncias, e em certos rituais, a experiência pode ser coletiva, sim. Os preconceitos dos estudiosos são grandes em relação a esse complexo drogas-religião, vide Carl Kerenyi no seu ótimo Dioniso, onde ele expressa em algum lugar (estou sem o livro aqui agora) que quando entram as "drogas pesadas" na religião é um estado posterior de decandência. Não é o que os estudos etnológicos, antropológicos e místicos indicam, o Soma que o diga. Mas eu tenho também minhas ideias e advogo a teoria (que estou pesquisando) de que a origem de toda essa história de Deus está no contato do homem com estas substâncias alteradoras do estado de consciência. Mas para esta teoria tenho que apresentar os argumentos e aqui agora não cabe.
Toquei aí nisso: as semelhanças entre os antigos cultos de mistério (tanto greco-romanos como egípcios ou orientais) e as religiões ayahuasqueiras de hoje, e a prática religiosa dos índios. Frequentava um terreiro de candomblé a uns anos atrás e o pai de santo queria fazer um estudo sobre as semelhanças entre o paganismo greco-romano e o candomblé. Mas ele desistiu, porque era difícil. Eu fiquei com isso na cabeça, e quanto mais conhecia o candomblé e a Grécia antiga, mais via que as semelhanças muitas. O candomblé é um culto de mistério, e fornece muito para quem quer tentar "visualizar" como seriam os ritos báquicos e eleusinos.
Bibliografia legal aqui.
Se um dia a preguiça deixar, vou escrever mais sobre isto. Eu prefiro escrever poesia, e deixar estes estudos e debates para a oralidade.
Outro ponto: a relação entre os mistérios e o cristianismo. Bibliografia não falta, no sacred-texts temos vários bons livros. Este assunto foi recentemente abordado (com excesso de simplismo) no filme Zeitgeist. Simplificações à parte, pra mim o parentesco dioniso/orfeu/osíris/cristo é claro e patente.
As peças da era medieval chamadas de mystery plays podem trazer algo dos mistérios antigos, assim como as passagens do mito cristão, especialmente a paixão, têm muito do sabor dos mistérios (e são chamados de mistérios no rosário, como a eucaristia é um mistério), mas, como é bem dito no artigo da wikipedia (em inglês) sobre os mistérios, o cristianismo não é uma religião de mistério porque seus rituais e fórmulas não são secretos. Neste sentido, o daime também não é. Mas permanece o termo mistério que indica não um segredo ritual mas a própria impossibilidade de se descrever objetivamente o que acontece. Neste sentido, a miração do daime é mistério, não porque eu esteja formalmente proibido de contá-la, mas porque ela é em si de natureza incontável, e quando se conta, se perde. As palavras não dão conta. Em grego o termo é epoptes, (de epi, sobre ou em torno de, e opt, ver), "ver", palavra que fala tanto da visão que é alcançada após o período de iniciação quanto da pessoa que alcançou este alto grau, que vê, o clarividente.
Epoptes (Greek) (from epi at, upon + opt to see)
Sometimes epopt. In the Eleusinian Mysteries, seer, overseer, master mason, one who has the vision sublime; an initiate into the highest degree of the Mysteries (epopteia) who had attained, among other spiritual faculties and powers, that of spiritual clairvoyance.
The state attained, epopteia, was the seventh and highest degree of initiation in the Eleusinian Mysteries, when the inner god shone forth through the human being, so that the candidate was at one with his inner divinity.
Daqui.
Aproveitando a citação do mestre maçon, isso me lembra outro ramo que se abriu nesta pesquisa, meus estudos maçônicos. Meu avô é mestre maçom, meu bisavô que tem o mesmo nome que eu (Pedro Lobato) também, e quando eu ouvi minha vó (presbiteriana ferrenha) contar que em sua viagem à Israel levava uma luva branca para que soubessem que era mulher de maçom, cara, fiquei apaixonado pela coisa. Pela estranha ideia de que pessoas comuns, burgueses, religiosos, pudessem praticar uma coisa tão estranha quanto a maçonaria. Nunca fui iniciado, não tenho bons costumes, não ligo pra dinheiro, não tenho o perfil, e ademais só me interesso pela parte mística. Mas foi fascinante o estudo. Quantos maçons famosos! Já leram o livro sobre Aleijadinho e a maçonaria (Aleijadinho, iconografia maçônica)? E o Álvares de Azevedo, a Maçonaria e a Dança? Pérolas! Pensei em mil romances bacanas mas o Dan Brown já existe.
De tudo o mais interessante foi dar com o Dionisian Artificers, do José Hipolito. É um livro fascinante mesmo que tudo seja uma grande sacação. É uma sacação baseada nos autores antigos, pelo menos. Estou pra terminar uma tradução deste livro. Penso que é um livro importante para os maçons, para a história do Brasil (pela importância do autor) e para quem se interessa pelo estudo da antiguidade. E que eu saiba não existe em português.
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No final da era pré-cristã, Cícero declarou ser sua opinião pessoal que Atenas não deu nada para o mundo mais excelente ou divino que os Mistérios de Elêusis. No começo da era cristã, o estóico Epictetus falou de sua impressão destes mistérios em termos de genuína admiração. Assim, no principio de nossa era, quando o Zeus Olímpico havia perdido sua antiga supremacia e o Apolo Délfico, embora revivendo, estava já reduzido em influência, Demeter de Elêusis ainda desfrutava de alta reputação. A influência de seus mistérios era literalmente mundial durante os antigos tempos imperiais.
Pagan Regeneration, A Study of Mystery Initiations in the Graeco-Roman World, by Harold R. Willoughby.
Quero patrocínio para trabalhar com traduções, traduzir os ótimos Homo Necans e Savage Energies do Walter Burkert (não existem em português que eu saiba). Em breve apresento minha tradução do Dionisian Artificers para servir de port-folio, para julgarem minha capacidade.
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Dioniso, personagem fascinante… as histórias de aceitação e rejeição do dionisismo, relacionadas às relações de classe e raciais entre os gregos, o "dionisismo" sendo um culto bárbaro, "irracional", que apaga as barreiras e funde, e que aproxima a divindade do homem. A história da incorporação dele à Pólis, tal como descrito no ótimo livro Dionisismo, Poder e Sociedade, de Antônio Dabdab Trabulsi. Tudo isso faz paralelos e contrapontos interessantíssimos com o choque cultural índios da américa/europeus, e com a sociedade brasileira e o candomblé, por exemplo. Religião aliena ou liberta? O tempo pode transformar os bárbaros em clássicos? Misticismo é alienante ou é a verdadeira coisa? Daí a frase:
Nenhuma religião, mas somente mistérios.
Remeto a: Sítio do Pica-pau Multicolorido 8.