24.11.2009

Sítio do Pica pau Multicolorido

Andreia caminha no pátio do hospício. Ai ai, eu estou ficando velha. Quero ser como na novela, um ser humano postiço. O tal artifício, um apego louco pela casca, a máscara, a maquiagem. De repente Andreia sente ódio, quer agredir tudo isso com um soco gigante, e esse corpo, queria que ele caísse, queria que ele saísse como uma casca e ela ressurgisse um et de luz borboleta.

Por outro lado, ela fechava os olhos e dizia para si: sou cega. E de olhos fechados por muito tempo ela começava a enxergar muito mais, e abrindo os olhos a visão parecia escura. E ela dizia: sou paraplégica. E, sentada, imóvel, se abandonava, e logo estava indo tão longe.

E ao seu lado sentava-se sorridente o chinês careca, com um bigode fino e os lóbulos da orelha enormes. E ele dizia:

O Fênix, O Fênix, como a virtude anda degenerada. Andam ansiosos pelo futuro, andam saudosos do passado! Quando a boa ordem opera no mundo, o sábio tenta cumprir todas as suas tarefas; quando a desordem opera, ele ainda pode salvar sua vida; em tempos como os de hoje, já é muito ele conseguir não ser punido. A felicidade é leve como uma pluma mas ninguém sabe como segurá-la. A calamidade é pesada como a terra e ninguém sabe como evitá-la. Abra mão! Desista de se aproximar dos outros querendo ensinar-lhes a virtude. Você está em perigo! Você corre perigo querendo ultrapassar seu próprio limite. Eu evito a fama, evito a publicidade, para que meu caminho não se machuque. Eu sigo meu caminho, ora dando passos para trás, ora pisando bem devagar e inseguro, para que meu pé não se machuque. As árvores da montanha enfraquecem a montanha. A gordura que alimenta o fogo se frita. A caneleira cheira bem e serve para comer, assim é cortada. A seringueira é muito útil, e por isso são feitos cortes nela. Todo mundo conhece a utilidade do útil, mas ninguém conhece a utilidade do inútil.

Disse Chuang Tzu.

Brasidelía

Pedro de Rates Hennequim nascera em 1680, do outro lado do Atlântico, em Lisboa, filho de pai holandês e mãe portuguesa. Não adotara o protestantismo paterno: criara-se na casa d eum padre católico, frequentara o clégio jesuítico de Santo Antão, mas se deixara influenciar pela cultura judaica, tornando-se com o tempo um fervoroso admirador da cabala. Entre o final do século XVII e o início do XVIII, embarcara rumo ao Brasil e fora parar nas Minas, entrando, ao que tudo indica, pelo caminho do São Francisco. Envolveu-se em atividades de mineração, ganhou dinheiro, empenhou-se, com base nas Escrituras, em convencer os "hereges" que moravam por lá - segundo relatou anos depois aos inquisidores - e voltou ao reino no ano de 1722. Nunca mais, contudo, seria o mesmo: o que viu o mudou para sempre e teve papel fundamental nas ideias que passou a defender. Achava que o Paraíso Terrestre estava no Brasil central que a fruta proibida era a banana e não a maçã da Bíblia. Berço do gênero humano, seria ali que Deus colocaria o Quinto Império, onde todos seriam judeus. (1)

Manuel Lopes de Carvalho nascera na Bahia e estudara no colégio jesuítico de Salvador na virada do século, quando ainda era muito viva a influência do padre Vieira, falecido em 1697. Havia então por lá outros jesuítas afeitos ao profetismo e às ideias messiânicas, como Valentim Estancel e Mateus Faletti. Tudo isso deve ter impressionado Lopes de Carvalho, que deixou a Bahia e se fixou na freguesia de Santo Antônio das Minas de Ouro Branco entre 1715 e 1719 - época conturbada, quando a ameaça de revolta escrava parecia iminente, e os colonos protestavam sem cessar ante os projetos de alteração da tributação do ouro, deixando sem sono o governador d. Pedro Miguel de Almeida, conde de Assumar.

No palácio do conde viviam dois outros jesuítas, josé Mascarenhas e Antônio Correa. Este último, sabe-se lá como, tinha em seu poder um manuscrito da Clavis prophetarum, que, conforme se viu, Vieira morrera sem terminar, deixando contudo que os fragmentos inacabados circulassem e fossem lidos. Lopes de Carvalho foi um desses leitores.

Indo ter a Portugal, o padre passou a defender várias proposições heréticas. Dizia que Deus o escolhera para comunicar a d. João V os erros da Igreja católica, cabendo ao monarca atalhá-los e assim possibilitar a consumação das profecias do padre Vieira sobre o Quinto Império de Cristo. Este teria início com a destruição de Roma, judaísmo e cristianismo passando, então, a constituir uma só fé.

Lopes de Carvalho e Hennequim se defenderam como leões, mas não conseguiram escapar do Santo Ofício com vida. Em 1726 queimaram o padre, que antes de perecer blasfemou diante da assistência. Em 1744 foi a vez de Hennequim, que, antes de ir para a fogueira, perdeu a vida no garrote (2).

In: Virando Séculos: 1680-1720: o império deste mundo. Laura de Mello e Souza, Maria Fernanda Batista Bicalho. Coordenação da série: Laura de Mello e Souza, Lilia Moritz Schwarcz.

(1) Plinio Freire Gomes, Um herege vai ao paraíso - cosmologia de um ex-colono condenado pela Inquisição (1680-1744).

(2) Adriana Romeiro, Um visionário na corte de D. João V - revolta e milenarismo em Minas Gerais.

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Jabuti, saí para descobrir o Brasil, nas ruas, nos livros – uma nova ordem se instaurou, e uma nova, e uma nova, e somos camadas superpostas de escombros de ideais, de utopias. Nossa literatura é toda a invensão de uma pátria delirante, de índios nus impenetráveis, de nobres e pobres brancos confundidos num baile de máscaras, de náufragos e piratas, de uma visão do paraíso, de uma casa grande e senzala, de um sítio do pica-pau amarelo, de um sertão, de um macunaima.

Onça, sozinho entre livros busco a pátria, uma terra de cantos de sabiá, de uma mãe gentil.

Veado no refúgio encantado nas águas de Bonito, que fala a língua linda da terra dos antepassados, tudo está deixando de ser, passando a estar só nos livros, e eu sou um tonto bibliotecário ajoelhando de tanto peso de lembrar confusamente de uns cânticos e de uns mundos e de ter um apego um amor uma conexão estranha com os sacis os piratas as açucenas os tesouros enterrados. Um ser numa torre de pedra vendo um livro com imagens coloridas de pássaros, que acompanha um CD com os cantos, gravado há séculos atrás.

Tomé, o degredado, que mais tarde tombou lutando ao lado dos tapuias, defendendo a nudez com dentes e unhas.

Veja a enorme república, cheia de mata e água e fauna e flora dentro, e um povo, unido por um idioma, um povo que gera com trabalho e trabalho uma riqueza que vai toda para uma ilha chamada Brasília onde uma organização criminosa de mafiosos e piratas a espera para administrá-la como melhor convém à nova forma da Companhia das Índias.

Era uma vez um jabuti que enganou uma onça que passou a perna num caititu.

 

 

23.11.2009

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Jurema, Jandira, Jussara, essas meninas são meu tesouro. Tanta pele, seio, sorriso, tanto cabelo negro, tanto hálito de mulher. Jandira, Jussara, Jurema, sobem na árvore para buscar o fruto, mergulham no rio. Jussara foi dançar nos Estados Unidos, Jurema prenha de um inimigo, Jandira, fica comigo!

O degredado Tomé que primeiro chorou como criança na praia pela falta que ia sentir do reino português e com pouco não lhe sobrava tempo para falta com Jurema na mata e Brasil dos frutos e secretas gemas encantadas. Encantou uma pedra em alguma chapada e foi para a realidade paralela. A ciência da Jurema permanece fechada, esperando sempre que a gente chegue até ela.

O que Jussara deu? O mameluco que matou o pai. Mãe índia da fonte alucinógena, tecelã deste enredo necessário e desagradável, de arma, de ferramenta, de cerca de arame farpado. Eu digo ao vilão barbado: sim, nós fazemos guerra, andamos nus, comemos uns aos outros, mas os animais: os animais são inocentes! Nem eles vós poupais, eles que suplicam com olhos lacrimosos? Jussara deu de condenar os humanos.

O fim é a ira. Da biblioteca, este labirinto, relembro Jurema, Jandira, Jussara. Tentando os passos, relembrar os passos da dança que te ornava de estrelas. Meu rosto é uma máscara cansada, é falsa, é humana. Devolve minha cara de touro, de tigre. Jandira, só você com seu poder, lábios que chegam perto da ponta do meu nariz, e um sopro quase imperceptível, e o remédio é seu hálito. Qualquer humano sujo que sabe o que é o certo e o que é o errado merece ainda assim um beijo de carinho de Jandira a brilhante, doce ser. Qualquer merdinha, qualquer filho da lama deve merecer suas palavras de carinho e confiança e seu colo e seio.

Nos confins das matas, ainda vivem as minhas trigêmeas. Eu caminho entre as estantes. Estudo, catando o caco da sabedoria delas, escondido e perdido por trás da alma humana, escondida e perdida entre as palavras.

O complexo problema da memória, a escolha entre caminhar entre os vivos, agora, deixado para nossa mãe a memória, ou mirar no poço do futuro e do passado, deter-se no compreender esses códigos, esses desenhos esquisitos, que podem nos dar muitos tesouros mas podem nos roubar a vida.

Semiadormecido, deixo a casa do sítio e na encruza chacrinha sopra a buzina: eu sou o mensageiro, vim aqui para confundir, assim começa tua saga, numa vaga encruzilhada, sem saber para onde ir.

Brasil!

17.11.2009

Reinações de narizinho

 

Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na grama com a boneca no braço e ficou seguindo as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora camelos. E já ia dormindo, embalada pelo mexerico das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.

 

Monteiro Lobato, Reinações de Narizinho.

5.11.2009

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Minha Mãe, Rosa, Barbacena

“(…) o mistério cósmico, essa coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose da inevitável verdade. Precisamos também do obscuro”. João Guimarães Rosa.

"Ele era um grande observador. Viveu a infância meio retirado. Eram oito irmãos, mas ele ficava mais num canto sozinho, lendo, apreciando a natureza, vendo os passarinhos. (…) Papai gostava muito de ler, ele lia com vela. (…) De noite tiravam a vela dele: apagar a luz naquela época significava tirar a vela. Ele então lia à luz da lua. Quando tinha aquela lua cheia e vinha aquela luz forte, ele lia. Eu acho que ele não era apenas gênio. Tinha vários gênios dentro dele.” Agnes Guimarães Rosa.

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Em Belo Horizonte, na rua Caldeira Brant, morava o dr. Joaquim Lôbo, bacharel em direito e escritor de crônicas e romances. Em 1964, dr. Joaquim conheceu, em Barbacena, o Guimarães Rosa, com quem trocou alguns sinais maçônicos.

Barbacena do rio das mortes, mortes de tupis principalmente, mortos pelos viscondes e pelos devotos da piedade, cidade de luzes e climas, boa para pêssegos e manicômios.

Dr. Joaquim, nervos esgarçados entre a normalidade penal e cívica e a loucura primal que trazia no sangue da família, estava em Barbacena para internar sua filha Andresa. Andresa quer dizer: a audaz. Andresa, a que ousa.

Andresa era então uma jovem magra, em novembro completando quinze anos de vida, cabelos lisos e longos, usava óculos. Desde nascida amava livros e amava música. Adolescente, estudava inglês, escutava rock, andava com uma biografia de Emily Dickinson debaixo do braço, beijava outras meninas na boca, bebia cachaça, fumava maconha.

E sentia o invisível e a textura densa do silêncio bíblico da hipocrisia evangélica de sua mãe Rute. E os cheiros e fluídos das amantes do pai, dr. Joaquim e sua fixação em putas, em pobres mulatas, autoritário, neurótico, intenso pai, que Andresa amava e queria para si e odiava e queria que morresse de uma vez.

Onde andava a bondade e a compreensão entre a burguesia brasileira, em 1964? Ah!, a autoridade positiva, a ordem, o progresso, a moral e os bons costumes…

Cansado dos intensos embates, dr. Joaquim crê não ter outra solução para Andresa que não o sanatório em Barbacena.

Dr. Joaquim conhece Guimarães Rosa num encontro na Academia de Letras de Barbacena. O Rosa discursa sob o brasão da cidade, que é o braço decepado do Tiradentes dentro do esotérico triângulo, e chama Barbacena “nosso lugar geométrico”. Dr. Joaquim admira aquele homem robusto e inteligente.

Dr. Joaquim não sabe que Andresa também conhecerá o Rosa.

Rosa está no pátio do hospício, a meditar. Gostava de observar as flores e os loucos, e vê Andresa, loucaflor, e Andresa o vê. Aproximam-se.

“Tens um gato sempre contigo”, Andresa lhe diz.

“Eu sei”, responde o Rosa, “e tu tens um lobo".

Uma pausa. Diz o escritor: "Rogarei para que te cures”.

“Sou apenas um sintoma”, diz a menina.

“Isto é, eu bem sei”.

“O que sou, é fenômeno da natureza, ou é de outro mundo?”

Sentaram-se, e olham as plantas, o sol, os ares.

Andresa: “Sonho com mansões, tão lindas. Caminho pelas ruas e olho as casas, atenta aos detalhes, tantos… tudo é nobre e rico, jardins com muitas árvores, belos cães, janelas, madeira e pedra, telhados em lindos formatos. Essa paisagem me dói muito por dentro, é muito forte. São como as fontes de cristal que sonhei bem pequena, e cuja lembrança me delira. Que mundo é esse que me invade por dentro, de bem dentro?”

Rosa não sabe, mas sabe.

Recita:

No jardim das Hespérides, sem flores
na discrição dos tufos de folhagem,
passeiam passos lentos
homens de túnica longa,
como os magos da Rosa-Cruz
…………………………………………………….

Os anciões perpassam
intérminos terraços,
com olhos tranquilos, olhos gelados,
de tanto olharem o sol.
E as mãos tateiam calmas,
como se os dedos mergulhassem
a translucidez de uma água,
esculpindo
invisíveis e impossíveis formas novas.

e os dois sorriem um pouco.

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“A loucura comunal deixa de ser loucura e torna-se mágica. Loucura governada por leis e em plena consciência. Todas as artes e ciências repousam em harmonias parciais. Poetas, loucos, santos, profetas”. Novalis.

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Parte de tudo neste conto é verdade. A primeira inspiração é um artigo de jornal (não tenho à mão agora, vou ver se acho lá em casa) sobre o esoterismo na obra do Rosa em que meu avô, Manoel Lobato, quando perguntado se Rosa era maçom, diz que "trocou sinais maçônicos" com ele (embora não existam, que eu saiba, registros oficiais da iniciação de Rosa em lugar nenhum).

Meu avô, que é escritor, escreve muito (e bem) sobre a loucura, tema de muitos diálogos nossos.

A primeira citação, do Rosa, e a última, de Novalis, eu tirei do artigo "Guimarães Rosa e a imagem poética", de Carlos Willer, publicado na revista Poesia Sempre, n° 28, ano 15, 2008.

A fala de Agnes Guimarães Rosa, filha do escritor, tirei de uma entrevista sua para a Revista do Livro, n° 45, ano 14, out. 2002.

O poema que Rosa recita é um trecho de Paraíso Filosófico, do livro Magma, e eu tirei daqui.

Indico também o discurso de posse do Rosa na ABL, onde ele diz que Barbacena é "nosso local geométrico". Aqui.

 

12.10.2009

Sítio do Pica-pau multicolorido

Por volta de mil duzentos e pouco depois de cristo, o Vento Norte passando por Portugal emprenhou doze éguas lindas. Onze tiveram potros que viriam a ser heróis da raça. Uma apenas deu ao invés de um equino, um menino, um menino com um pênis enorme. Desde pequeno era amado pelas amas, pelas primas, pelas tias, e pelos tios. Vivia entre tanta comoção que morreu de fraqueza ao completar dezoito anos. Fora morrer numa gruta, e ali magos escultores moldaram um falo à sua imagem e semelhança e fundaram mistérios em seu nome.

Uma mulher muito especial teve gêmeos desse filho da égua. Certo dia os gêmeos, um casal, idênticos, sendo um macho e uma fêmea, perderam-se na floresta, quando ainda doces crianças, num dia de almas e foram salvos de beber no rio do sono por Tom Bombadil, poeta, homem do mato, filho da Rainha dos Elfos. Os gêmeos tornaram-se poetas bebendo mel e orvalho do velho Tom com sua cítara e sua esposa Fruta-D’Ouro Naturaleza.

Quando os garotos deixaram a floresta encantada para enfrentar o mundo real, a menina foi capturada e acidentalmente morta por piratas. O garoto enlouqueceu e depois de mendicâncias e peripécias atacou um grupo de vikings que o acolheu (depois de derrubá-lo deixando-o inconsciente por dois dias inteiros) e o alimentou e o levou, empregado num navio, à América.

Pelo caminho (o bravio mar, a groenlândia, o gelo, o mar) um certo oficial viking quis abusar do rapaz "filho de gente nobre", mas então formou-se uma tempestade e um bando de tubarões cercou o navio e um golfinho armado de escudo e lança de ouro foi visto pelos piratas assustados e uma voz cantou que era um deus (um theos, um axé, uma força) que guardava o garoto e que viajava com ele para conquistar a América, e era ele quem cantava ali, pela voz do garoto, o garoto que possuído cantava, acompanhando-se de um bandolin velho, que soava como a música do mar e do vento e de uma saudade de mãe, que deixava até os peixes com os olhos rasos d’água.

Era São Tomé que vinha ao Brasil, não sei se antes ou depois de ele ir para a Índia. São Tomé o Cínico, pai de Cobra Honorato, avô de Pedro Malazartes.

Ele trazia alguns livros na bagagem. Entre eles, obras de Luciano de Samósata, Diógenes Laertius e o recém editado Casos risíveis de Bar-Hebraeus, onde leu:

O cão caçador perseguia a gazela, quando esta lhe disse: jamais me apanharás.

E o cão: Porque não?

Porque tu corres para teu dono, eu corro por minha vida.

Todos riram, às lágrimas. Eu não entendi a graça.

Um malandro pode dar-se bem no solo americano. Mas o garoto, o filho gêmio agora solo, condoído, saudoso, tem alma de orfeu, comunga do pão e vinho do cristo senhor dos pobres, prega o amor, bondade, paciência, desapego, tesouros do além, e canta e chora e delira num mundo de fantasmagóricas mulheres, de amantes desencarnadas…

É o vento. Nasceu no vento dos tolos, o vento parado dos poetas.

 

Baseado no conto da Deusa Branca, do Robert Graves, um livro cheio de mentiras e muito interessante.

5.10.2009

Estudos, Mistérios

Nenhuma religião, mas somente mistérios.

No meu romance que eu não vou escrever, ou estou sempre escrevendo, Dioniso nasce no Brasil (na Amazônia na verdade, ainda não havia Brasil nesse tempo), institui os mistérios por aqui, morre em Machu Pichu, vira várias plantas, depois monta numa onça e depois num golfinho e viaja pra índia, aparece lá como Shiva, fuma maconha (charas) no Himaláia e depois vai pra Grécia ensinar o povo a tomar vinho e dançar e curar e ser feliz. Mas é profundamente mal entendido. Termina no Brasil contemporâneo, passa pelo Rio no carnaval, faz uma reflexão sobre a decadência de tudo e ruma à Amazônia para voltar às raízes.

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Fiz uma pesquisa, mais ou menos exaustiva, dos mistérios greco-romanos, especialmente Elêusis e Baco. Me interessa o assunto como tal dentro do esforço meu de compreender a Grécia antiga, paixão lugar-comum entre nós. Falando em lugar-comum, me dava preguiça o tanto de lugares comuns que são repetidos sobre a Grécia, os deuses gregos, os filósofos. Então, adentrei-me. Fiz um semestre de grego antigo na Letras (UFMG), suficiente pra ler um pouco do grego. Além do João (em arche era o logos e o logos estava pros ton teon e tal), ficou marcado um texto fictício em que Homero se apresentava como curador, profeta, cantor, professor (não estou com o texto agora, minhas apostilas de grego estão em casa e eu não, depois adentro o texto aqui no blog), enfim, um verdadeiro griot, um mestre, no estilo xamã. Foi nascendo aí meu interesse pelo passado mágico da poesia, pela relação entre poesia, música, dança e estados alterados de consciência, que é uma das minhas pesquisas hoje. Depois fui ler Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, livro I, que a Martins Fontes publicou bilíngue grego-português. Só depois de um tempo de familiaridade, depois de Junito de Souza Brandão e muitos outros, é que comecei a entrar nas peças trágicas e nos diálogos platônicos. Está na minha agenda ler o Euripides and His Age do Gilbert Murray. Tô acabando uma segunda lida no controverso Julgamento de Sócrates do I. F. Stone, um bom livro mas que devia chamar "O Julgamento de Platão". Acho que o Stone foi meio como o Platão, criou um Sócrates que mais coubesse para expressar seus próprios pensamentos. Mas é um grande livro de um grande cara!

Voltando aos mistérios, meu interesse ali estava em alguns pontos, sendo o primeiro as origens da poesia e do drama. Outro, a questão dos estados alterados de consciência e seu lugar na cultura antiga. Ponto cheio de polêmicas. Sou dos que acreditam que se usava drogas em Elêusis. Walter Burkert, que é um dos mais confiáveis estudiosos porque se atém às fontes e não especula demais, em seu Antigos Cultos de Mistério pondera que acha improvável o uso de drogas em Elêusis porque considera que a embriagues alucinógena ou que nome se dê é muito individual e não consegue imaginar como seria isso numa cerimônia em que podiam estar presentes centenas de iniciados. Mesmo assim, ele se pergunta como por quase dois mil anos pessoas foram iniciadas em Elêusis e tiveram visões e êxtases, que mistério é esse afinal?

Eu julgo que faltou a Burkert  assistir a uma cerimônia do Santo Daime ou da barquinha, ou da igreja do Peiote, pra ver como pode uma cerimônia com centenas de pessoas envolver alucinógenos e ainda assim manter-se coerente, e que, no caso de certas substâncias, e em certos rituais, a experiência pode ser coletiva, sim. Os preconceitos dos estudiosos são grandes em relação a esse complexo drogas-religião, vide Carl Kerenyi no seu ótimo Dioniso, onde ele expressa em algum lugar (estou sem o livro aqui agora) que quando entram as "drogas pesadas" na religião é um estado posterior de decandência. Não é o que os estudos etnológicos, antropológicos e místicos indicam, o Soma que o diga. Mas eu tenho também minhas ideias e advogo a teoria (que estou pesquisando) de que a origem de toda essa história de Deus está no contato do homem com estas substâncias alteradoras do estado de consciência. Mas para esta teoria tenho que apresentar os argumentos e aqui agora não cabe.

Toquei aí nisso: as semelhanças entre os antigos cultos de mistério (tanto greco-romanos como egípcios ou orientais) e as religiões ayahuasqueiras de hoje, e a prática religiosa dos índios. Frequentava um terreiro de candomblé a uns anos atrás e o pai de santo queria fazer um estudo sobre as semelhanças entre o paganismo greco-romano e o candomblé. Mas ele desistiu, porque era difícil. Eu fiquei com isso na cabeça, e quanto mais conhecia o candomblé e a Grécia antiga, mais via que as semelhanças muitas. O candomblé é um culto de mistério, e fornece muito para quem quer tentar "visualizar" como seriam os ritos báquicos e eleusinos.

Bibliografia legal aqui.

Se um dia a preguiça deixar, vou escrever mais sobre isto. Eu prefiro escrever poesia, e deixar estes estudos e debates para a oralidade.

Outro ponto: a relação entre os mistérios e o cristianismo. Bibliografia não falta, no sacred-texts temos vários bons livros. Este assunto foi recentemente abordado (com excesso de simplismo) no filme Zeitgeist. Simplificações à parte, pra mim o parentesco dioniso/orfeu/osíris/cristo é claro e patente.

As peças da era medieval chamadas de mystery plays podem trazer algo dos mistérios antigos, assim como as passagens do mito cristão, especialmente a paixão, têm muito do sabor dos mistérios (e são chamados de mistérios no rosário, como a eucaristia é um mistério), mas, como é bem dito no artigo da wikipedia (em inglês) sobre os mistérios, o cristianismo não é uma religião de mistério porque seus rituais e fórmulas não são secretos. Neste sentido, o daime também não é. Mas permanece o termo mistério que indica não um segredo ritual mas a própria impossibilidade de se descrever objetivamente o que acontece. Neste sentido, a miração do daime é mistério, não porque eu esteja formalmente proibido de contá-la, mas porque ela é em si de natureza incontável, e quando se conta, se perde. As palavras não dão conta. Em grego o termo é epoptes, (de epi, sobre ou em torno de, e opt, ver), "ver", palavra que fala tanto da visão que é alcançada após o período de iniciação quanto da pessoa que alcançou este alto grau, que vê, o clarividente.

Epoptes (Greek) (from epi at, upon + opt to see)

Sometimes epopt. In the Eleusinian Mysteries, seer, overseer, master mason, one who has the vision sublime; an initiate into the highest degree of the Mysteries (epopteia) who had attained, among other spiritual faculties and powers, that of spiritual clairvoyance.

The state attained, epopteia, was the seventh and highest degree of initiation in the Eleusinian Mysteries, when the inner god shone forth through the human being, so that the candidate was at one with his inner divinity.

Daqui.

Aproveitando a citação do mestre maçon, isso me lembra outro ramo que se abriu nesta pesquisa, meus estudos maçônicos. Meu avô é mestre maçom, meu bisavô que tem o mesmo nome que eu (Pedro Lobato) também, e quando eu ouvi minha vó (presbiteriana ferrenha) contar que em sua viagem à Israel levava uma luva branca para que soubessem que era mulher de maçom, cara, fiquei apaixonado pela coisa. Pela estranha ideia de que pessoas comuns, burgueses, religiosos, pudessem praticar uma coisa tão estranha quanto a maçonaria. Nunca fui iniciado, não tenho bons costumes, não ligo pra dinheiro, não tenho o perfil, e ademais só me interesso pela parte mística. Mas foi fascinante o estudo. Quantos maçons famosos! Já leram o livro sobre Aleijadinho e a maçonaria (Aleijadinho, iconografia maçônica)? E o Álvares de Azevedo, a Maçonaria e a Dança? Pérolas! Pensei em mil romances bacanas mas o Dan Brown já existe.

De tudo o mais interessante foi dar com o Dionisian Artificers, do José Hipolito. É um livro fascinante mesmo que tudo seja uma grande sacação. É uma sacação baseada nos autores antigos, pelo menos. Estou pra terminar uma tradução deste livro. Penso que é um livro importante para os maçons, para a história do Brasil (pela importância do autor) e para quem se interessa pelo estudo da antiguidade. E que eu saiba não existe em português.

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No final da era pré-cristã, Cícero declarou ser sua opinião pessoal que Atenas não deu nada para o mundo mais excelente ou divino que os Mistérios de Elêusis. No começo da era cristã, o estóico Epictetus falou de sua impressão destes mistérios em termos de genuína admiração. Assim, no principio de nossa era, quando o Zeus Olímpico havia perdido sua antiga supremacia e o Apolo Délfico, embora revivendo, estava já reduzido em influência, Demeter de Elêusis ainda desfrutava de alta reputação. A influência de seus mistérios era literalmente mundial durante os antigos tempos imperiais.

Pagan Regeneration, A Study of Mystery Initiations in the Graeco-Roman World, by Harold R. Willoughby.

Quero patrocínio para trabalhar com traduções, traduzir os ótimos Homo Necans e Savage Energies do Walter Burkert (não existem em português que eu saiba). Em breve apresento minha tradução do Dionisian Artificers para servir de port-folio, para julgarem minha capacidade.

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Dioniso, personagem fascinante… as histórias de aceitação e rejeição do dionisismo, relacionadas às relações de classe e raciais entre os gregos, o "dionisismo" sendo um culto bárbaro, "irracional", que apaga as barreiras e funde, e que aproxima a divindade do homem. A história da incorporação dele à Pólis, tal como descrito no ótimo livro Dionisismo, Poder e Sociedade, de Antônio Dabdab Trabulsi. Tudo isso faz paralelos e contrapontos interessantíssimos com o choque cultural índios da américa/europeus, e com a sociedade brasileira e o candomblé, por exemplo. Religião aliena ou liberta? O tempo pode transformar os bárbaros em clássicos? Misticismo é alienante ou é a verdadeira coisa? Daí a frase:

Nenhuma religião, mas somente mistérios.

Remeto a: Sítio do Pica-pau Multicolorido 8.

2.10.2009

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Dr. Monteiro descobriu que no Brasil havia um índio que vomitava gemas. Escravizou-o, e ficou rico. Se eu não fosse tão preguiçoso escrevia um romance sobre isto. O nome do romance: “Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas”.

Sendo as drogas: tabaco, cauim, oaska, jurema, paricá… sem esquecer do pango, inestimável contribuição africana.

As minas: Juçara, Jurema e Jandira, as trigêmeas que eu quero ter. Uma preta, uma índia, uma branca, sorridentes, seminuas, naturais, com enorme coração.

Faria um lamento da nossa falta de orgulho por nós mesmos. Devíamos assumir mais nosso lado macaco, arara, banana, mamão, caju, nudez, sem lei nem rei nem fé, só a feliz embriaguez alucinógena, a opulência do mato, o sol dos trópicos, o mar caymmico, a cadência do samba…

Viajaria à Grécia para decretar Diógenes de Sínope nosso precursor. E Dioniso nosso Deus.

Diógenes, o cara que andava com uma lanterna na mão em plena luz do dia. “Caçando homens virtuosos”.

Diógenes que, como o Chaves, morava num barril, na rua. E ali, de vez em quando, se masturbava. E quando criticado por se masturbar em público, comentava apenas, "ai, quem me dera pudesse matar a fome apenas esfregando o estômago".

Diógenes que pedia esmolas para uma estátua de um herói, e quando o questionavam, dizia, “a estátua é cega, não me vê, assim aprendo a não esperar nada dos outros e a não depender de ninguém”.

Diógenes, que, quando Alexandre, o Grande, impressionado com a sabedoria e o caráter do filósofo-cão, perguntou "o que posso fazer por ti?", respondeu: “Não me tires o que não me podes dar”. Porque Alexandre estava lhe tapando o sol.

Depois, quando os soldados zombaram do filósofo, Alexandre falou: “Disse Sócrates que o homem mais perto de deus em felicidade é o que carece de menos coisas. Aquele que tem um barril por moradia é o mais próximo do senhor do mundo, e, não fora eu Alexandre, queria ser Diógenes”.

Diógenes, que, segundo a wikipedia, escreveu uma Politeia (República) que

ataca numerosos valores do mundo grego, preconizando, entre outros, a antropofagia, a liberdade sexual total, a indiferença à sepultura, a igualdade entre homens e mulheres, a negação do sagrado, a supressão das armas e da moeda e o repúdio à arrecadação em prol da cidade e de suas leis. Por outro lado, Diógenes considerava o amor como sendo absurdo: não se deve apegar-se a outra pessoa. Por muitas destas razões Diógenes de Sínope é considerado um precursor do Anarquismo no período clássico.

 

 

Quero apoio e patrocínio para fundar na amazônia uma Faculdade de Cinismo Florestal.

Doações: Banco do Brasil, agência: 4403-2, conta 5144-6.

26.9.2009

Sítio do Pica-pau multicolorido

Judeu português brasileiro, farmacêutico, minas gerais, 1870, há quanto tempo? nalguma roça profunda, naquele tempo.

De portugal o diploma e o nome: Lobato. Mestre maçom de carteirinha e com canudo de bacharelado, teve farmácia, ia de porta em porta com remédios, partos, despartos, contra amarelões e coceiras.

Diz que se sumia no mato 3 dias, por causa dos passarinhos. Era lobisomem. Lia muito, era muito culto, poetizava, provavelmente usava drogas. Mas que era isso em 1870, em roça profunda, interior de Minas? Todo mundo sabe, só eu sei - era lobisomem. Morreu aos 28 anos, de um sopro no coração. Lidava com substâncias, na prática, ali, e também no latim.
Devia ter prateleiras de vidrinhos, como um alquimista.

Sua esposa assumiu sua farmácia e criou seus cinco filhos. O caçula recebeu aos seis anos a visita de uns homens-ternos, adotando-o, iniciando-o e internando-o no colégio. Como será que vai ser
o filho do lobisomem?

 

Escrever é poder, é por ordem. Meu pai num dia de neve, meu pai um lobo cinzento, visitou minha mãe numa ausência do marido, amou-a, não pouparam unhas e dentes, sangraram-se, minha mãe foi feliz.

O lobo foi-se embora. Não sei as melhores palavras, sinto que descreverei o óbvio, a maldição sobre minha mãe, a fuga, o ódio no olhar do marido, o ódio em todos os olhares da tribo, eu bebendo desse ódio, bebendo leite de ódio de seios banidos.

Eu abandonado, eu crescendo lobisomem, eu matutando a vingança.

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Na leitura de “História do Mundo para Crianças” pode-se encontrar um exemplo desse grande orgulho humano, dessa necessidade de se afirmar como ser superior ao resto da natureza, como obra-prima da criação. Dona Benta descreve os homens da Idade da Pedra: “Eram puros animais selvagens, dos mais ferozes e brutos. Diferença única: andavam sobre dois pés. Fora daí, peludos como os lobos e cruéis como todas as feras. Não dormiam em casas. Quando a noite vinha, o chão lhes servia de cama.” etc.

São os clichês do civilizado que descreve o mundo natural. Dona Benta descreve os homens primitivos como bárbaros selvagens mais para servirem como anti-modelo, como justificativa de todo o projeto que viria depois - a civilização. Eu percorri as ruas de São Paulo, e posso dizer pra você que hoje até uma luta feroz entre leões e hienas pela carne de um cervo degolado me parece calma e harmoniosa, gentil e dotada de uma justiça sublime, em comparação com as ações dos homens civilizados.

20.5.2009

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Escolinha da vida
ABC
Observar
Atender

Escadinha de Jó
Subir
Brigar com Deus
Construir

Escolinha começa no
Jardim
Broto
Besouro
Joaninha
Semente
Sanhaço
Terra

Respeitoso trabalho do
Zelador de
Regador na
Mão

Escola de ver o
Invisível de
Escutar grama de
Apascentar planetas

Birutas se
Agitam ao
Vento

(O ferreiro
Manco e barbudo
Forjou o cata-vento
Para a sua
Namorada o
Vento não lhe pregar mais
Susto)

Vento alimenta a
Chama que
Ferve as ervas no
Caldeirão

Elixir que alimenta o
Sopro do
Ser vivente que se
Farta de
Amor e pão

22.2.2009

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Delírios de quem dorme acordado. Ou de quem acorda no sono.

The ancient masters of the Tao / Had subtle marvelous mystic penetration / A depth that cannot be known. / It is exactly because that they are unknowable / That we are forced to pay attention to their appearance.”    Lao-Tse, Tao te Ching, cap. 18

  

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O tecido esvoaçante do mar.

O tecido esvoaçante do mar chocava suas abas na madeira do navio…

Fui ter com o oráculo. Era uma velha sábia, que num quarto em penumbra, disse-me para construir um ovo. Eu trazia nas mãos um pássaro, vivo, trêmulo, de úmidas penas pretas, uma espécie de gralha recém nascida, pode imaginar? - e em torno dele eu deslizava minhas mãos, como se faz com a argila, e o ovo ia se fazendo, se criando, fechando o corvo.

Nos veios e imperfeições do ovo ela leu minha sorte. Leu que minha terrível e derradeira batalha estava próxima, e que para garantir minha sobrevivência eu deveria encontrar uma determinada cidade, e lá deveria subir num poste de iluminação, ricamente ornado, cheio de volutas, para depositar no seu cume uma vela acesa.

Grande parte de nós é luz / grande parte de nós é água / o que a gente não vê / é muito mais rápido que a luz / o som e o vento são invisíveis / pelo menos a olho nu / e são mais lentos que a luz / você sabe deles através da orelha e da areia.


Já houve na minha cozinha, junto com a Joana, uma bruxa, cujo nome não devo pronunciar. Ela uma vez quizilou com um marinheiro de ares nobres e olhos de felino, curioso e folgado, e o rapaz primeiro ficou surdo, depois ficou mudo e depois ficou cego, depois perdeu o poder do tato, por fim virou um fantasma e desapareceu. Passadas algumas semanas, alguém jogou a dona no mar.



Por fim veio uma tempestade, após um longo e tedioso outono, e o mar assobiou para mim uma cantiga indefinível, e os raios, os golpes das ondas e o vento armado até os dentes, partiram ao meio e levaram ao fundo nosso barco amarelo. Numa praia distante, fui apanhado por um velho pescador, que tinha uma filha de pele de figo, que usava sempre um curto vestido anil. 

26.11.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Nas matas do Brasil, mistérios do Rei Salomão. Quem entende esse país maluco? Mário de Andrade? Conheci negro a favor de Dom João VI, conheci índio progressista, conheci branco que andava nu que nem bicho. Há favelados que são nobres aristocratas, há ricos na lama lambendo o resto do crack na lata. Mas há, na maior parte, em comum, a ignorância. Os professores não querem ensinar, os alunos não querem aprender. Imprimem-se livros e mais livros para analfabetos.

Andava a pé pela estrada de terra, flauteando, quando passou um amigo, de carro, e brincou, "Eia Pedrinho, lá vai pro Sítio do Pica-Pau Amarelo?" Lá ia, sim, para um sítio onde batemos nosso candomblé de caboclo, onde tomamos do vegetal misterioso da floresta e entramos em contato com os encantados, dançando, cantando, batendo tambor, tocando maracá, executando rituais. Na Umbanda, mãezona, a gente tenta fazer a utópica união entre negros, índios e brancos. A gente tenta casar o positivismo, o espiritismo, o iluminismo, com nosso nativo dionisismo, misticismo, primitivismo. Dá certo, será?

E eu que me chamo Pedrinho e também Lobato, à toa que me chamo isso, fiquei meditando, num é que é? E o pó do pirlimpimpim é a névoa da Jurema, a força do Vegetal, que rompe os limites do sonho e da realidade, que rompe os limites entre o além e o aqui, e nos ajuda a, eventualmente, ligar nós com nós mesmos.

Se diz, ideia besta, essa de sítio do pica-pau, com cucas e sacis, e pó mágico - mas que gerou uma semente na minha cabeça, me fez reler os livros do Lobato, que são livros de um tanto de gente, que Lobato era, sim, canibal, e ler suas biografias, ler muito Marisa Lajolo e ler o Furacão na Botocúndia, e ler o infeliz Presidente Negro. E foi num bom timing meu interesse porque logo veio o Pre-Sal e o Barack Obama… o porviroscópio do Lobato era bom. Sua visão é que era meio… diferente da minha, vamos dizer assim. O porviroscópio mostra, mas cada um tem seu olho pra ver… José Bento, que homem mais oportunista era este! Importando ideias e adaptando-as ao Brasil, brincou de Positivista, de Progressista, de Eugenista, de Fazendeiro, de Capitalista, de Comunista. Que deserviço fez comparando as histórias que vinham do povo mestiço e negro e índio brasileiro com as dos livros europeus, reforçando um padrão colonialista etc. etc. Muito o que reclamar do Lobato!

Mas eu peguei o sítio pra mim, como muita criança fez. Habitei o sítio, como era o sonho dele. Mas meu sítio é multicolorido… eu casei com a pretinha, eu vi nobreza africana e barbaridade branca. Pra mim qualquer índio é mais cristão que o Papa! É como uma relação de filho e pai, em que você herda, mas algumas coisas você confronta, você tenta derrubar. A modernidade tinha a utopia do progresso, a modernidade olhou com muita fome para a ciência: saber tudo, controlar tudo, humanizar tudo, estatizar tudo, libertar tudo. Fausto, Golem, Caligari. O mito do botão vermelho da bomba atômica. Poder sobre a criação. Frankenstein. Transgenia.

Para acalmar essa dor, goles de natureza. Gota de orvalho. E cultivar o singelo amor. Porque tecnologia é bom, quando é útil e divertido. Mas no coração dos homens… citando a Carta aos Mortos do Affonso Romano de Sant’Anna: "Amigos, nada mudou em essência. Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina." Ouso crer que há mudança, sim, mas, como diz o Mestre Chuang, nosso conhecimento é limitado, e o universo, ilimitado. Aquele que busca compreender o ilimitado usando o limitado corre sério risco de ficar lelé.

A Globo, seguindo Jorge Amado, que opinou que as crianças não precisam de subterfúgios como o "rapé mágico" para ir para o mundo da imaginação, tirou o pirlimpimpim da sua versão internética do sítio. Mas os mil psiquiatras e a indústria farmacêutica que nos digam sobre a força do signo: o elixir cabalístico, o ópio de cada dia, a pílula azul, Aleph, Beth, X, Y. Dois de manhã e dois à tarde. Tá garantida vossa felicidade.

Lobato, ariano, meteu as caras! Pôs pra fora um monte de feridas, ainda não superadas.

A ele, homenagens!

PS. Sobre ele: Lendo e Escrevendo Lobato, muito bom, de onde eu tirei a crítica do Jorge Amado. E Furacão na Botocúndia, muito bom também.

14.11.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

O Labirinto é uma dança a aranha tece a abelha faz mel o Minotauro sou eu

O Labirinto é uma dança e a Deusa que desce em mim Teseu, Faca - Comi também do que morreu

A floresta se dá abre-se em Guaraná em folha, em fungo, em remédio, em cipó a floresta se mata e se come, vivemos chupando o húmus do avó

Criança meiga Deus me mete me sai da barriga me chupa me suga e me deixa - Morre, e sou sempre eu

Castelo, pedra, barro, fogo. Lar, tecido, carinho, fogo, pão. Janelas abertas às vagas do Sol - Centro, Trono, Raio, Símbolo, Porão, Labirinto,
Baleia

Creta,
Touro do Mar,
Golfinho do Sol,
Esforço do Homem

Me recordo de Francisco
Me ponho a chorar
Ouvindo ele dizer
Nunca te esqueças
Que é simples,
É simples, ao alcance da mão

Onde estiverem três juntos, Bebendo o Vinho, Comendo o Pão, Em memória do Gozo de Deus, ai, o Gozo, o Clarão,
e a Paz, ai, e a Cura

 

Forma frondosa,
Árvore ramada,
o Sacrifício é

Vamos agradecer

27.10.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

A força do mito está nele ser verdade.

Entrei na antiga mansão, assombrada. Assombrada dos Duques e Barões. Assombrada de escravos, de Reis Pretos, de homossexuais feiticeiros, de Tuxáuas bravos. Sonhando com vaginas dentadas.

Vi os Cabiros nos porões fazendo jóias; vi o Comando do Comando Militar. Mortos? Vivos?

Quem já provou as Drogas da Coroa? Ordem e Progresso. Na quinta do sítio do Pica-pau Multicolorido, sábado tem as mesas sob a chefia de Assis Chatôbriã, Caboclo sete-encruzilhadas. Decidem-se os destinos na roda dos bambas…Bambuluá.

Mas é cada Exu! Coronel, coronel, não fode as pretas, coronel…

Estar em sociedade é participar de um crime comum, a religião é participar de um crime comum, um rito que é assassinato, culpa, expiação…

Quando a fantasia é escapismo, e quando ela é expansão?

28.8.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

 

Neste século XX que passou, o Santo imprimiu suas marcas na vida brasileira.

No Rio de Janeiro, o Bispo. Ele era esquizofrênico ou tinha uma missão?

Ele acreditava que os anjos e a Virgem comandavam ele. Ele era Jesus o filho de Nossa Senhora. Mais um.

No Acre, Mestre Irineu. E quem vai julgar sem conhecer? E, conhecendo, quem vai julgar? O mestre não se julga.

Mestre dizia que era guiado pela Lua, a Virgem.

Hoje o daime, apesar de toda a polêmica, é respeitado e admirado no mundo todo. O vegetal. E as práticas tradicionais ligadas a ele são cultural e institucionalmente reconhecidas. Às vezes.

Hoje, o trabalho do Bispo do Rosário é reconhecido e admirado no mundo todo. Assim como o de Ernesto Nazareth. E Lima Barreto.

Eu vejo claramente Nossa Senhora agindo, criando… êta, Nossa Senhora!

É meu lado Adélia Prado.

Neste mesmo século, Chico Xavier observou: Minha vida foi desapropriada pelo sagrado.

 

14.8.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Tento habitar o palácio cujas portas arrebentou o aríete Monteiro Lobato.

7.8.2008

Sítio do Pica-Pau Multicolorido

Tapete Voador

Dois tambores e uma cítara
é a receita de voar
um tapete
um narguilê
e santa maria ganja

bate tambor
ritmo mole
voz de clementina

donde esta luz quente
um leite
em que és peixe
e nadas

giro de muitos braços
vê-la te faz chorar?
beija e perdoa
gira de novo
não te demores
num mesmo lugar

pó das fadas
pirlimpimpim
pensar coisas boas

um pã de pêlo oleoso
fedorento
cuspindo vinho?

olha de novo
bela flauta
passarinho plumadinho
de verde e dourado

giro de pés
molejo
pedro pã e o peão
a piorra
o mundo
a pipa
a nave estelar

não tema que te dilacerem
e te dilaceram
e te comem

tambor e cítara
te recompõem
sempre mais puro

29.7.2008

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Da passagem de estado

É como entrar na água, há um medo, depois um choque e depois acostuma, está bom. Por onde anda você? Para onde você vai, naquele momento quando a água cobre todo o corpo e tudo é ruído e bolhas e confusão e em segundos estamos nadando, quase peixes, boiando, quase cobras?

É como dormir, cair no sono, a gente dorme aqui, acorda lá, no sonho, e nos distraímos e de repente estamos aqui, outros, a luz leitosa do novo dia nos envolvendo. Para onde fomos, entre o sonho e a manhã?

É como um acidente, num minuto você está ali sentado no carro olhando a paisagem e de uma hora pra outra tudo é ruído e fumaça e confusão e você sente dores, cinco sentidos de dores, e depois acorda, engessado, um silêncio rochoso de hospital, vagas lembranças de sirenes, rostos assustados, vozes trêmulas, cheiro de asfalto. Por onde ando eu?

28.7.2008

Sítio do Pica-pau Multicolorido

Balaio Misterioso

Balaio misterioso
De onde saí

Dos tempos de pai
Onde macaco, leão e samambaia
Eram comadres

Vinho misterioso
De onde bebi

Dos filhos do sol
Anéis, cores, acordes, um lindo manto
E generosidade

Dança misteriosa
Com que me defini

Dos meninos serpente
Batalhas e o amor, seiva, sangue, vida
E harmonia

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