4.11.2009

Adentrismos Mestre Oluô Agenor

Dois adentrismos do Oluô Agenor Miranda Rocha, retirados do livro "Um Vento Sagrado", de Muniz Sodré e Luís Filipe de Lima.

Eu não entendo como é que tanta gente hoje em dia se deixa seduzir pelo dinheiro fácil e passa a cobrar por trabalhos, pelo jogo, por uma orientação qualquer. E cobram uma fortuna, até em dólar! No meu tempo, não havia isso. Aninha e Abedé, por exemplo, nada cobravam. Mas o candomblé foi-se transformando em comércio, até mesmo muita gente séria passou a agir assim. Costumo dizer que o candomblé evoluiu, sim, mas não em seus preceitos. Evoluiu nos figurinos e no hábito de se pedir dinheiro. A religião não pode ser um meio de sustento. Eu trabalhei minha vida inteira, hoje recebo minha aposentadoria e não peço nada a ninguém. E tasmbém nunca cobrei por jogo ou qualquer outro trabalho espiritual. Ora, isto foi um dom que Deus me deu, como é que eu vou cobrar dos que batem à minha porta? Os africanos de meu tempo, assim como os tios e tias nascidos no Brasil, viviam quase todos em grande dificuldade, mas nem por isso faziam de seu sacerdócio um comércio. Na maioria dos casos, dedicavam-se ao comércio ambulante, à estiva.

pp. 84.

Eu entendo o orixá como um vento sagrado. Quem é tomado por ele recebe, como se diz, um "barravento". Quando o orixá vem, às vezes está manifestado de forma serena - o vento está calmo; às vezes, o orixá começa a tremer, tremer convulsivamente - o vento está mais forte.

Eu não tenho superstição de qualquer tipo. Imagina, não colocar bolsa no chão, não abrir guarda-chuva dentro de casa, não colocar o chapéu em cima da cama… tudo bobagem! O que mais vale é o coração limpo, a mente limpa. O que estiver errado, o santo conserta.

pp. 99.

Axé! Mojubá tio Agenor!

Do rosário dos ifás
Nem zumbi é sabedor
Os segredos do seu povo
Só quem sabe é Oluô

Paulo César  Pinheiro, Oluô (samba).

24.10.2009

Espírito da Colmeia

Categorias: Cinema


22.10.2009

Estudos

Categorias: Estudos

Nosso povo viveu em três tempos: antes do contato, o contato e depois dele. O que temos de antes do contato aprendemos ouvindo histórias e através dos rituais sagrados - era um tempo de riqueza cultural, de fartura, em que vivíamos felizes em harmonia com a natureza. O que precisávamos pedíamos a ela e ela nos dava, sem pedir nada em troca. Nós éramos da natureza e a natureza era nossa casa.

Rânison Xacriabá, graduando no FIEI (Formação Intercultural de Educadores Indígenas)/UFMG. Tirado da revista (maravilhosa) Tabebuia, do projeto Literaterras da FALE - UFMG.

Em contraste com isto.

 

16.10.2009

Estudos

Categorias: Estudos, Mistérios

Em livros e hinos dos dias passados, que falavam da religião "dos pagãos em sua cegueira", ele [o pagão] era retratado como um ser de estranha pervercidade, apto a curvar-se a "deuses de madeira e pedra". A questão de porque ele agia assim tolamente nunca foi levantada. Foi apenas esta "cegueira"; a luz do evangelho ainda não os havia alcançado. Hoje em dia o selvagem tornou-se material não apenas para conversão e assunto de hinos mas também para a observação científica. Queremos entender sua psicologia, isto é, como ele se comporta, não apenas por ele, para que possamos abrupta e despóticamente convertê-lo ou reformá-lo, mas por nós mesmos também: parcialmente, é claro, pelo simples prazer de saber, mas também - uma vez que percebemos que nosso próprio comportamento é baseado em instintos afins aos dele -, para, entendendo seu comportamento, podermos entender, e quem sabe melhorar, o nosso.

Antropólogos que estudam as culturas primitivas de hoje descobrem que a adoração de falsos deuses, o "curvar-se diante de madeira e pedra" vivem mais na mente dos escritores de hinos do que na mente dos selvagens. Procuramos por templos de ídolos pagãos: encontramos salões de danças e danças rituais. O homem selvagem é um homem de ação. Ao invés de pedir a um deus para fazer o que ele quer que seja feito, ele o faz, ou tenta fazer ele mesmo; ao invés de rezas ele diz encantamentos (utters spells). Em uma palavra, ele pratica magia, e sobretudo, ele está sempre e estenuosamente envolvido em dançar danças mágicas. Quando um selvagem quer sol ou vento ou chuva, ele não vai à igreja e se prostra perante a um falso deus; ele chama sua tribo e dança uma dança do sol ou uma dança do vento ou uma dança da chuva. Quando ele quer caçar e capturar um urso, ele não reza a seu deus pedindo força para ser mais esperto e mais forte que o urso, ele estuda sua preza numa dança do urso.

Ancient Art and Ritual, Jane Harrison (1913).

 

5.10.2009

Estudos, Mistérios

Nenhuma religião, mas somente mistérios.

No meu romance que eu não vou escrever, ou estou sempre escrevendo, Dioniso nasce no Brasil (na Amazônia na verdade, ainda não havia Brasil nesse tempo), institui os mistérios por aqui, morre em Machu Pichu, vira várias plantas, depois monta numa onça e depois num golfinho e viaja pra índia, aparece lá como Shiva, fuma maconha (charas) no Himaláia e depois vai pra Grécia ensinar o povo a tomar vinho e dançar e curar e ser feliz. Mas é profundamente mal entendido. Termina no Brasil contemporâneo, passa pelo Rio no carnaval, faz uma reflexão sobre a decadência de tudo e ruma à Amazônia para voltar às raízes.

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Fiz uma pesquisa, mais ou menos exaustiva, dos mistérios greco-romanos, especialmente Elêusis e Baco. Me interessa o assunto como tal dentro do esforço meu de compreender a Grécia antiga, paixão lugar-comum entre nós. Falando em lugar-comum, me dava preguiça o tanto de lugares comuns que são repetidos sobre a Grécia, os deuses gregos, os filósofos. Então, adentrei-me. Fiz um semestre de grego antigo na Letras (UFMG), suficiente pra ler um pouco do grego. Além do João (em arche era o logos e o logos estava pros ton teon e tal), ficou marcado um texto fictício em que Homero se apresentava como curador, profeta, cantor, professor (não estou com o texto agora, minhas apostilas de grego estão em casa e eu não, depois adentro o texto aqui no blog), enfim, um verdadeiro griot, um mestre, no estilo xamã. Foi nascendo aí meu interesse pelo passado mágico da poesia, pela relação entre poesia, música, dança e estados alterados de consciência, que é uma das minhas pesquisas hoje. Depois fui ler Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, livro I, que a Martins Fontes publicou bilíngue grego-português. Só depois de um tempo de familiaridade, depois de Junito de Souza Brandão e muitos outros, é que comecei a entrar nas peças trágicas e nos diálogos platônicos. Está na minha agenda ler o Euripides and His Age do Gilbert Murray. Tô acabando uma segunda lida no controverso Julgamento de Sócrates do I. F. Stone, um bom livro mas que devia chamar "O Julgamento de Platão". Acho que o Stone foi meio como o Platão, criou um Sócrates que mais coubesse para expressar seus próprios pensamentos. Mas é um grande livro de um grande cara!

Voltando aos mistérios, meu interesse ali estava em alguns pontos, sendo o primeiro as origens da poesia e do drama. Outro, a questão dos estados alterados de consciência e seu lugar na cultura antiga. Ponto cheio de polêmicas. Sou dos que acreditam que se usava drogas em Elêusis. Walter Burkert, que é um dos mais confiáveis estudiosos porque se atém às fontes e não especula demais, em seu Antigos Cultos de Mistério pondera que acha improvável o uso de drogas em Elêusis porque considera que a embriagues alucinógena ou que nome se dê é muito individual e não consegue imaginar como seria isso numa cerimônia em que podiam estar presentes centenas de iniciados. Mesmo assim, ele se pergunta como por quase dois mil anos pessoas foram iniciadas em Elêusis e tiveram visões e êxtases, que mistério é esse afinal?

Eu julgo que faltou a Burkert  assistir a uma cerimônia do Santo Daime ou da barquinha, ou da igreja do Peiote, pra ver como pode uma cerimônia com centenas de pessoas envolver alucinógenos e ainda assim manter-se coerente, e que, no caso de certas substâncias, e em certos rituais, a experiência pode ser coletiva, sim. Os preconceitos dos estudiosos são grandes em relação a esse complexo drogas-religião, vide Carl Kerenyi no seu ótimo Dioniso, onde ele expressa em algum lugar (estou sem o livro aqui agora) que quando entram as "drogas pesadas" na religião é um estado posterior de decandência. Não é o que os estudos etnológicos, antropológicos e místicos indicam, o Soma que o diga. Mas eu tenho também minhas ideias e advogo a teoria (que estou pesquisando) de que a origem de toda essa história de Deus está no contato do homem com estas substâncias alteradoras do estado de consciência. Mas para esta teoria tenho que apresentar os argumentos e aqui agora não cabe.

Toquei aí nisso: as semelhanças entre os antigos cultos de mistério (tanto greco-romanos como egípcios ou orientais) e as religiões ayahuasqueiras de hoje, e a prática religiosa dos índios. Frequentava um terreiro de candomblé a uns anos atrás e o pai de santo queria fazer um estudo sobre as semelhanças entre o paganismo greco-romano e o candomblé. Mas ele desistiu, porque era difícil. Eu fiquei com isso na cabeça, e quanto mais conhecia o candomblé e a Grécia antiga, mais via que as semelhanças muitas. O candomblé é um culto de mistério, e fornece muito para quem quer tentar "visualizar" como seriam os ritos báquicos e eleusinos.

Bibliografia legal aqui.

Se um dia a preguiça deixar, vou escrever mais sobre isto. Eu prefiro escrever poesia, e deixar estes estudos e debates para a oralidade.

Outro ponto: a relação entre os mistérios e o cristianismo. Bibliografia não falta, no sacred-texts temos vários bons livros. Este assunto foi recentemente abordado (com excesso de simplismo) no filme Zeitgeist. Simplificações à parte, pra mim o parentesco dioniso/orfeu/osíris/cristo é claro e patente.

As peças da era medieval chamadas de mystery plays podem trazer algo dos mistérios antigos, assim como as passagens do mito cristão, especialmente a paixão, têm muito do sabor dos mistérios (e são chamados de mistérios no rosário, como a eucaristia é um mistério), mas, como é bem dito no artigo da wikipedia (em inglês) sobre os mistérios, o cristianismo não é uma religião de mistério porque seus rituais e fórmulas não são secretos. Neste sentido, o daime também não é. Mas permanece o termo mistério que indica não um segredo ritual mas a própria impossibilidade de se descrever objetivamente o que acontece. Neste sentido, a miração do daime é mistério, não porque eu esteja formalmente proibido de contá-la, mas porque ela é em si de natureza incontável, e quando se conta, se perde. As palavras não dão conta. Em grego o termo é epoptes, (de epi, sobre ou em torno de, e opt, ver), "ver", palavra que fala tanto da visão que é alcançada após o período de iniciação quanto da pessoa que alcançou este alto grau, que vê, o clarividente.

Epoptes (Greek) (from epi at, upon + opt to see)

Sometimes epopt. In the Eleusinian Mysteries, seer, overseer, master mason, one who has the vision sublime; an initiate into the highest degree of the Mysteries (epopteia) who had attained, among other spiritual faculties and powers, that of spiritual clairvoyance.

The state attained, epopteia, was the seventh and highest degree of initiation in the Eleusinian Mysteries, when the inner god shone forth through the human being, so that the candidate was at one with his inner divinity.

Daqui.

Aproveitando a citação do mestre maçon, isso me lembra outro ramo que se abriu nesta pesquisa, meus estudos maçônicos. Meu avô é mestre maçom, meu bisavô que tem o mesmo nome que eu (Pedro Lobato) também, e quando eu ouvi minha vó (presbiteriana ferrenha) contar que em sua viagem à Israel levava uma luva branca para que soubessem que era mulher de maçom, cara, fiquei apaixonado pela coisa. Pela estranha ideia de que pessoas comuns, burgueses, religiosos, pudessem praticar uma coisa tão estranha quanto a maçonaria. Nunca fui iniciado, não tenho bons costumes, não ligo pra dinheiro, não tenho o perfil, e ademais só me interesso pela parte mística. Mas foi fascinante o estudo. Quantos maçons famosos! Já leram o livro sobre Aleijadinho e a maçonaria (Aleijadinho, iconografia maçônica)? E o Álvares de Azevedo, a Maçonaria e a Dança? Pérolas! Pensei em mil romances bacanas mas o Dan Brown já existe.

De tudo o mais interessante foi dar com o Dionisian Artificers, do José Hipolito. É um livro fascinante mesmo que tudo seja uma grande sacação. É uma sacação baseada nos autores antigos, pelo menos. Estou pra terminar uma tradução deste livro. Penso que é um livro importante para os maçons, para a história do Brasil (pela importância do autor) e para quem se interessa pelo estudo da antiguidade. E que eu saiba não existe em português.

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No final da era pré-cristã, Cícero declarou ser sua opinião pessoal que Atenas não deu nada para o mundo mais excelente ou divino que os Mistérios de Elêusis. No começo da era cristã, o estóico Epictetus falou de sua impressão destes mistérios em termos de genuína admiração. Assim, no principio de nossa era, quando o Zeus Olímpico havia perdido sua antiga supremacia e o Apolo Délfico, embora revivendo, estava já reduzido em influência, Demeter de Elêusis ainda desfrutava de alta reputação. A influência de seus mistérios era literalmente mundial durante os antigos tempos imperiais.

Pagan Regeneration, A Study of Mystery Initiations in the Graeco-Roman World, by Harold R. Willoughby.

Quero patrocínio para trabalhar com traduções, traduzir os ótimos Homo Necans e Savage Energies do Walter Burkert (não existem em português que eu saiba). Em breve apresento minha tradução do Dionisian Artificers para servir de port-folio, para julgarem minha capacidade.

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Dioniso, personagem fascinante… as histórias de aceitação e rejeição do dionisismo, relacionadas às relações de classe e raciais entre os gregos, o "dionisismo" sendo um culto bárbaro, "irracional", que apaga as barreiras e funde, e que aproxima a divindade do homem. A história da incorporação dele à Pólis, tal como descrito no ótimo livro Dionisismo, Poder e Sociedade, de Antônio Dabdab Trabulsi. Tudo isso faz paralelos e contrapontos interessantíssimos com o choque cultural índios da américa/europeus, e com a sociedade brasileira e o candomblé, por exemplo. Religião aliena ou liberta? O tempo pode transformar os bárbaros em clássicos? Misticismo é alienante ou é a verdadeira coisa? Daí a frase:

Nenhuma religião, mas somente mistérios.

Remeto a: Sítio do Pica-pau Multicolorido 8.

23.9.2009

Aqueles estudos

Categorias: Estudos

 

A literatura é coisa de palavras, não de letras, apesar do nome; nasce com os cantos e fórmulas mágicas dos sacerdotes transmitidos oralmente de memória em memória. Carmina, como os romanos chamavam à poesia, significava versos, e charms, encantos; ode, entre os gregos, significava originalmente encantamento; o mesmo com as palavras inglesas rune e lay e o alemão lied. A cadência e o metro, sugeridos talvez pelos ritmos da natureza e da vida corporal, foram provavelmente desenvolvidos por mágicos, ou shamans, para preservar, ressaltar e transmitir "a magia de seus versos" (BRIFFAULT, Robert. The Mothers). Os gregos atribuíram os primeiros hexâmetros aos sacerdotes délficos, inventores deste metro para uso dos oráculos.

 

Will Durant, História da Civilização, vol. I.

17.9.2009

Adentrismo

Categorias: Estudos, Poesia, Adentrismo

(…) E a sábia preguiça solar. A reza. A energia silenciosa. A hospitalidade.
Bárbaros, pitorescos e crédulos. Pau-Brasil.
A floresta e a escola. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.

Oswald de Andrade, Manifesto Poesia Pau-Brasil, 1924.

8.9.2009

Adentrismo de Mestre

Categorias: Estudos, Adentrismo

"Quando escrevo, não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem, acreditava na expressão. Eu lera Croce, e a leitura de Croce de nada me serviu. Eu queria expressar tudo. Pensava, por exemplo, que, se precisava de um pôr-do-sol, devia encontrar a palavra exata para o pôr-do-sol - ou melhor, a mais surpreendente metáfora. Agora cheguei à conclusão (e essa conclusão talvez soe triste) de que não acredito mais na expressão; acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que esta palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar. O leitor, se for rápido o suficiente, pode ficar satisfeito com nossa mera alusão a algo".

Jorge Luis Borges, in "Esse Ofício do Verso". O grifo é meu.

Aqueles estudos

Categorias: Mistérios

Da terra da Ásia, do santo Tmolo eu acorro, doce esforço e fatiga agradável de sentir - já que é por Bromios. Eu exalto Baco por meus gritos de Evoé!

Quem vem lá? Quem vem lá? Que se afaste! Que cada um guarde pura sua língua, observando bem o silêncio sagrado! Sempre segundo o rito, Dioniso será glorificado por mim.

Feliz o homem afortunado, instruído do divino mistério, que, santificando sua vida, se faz a alma de um fervente, aquele que, na montanha, participa das bacanais, santamente purificado, que pratica as orgias de Cibele, Grande Mãe, e que, brandindo o tirso, se orna de uma banda de hera, para servir Dioniso. Vamos bacantes, vamos bacantes! Bromios, Deus filho de Deus, Dioniso, tragam-no outra vez das montanhas da Frígia, para as praças da Hélade, onde os coros estão bem à vontade, tragam-no, Bromios!

Eurípides, As bacantes.

3.9.2009

Estudo

Categorias: Estudos, Mistérios

"O Kamarãpi (ayahuasca) é um legado de Pawa (o Deus supremo), que deixou a bebida para que os Ashaninka adquirissem o conhecimento e aprendessem como se deve viver na Terra. As respostas a todas as perguntas dos homens estão acessíveis com o aprendizado xamânico, que é realizado através do consumo regular e repetitivo da bebida, durante anos. A formação do xamã (Sheripiari), no entanto, nunca pode ser considerada como concluída. Se a experiência lhe confere respeito e credibilidade, ele também está sempre aprendendo. É através do Kamarãpi que o Sheripiari realiza suas viagens nos outros mundos e adquire a sabedoria para curar os males e as doenças que afetam a comunidade".

Daqui, não deixem também de ouvir a música. Muito bom…

6.8.2009

Estudo

Categorias: Estudos

"A ingestão de nxipae (ayahuasca) é também considerada fundamental na preparação do indivíduo para a morte e está intimamente ligada ao destino post-morten. É através da ingestão de nxipae que o indivíduo se dá conta da separaçaõ que há entre seu bedu yuxin, o espírito que vê, que tem consciência, e o seu corpo. Sem isto, após a morte, o bedu yuxin fica louco e não consegue empreender a viagem até a aldeia celeste.

É também somente através do consumo de nxipae que se pode adquirir a força necessária para enfrentar a luta espiritual com a onça gigante, que está no meio do caminho para a aldeia celeste e não ser devorado por esta, o que impossibilitaria a chegada do bedu yuxin ao seu destino final. Quanto mais o indivíduo separou o seu bedu yuxin do corpo, através do uso do nxipae, mais estará este preparado para empreender a viagem derradeira até a aldeia celeste."

O uso ameríndio do caapi. Pedru Luz, in: O uso ritual da ayahuasca.

29.7.2009

Pois é

Categorias: Estudos, Crônicas

"…pois as leis da natureza, que são descritivas, isto é, que dizem o que realmente acontece, não devem ser confundidas com as leis humanas, que são prescritivas, isto é, dizem o que deve (ou não deve) ser feito."

Antonio Cícero, aqui.

16.6.2009

Troll

Troll kalla mik tungl sjötrungnis, auðsug jötuns, élsólar böl, vilsinn völu, vörð náfjarðar, hvélsvelg himins – hvat’s troll nema þat? They call me Troll; Gnawer of the Moon, Giant of the Gale-blasts, Curse of the rain-hall, Companion of the Sibyl, Nightroaming hag, Swallower of the loaf of heaven. What is a Troll but that?

Eles me chamam Troll; mastigador da Lua, gigante dos tufões, maldição do salão da chuva, companheiro da Sibila, bruxa do gemido noturno, engolidor do pão celeste. O que mais pode ser um Troll?

15.6.2009

Linguagem

Categorias: Estudos

Mais árduo, e por isso mesmo mais apaixonante, foi o trabalho da tradução dos textos religiosos. De maneira nenhuma por causa do uso constante que as Belas Palavras fazem da metáfora: basta saber que, quando o texto fala do "esqueleto da bruma", ele nomeia o cachimbo de barro onde os sábios fumam seu tabaco; que a "flor do arco" designa a flecha; que o nascimento de uma criança se diz "uma palavra se provê de um assento"; o embaraço do tradutor provém mais da dificuldade de dominar o espírito que corre secretamente sob a tranquilidade da palavra, de captar a embriaguez deste espírito que marca com seu selo todo discurso enigmático.

CLASTRES, Pierre. Na introdução de: A Fala Sagrada. Mitos e cantos sagrados dos índios guarani. SP: Papirus, 1990. Pp. 17.

2.6.2009

Fala bonita

Fala do tio Teo acerca do paraíso
(vertida em poema por seu sobrinho-neto
)

E se o paraíso existe?
Eu te pergunto: e se lá é mesmo um lugar?
E se, como um rio, for só se abandonar
e depois de despencar das serras,
de enlamear as planícies,
de lamber os seixos,
chegar no mar, no paraíso, naturalmente, inevitavelmente?

 

 

18.5.2009

Adentrismo de Arte

Categorias: Estudos, Adentrismo

Bastian: Quando você fez esses desenhos, você pensou que estava fazendo algo que pudesse ser chamado de arte? Ou você acreditava que estava fazendo uma coisa que era, de alguma forma, mais como uma pesquisa?

Beuys: Sim, você poderia considerar assim, mas eu nunca perdi de vista o conceito de arte. Eu queria chegar à arte. Nós ainda não tínhamos chegado na arte. Do mesmo modo como os seres humanos ainda não existem, ainda têm que evoluir, a arte tem que evoluir, porque não existe ainda.Aquelas frágeis tentativas que Hegel descreve, incluindo Michelangelo e Rafael, nós as transcenderemos um dia. Claro que o que quero dizer com isso é algo muito maior do que o que temos agora. A arte ainda terá que ser criada, até o presente momento é baseada em princípios burgueses e existe isolada num canto, particularmente nos tempos recentes, que nos mostraram na realidade o quanto a arte é impotente. Enquanto durar o efeito desse tipo de arte, eu diria que Hegel está absolutamente certo. E é exatamente por isso que eu não sou um artista…

Bastian: … e seus desenhos não são arte…

Beuys: Certo, e é por isso que eu posso faezr alguma coisa pela arte, enquanto alguém que é um artista não pode contribuir em nada para a arte. Meu trabalho não tem nada a ver com arte pela simples razão de que arte é muito importante pra mim.

Retirado de:

SE NADA NÃO DISSER ALGUMA COISA, EU NÃO DESENHO. Uma conversa entre Joseph Beuys, Heiner Bastian, Jeannot Simmen - Dusseldorf, 8 de agosto de 1979.

6.5.2009

Linguagem alquímica

Categorias: Estudos, Adentrismo

A origem dos clássicos alquimistas vem do adepto Wei Po-yang da Dinastia Han Tardia (23 – 220 d. C.). Depois Wei atingiu o Tao, ele teve pena dos estudantes de seu tempo por estarem confundidos por atalhos e falsos ensinamentos, ignorantes do grande Tao dos sábios, a maioria gastando toda a vida, envelhecendo sem realização. Finalmente ele compôs o [tratado filosófico-alquímico] Tripla Unidade, seguindo o Tao do I ching, para com isso elucidar a origem da essência e da vida, a realidade e falsidade do yin e do yang, as leis do cultivo e da prática, a ordem do trabalho.

Usando coisas como símbolos, sua linguagem metafórica é multifacetada. Essência e vida, yin e yang, firmeza e flexibilidade – estes são chamados os ingredientes. Cultivo e prática, a ordem do trabalho – estes são chamados o processo de cosimento. A intervenção vigorosa ele chamou de fogo marcial; a penetração tranquila e gradual ele chamou de fogo cultural. O correto equilíbrio de firmeza e flexibilidade, do yin e do yang, ele chamou de cristalização do elixir; a mistura de yin e yang, com total sublimação de firmeza e flexibilidade, ele chamou de maturação do elixir. Imperceptível, inconcebível transformação espiritual ele chamou de liberando o elixir.

Os sentidos contidos aí são como o I ching, simbolizando coisas por comparações descritivas; assim nasceu o termo “elixir áureo”, o ensino da “alquimia”, e o princípio do cultivo e da manutenção da essência e da vida.

Liu I-ming, na introdução de seu comentário ao I Ching.

5.5.2009

RATIO (Diálogo)

Categorias: Estudos, Crônicas

Sempre me pareceu sem sentido o dizer que os animais são irracionais. Minha amiga a gata Sibila sem dúvida é um animal racional. Ela pode ser burra. Eu a julgo burra, em comparação a mim. Por exemplo, quando ela caga no cimento, e fica tentando cavar o nada para enterrar o cocô. Você, observando, diz, que burro, não consegue perceber que o cimento não é terra, não vai cobrir seu cocô. Ela não pensa, diz o senso comum. O gato faz aquilo por instinto. É bizarro o espetáculo de, levado por essas idéias, enxergar um robô estúpido onde está Sibila.

Afinal o que entendemos por razão? Quem classifica o animal (ou o vegetal ou o universo) como sendo irracional entende por razão algo como uma intenção, um julgamento. O homem tem razão porque tem consciência, intenção.

E porque soma dois mais dois.

Razão é medida, proporção. Razão é relação de forças, equilíbrio. Ratio. Se razão é uma beleza, quer dizer, razão é uma harmonia.

Então, dizer que o gato é irracional?

Não é.

Não é! Seus contornos, seus instintos, o uso que ele faz dos sentidos, das formas e potencialidades que ele tem, e como ele se relaciona com seu entorno, isso tudo tem intenção, isso tudo tem muita razão. Existe razão pra tudo ser assim como é.

Por irracional entendemos tudo aquilo que é incapaz de comunicar sua racionalidade para nós.

(risos)

Dado que tudo, olhando-se pelo olhar abrangente do filósofo, é racional, uma vez que em cada partícula e em cada vida e planeta se manifesta a mesma lei das harmonias, das proporções, os jogos de luz e sombra, os choques, os amores…  que belos!

Enfim, dado isto que você falou, a visão dos homens de que existe um irracional não passa de uma disfarce para sua ignorância.

Olha, vocês conversam aí. Eu pensei em Sibila como robô, pensei que a diferença é que um robô a gente monta e desmonta, liga e desliga. Ali na Tibilita vai uma vida, e por mais que seu corpo possa parecer com uma máquina, é uma máquina que tem algo que ainda nos escapa, que é a vida.

Há pessoas que não acreditam nisso…

Hum. Sempre me vem à mente o mestre Zênon. A mania dos homens de querer criar novas formas de vida e sua inquietação gera tanto os bens da medicina e das artes quanto as perseguições e as guerras.

Bom de você é que nunca nos deixa chegar a conclusões…

Justamente. Assim o jogo não termina.

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Conta o Véi Chinês, que tava numa feira de informática. Chegou junto de um rapaz que jogava um desses jogos de luta do bem contra o mal. O rapaz de repente vira-se para o monge e diz: “Eu não entendo. Eu sou o bem e ele o mal. Ele é feio e gosmento, eu loiro e transado. No entanto, eu mato ele, ou ele me mata. Os objetivos do bem e do mal são os mesmos: Vencer. Bem, no final, é aquele que vence. Eu só sei matar, matar, dominar. O que eu faço, ó sábio chinês?” “Passa aqui o controle, eu seguro o bem e o mal pra você um pouco enquanto você toma um chá e descansa, tá bem?”

19.12.2008

Log na rede

Categorias: Estudos, Crônicas

Log é diário de bordo: você ir anotando os passos da sua pesquisa. Ser humano, um ser em pesquisa, em busca - e que vai anotando.

Meu diário caiu na rede: é peixe. Peixes na rede: cores e fomes.

Peixe, cada um é de um jeito: mil estratégias de ser, que resultam em cores, ondas: tudo para os sentidos. O mar é sem limites.

Mas, na rede, nos unimos: colegas de martírio, colegas de sobrevivência, com suas camuflagens, seus mimetismos, seus habitats singulares, órgãos que emitem luz, que soltam tinta, que provocam sons. Parece que são sós, que cada peixe está encerrado em si, que não se comunicam.

Mas partilham este comum destino de rede, e sabem disso, e mesmo quando se batem e comem ou se fecham firmemente em seus casulos, também se amam, aprendem uns com os outros, e chamam uns aos outros, secretamente, irmãos.

 

Hehe, fiquei em transe e escrevi isso aí agora, por causa do convite do Rafael Coelho para que eu respondesse umas perguntas para os que amam pateticamente os livros (poepateticos, no bom sentido!). Ele mandou para outros blogs e fêz-se uma rede. Pescou altos peixe jóia.

Vai:

1. Livro/Autor(a) que marcou sua infância:

J.R.R. Tolkien, o Senhor dos Anéis. Mas em versão oral. Meu pai era fã e me contava as histórias do livro, descrevia as passagens, ele é desenhista e pintor e desenhava e me mostrava gravuras do Frank Frazeta e aquelas coisas. Foi o "livro sagrado" da minha infância. Só fui lê-lo mesmo com quinze ou dezesseis anos! Devo confessar que o Alquimista influenciou muito meus doze anos. (ix)

2. Livro/Autor(a) que marcou sua adolescência:

O cinema foi muito mais importante que a literatura nessa fase. Li e fui fã de Arnaldo Antunes, Douglas Adams (O Mochileiro das Galáxias), e Hermam Hesse, e Milan Kundera, nos quais era aplicado pela minha querida e esclarecida vó Hebe. Tudo ia bem até o Carlos Castanheda.

3. Autor(a) que mais admira:

Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Carlos Drummond de Andrade… a briga é por aí. Se for olhar na minha estante como está hoje, predomina o Borges, é o escritor que eu mais compro e coleciono. Colecionei o Italo Calvino também. Aqui também aparecem muito os filósofos taoístas, só que ler filósofo chinês é foda, né? Eu ainda não sei chinês, mas amo Chuang Tzu, já li umas oito traduções, em três línguas. Ainda entendo pouco. Espinosa. E a Grécia Antiga. É esses trem que eu gosto hoje!

Eu colaria um adesivo no meu carro dizendo "eu leio Cecília Meireles". Ela é tipo uma maga, pra mim.

4. Autor(a) contemporâneo: Eduardo Galeano. Neil Gaiman.

5. Leu e não gostou: Eu adoro responder essa pergunta quando é "ouviu e não gostou" pra eu dizer: Rolling Stones! É difícil lembrar o que eu não gosto, eu esqueço. Andei tentando gostar de Murilo Mendes e não consegui. Mas pode ser a hora…

Lembrei de um: Oswald de Andrade. Aliás o modernismo paulista e o concretismo são mais ou menos, pra mim, não fala muito. Quer dizer,  Antropofagia é legal! Gosto assim de algumas idéias e posturas e ações, mas da literatura mesmo deles, médio. Macunaíma é legal! Mas eu daria umas melhoradas…

6. Lê e relê: Filosofia.

7. Manias: Nunca estar satisfeito, sempre querer alguma coisa, sempre num tormento d’alma, sempre buscando um tesouro qualquer. Me misturar a felino.

Eu gosto dos livros mas tenho uma relação estranha com eles. Eu não tenho muito jeito, eu levo eles pra cama, eu estrago eles. Mas eu os amo muito. Acho graça quando as pessoas me acham culto e bacana lendo. Pra mim estou fazendo a coisa mais transgressora, imoral e alucinógena que se poderia fazer. Tem outro jeito de ler, eu sei, mas não me interressa.

Do Livro mais antigo do mundo

"Começando então a composição deste livro dos bons dizeres, ditos pelo nobre lorde, pai divino, amado de deus, filho do rei, primogênito de sua raça, o prefeito e chefe senhor Ptah-hotep, para instruir os ignorantes no conhecimento dos argumentos dos bons dizeres. É vantajosa a sorte para aqueles que os escutam, e grande perda sofre quem os transgride.

Ele diz a seu filho: Não sejas arrogante por conta do conhecimento que possuis; trata o ignorante assim como tratas o douto; pois as portas da arte não estão fechadas, e nenhum artista possuiu a perfeição a que deve aspirar. Mas boas palavras são mais difíceis de encontrar que esmeraldas, e é por escravos que estas são encontradas, no meio das pedras de pegmatita".

Os Preceitos de Ptah-Hotep, traduzido (para o inglês) por Philippe Virey, é um tratado egípcio contido no Papyrus Prisse, o mais antigo livro do mundo. Está publicado no livro Records of the Past, coletânea de textos do Antigo Oriente, editado por  A. H. Sayce. Li aqui no sacred-texts.

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