Extraídos do “Lieh Tzu”, clássico taoísta.

O Sábio.

Um dia Confúcio estava passeando com alguns discípulos quando eles encontraram dois garotos discutindo. Confúcio perguntou aos garotos a razão da disputa. Eles disseram que debatiam se o sol estava mais perto ao fim da tarde e mais longe ao meio-dia, ou se estava mais longe ao fim da tarde e mais perto ao meio-dia.

Um dos garotos argumentou que o sol parecia maior ao fim da tarde e menor ao meio dia, então ele devia estar mais perto ao fim da tarde e mais longe ao meio-dia.

O outro garoto argumentou que fazia frio ao fim da tarde e calor ao meio-dia, logo o sol deveria estar mais longe ao fim da tarde e mais perto ao meio-dia.

                Confúcio não soube apontar com quem estava a razão. Os garotos então debocharam dele e disseram: “Quem disse que você é tão sábio?”

 

A História do Velho Senhor Shang.

                O Velho Senhor Shang era um pobre cidadão cujo estranho destino começou a se desenrolar no dia em que seu pequeno casebre caindo aos pedaços foi confiscado por dois jovens arrogantes, que eram protegidos de um gangster local.

                Naquele tempo, famílias ricas, com muitos seguidores e agregados, podiam agir como se a lei estivesse com elas. Algumas famílias tinham milhares de homens armados em suas propriedades. O gangster em questão era o cabeça de um desses clãs, e seus seguidores eram todos jovens crias das famílias bem-estabelecidas da região. Eles gastavam seu tempo vestindo roupas caras e vadiando por aí, fazendo o que lhes desse na telha.

                O chefe do clã era bem conhecido por fazer um pobre homem rico e um rico homem pobre, com uma única palavra ou um gesto com a cabeça. Mesmo o governo o tinha em sua folha de pagamento, embora ele não se importasse com lei ou ordem e não contribuísse em nada com o bem-estar geral. Quantos jovens iludidos foram feridos ou mortos em duelos sem sentido, feitos apenas para acender as ambições de outros jovens iludidos, e para divertir o gangster e sua gangue?

                O Velho Senhor Shang pensou que havia descoberto sua chance de se tornar um sucesso quando ouviu os dois jovens moços que invadiram sua casa conversando sobre seu líder. Logo no dia seguinte, o velho Shang foi até a residência do gangster, que era um homem tão grande que até mesmo o governo pagava a ele para mantê-lo do lado do império.

                Quando o velho Shang chegou, ele foi saudado com gritos e vaias de riso e desprezo. Quem é esse banana que veio se juntar à gangue? Obviamente, ele não servia para um duelo, então os garotos decidiram ver como era um velho homem acertando o chão depois de cair de um prédio de sete andares.

                Um certo número de jovens pegou o pobre velho Shang e o levou até uma alta torre, e o disseram que o chefe estava oferecendo cem peças de ouro para quem pulasse dali. Alguns dos jovens chegaram na beirada como se tivessem a intenção de ganhar o prêmio, então o velho Shang se apressou e pulou.

                Os brigões seguraram o fôlego por um momento, preparados para ver o velho homem se esborrachar para a morte. Mas o que eles viram foi o velho Shang flutuar levemente sobre a terra como uma pena no ar.

                Sem poder acreditar no que viram, os jovens tomaram aquilo como um golpe de sorte, culpa de um repentino sopro de vento que todos notaram.

                No dia seguinte eles resolveram levar o velho Shang para o leito de um rio, onde haviam cascatas misteriosas com buracos de profundidades desmedidas. Eles contaram ao velho sobre uma pérola enorme que havia no fundo de um buraco sob a rápida correnteza, e disseram que o chefe ofereceu a pérola a quem a pudesse pescar.

                O Velho Shang mergulhou na corrente sem hesitar, metendo-se no buraco e vindo à superfície momentos depois, trazendo uma pérola enorme na mão.

                Isso não mais poderia passar como um golpe de sorte, e ao velho Shang foi dado um lugar entre os convidados do mestre da casa.

                Não muito depois disso, um incêndio se deu no armazém. O chefe disse a seus seguidores que iria recompensar quem pudesse salvar seus panos. Velho Shang correu para o edifício em chamas e saiu de lá sem uma queimadura, com os panos.

                Nessa hora, os rufiões estavam convencidos de que o Velho Shang devia ser um dos que alcançaram o Tao, e todos imploraram perdão por terem-lhe aplicado truques. “Nós aplicamos truques em você, não percebendo que você era um dos imbuídos do Tao. Nós o ridicularizamos, ignorando que você era um homem de espírito. Mesmo nos achando ignorantes, surdos e cegos, desejamos perguntá-lo sobre o seu Caminho.”

                O velho Shang disse, “Então, quer dizer que vocês estavam me enganando?”

                Quando esta história foi reportada a Confúcio, ele disse, “Alguém que é perfeitamente sincero, pode afetar as coisas. Velho Shang acreditou em falsidades, e as coisas não traíram sua confiança. Quão mais efetivo seria se a confiança e a sinceridade estivesse em ambos os lados. Tome nota disto.”

 

O Homem Pobre e o Ouro.

                Um homem pobre decidiu se tornar rico, então ele pôs seu chapéu e sua capa e foi para a cidade.

                Quando ele andava pelo centro da cidade, ponderando sobre como obter riquezas, seu olhar repousou em alguém carregando um tanto de ouro.

                O homem pobre correu e agarrou o ouro. Ele foi capturado quando tentava fugir.

                O juiz perguntou ao velho homem, “Como você esperava fugir com o ouro, com tanta gente envolta?”

                “Eu vi apenas o ouro”, explicou o pobre homem, “não vi as pessoas.”

 

Quem para Quem.

                Certa vez, um homem promoveu um grande banquete, para uma centena de convidados. Quando alguém ofereceu um presente de peixe e frango, o anfitrião disse com apreço, “Deus é mesmo generoso com as pessoas, plantando cereais e criando peixes e frangos para nosso uso.” A multidão de convidados ecoou tal sentimento.

                Um rapaz de uns vinte anos, no entanto, que esteve sentado no canto mais remoto da sala de banquete, veio à frente e disse ao anfitrião, “Não é como você diz, senhor. Todos os seres do universo são criaturas em par conosco. Nenhuma espécie é maior ou menor que a outra, elas somente controlam umas às outras pelas diferenças entre sua inteligência e poder; elas comem umas às outras, mas isso não quer dizer que foram feitas umas para as outras. Pessoas pegam aquilo que podem comer e comem, mas isso quer dizer que Deus fez aquilo para elas? Se for assim, uma vez que mosquitos mordem a pele e tigres e lobos comem carne, não seria correto dizer que Deus fez os homens para os mosquitos e criou a carne para os tigres e os lobos?”

 

Suspeita.

                Certa vez um homem descobriu que seu machado havia sumido, e suspeitou que o filho de seu vizinho o havia roubado. Observando o jovem caminhando pela vizinhança, ele estava convencido de que aquele era o caminhar de um ladrão. O jovem se parecia com um ladrão e falava como um ladrão; tudo o que ele fazia apontava que ele havia roubado o machado.

                Então um dia o homem encontrou o machado perdido. Depois disso, ele notou que o filho do seu vizinho não estava mais agindo como um ladrão.

 

Altos e Baixos.

                Senhor Yin, do estado de Chou, era um próspero negociante. Seus empregados trabalhavam sem descanso desde o começo da manhã até tarde da noite.

                Entre eles estava um velho trabalhador cuja força física estava virtualmente exaurida, mas que no entanto trabalhava ainda mais duro por causa disso. De dia ele fazia seu serviço, bufando e suando, gemendo e grunhindo; de noite ele dormia um sono profundo, completamente exausto.

                Enquanto o velho trabalhador dormia, seu espírito relaxava e expandia. Toda noite ele sonhava que era um rei, um líder das pessoas, no comando dos assuntos da nação, passeando a seu bel-prazer, celebrando nas tavernas, curtindo o que ele bem quisesse, saboreando incomparável deleite. Quando ele acordava, voltava ao trabalho.

                Quando alguém expressava pena ao ver quão duro dava o velho homem, este respondia, “Pessoas podem viver cem anos, mas estes cem anos estão divididos pela metade entre dias e noites. Durante o dia eu trabalho como um escravo, e não posso negar que isso é miserável. De noite, no entanto, sou um rei, e meus prazeres são incomparáveis. Então, do quê posso reclamar?”

                Quanto ao chefe, Senhor Yin, sua mente estava ocupada com seus negócios, seus pensamentos concentrados em seus afazeres, logo seu corpo e mente estavam ambos cansados. De noite ele também cedia à fadiga e dormia profundamente. Toda a noite ele sonhava que era um serviçal, correndo para lá e para cá, resolvendo uma tarefa atrás da outra, às vezes sendo humilhado e apanhando. E ele bufava e suava, gemia e grunhia por toda a noite.

                Senhor Yin estava infeliz com este estado de coisas e consultou um amigo sobre o caso. Seu amigo disse, “Você tem status e riqueza muito maiores que a maioria das pessoas, mas de noite você diz que sonha que é um servo. Bem, a alternância de sofrimento e bonança é natural; se você quer que seja bom tanto na vida de trabalho quanto na vida de sonho, temo que você esteja pedindo demais.”

                Depois disso, Senhor Yin tirou um pouco do peso de seus empregados e reduziu as suas preocupações, e então ambos tiveram um pouco de alívio.

 

Esquecimento.

                Um homem chamado Hua-Tsu, entrando na meia-idade, sofria de esquecimento. Ele esquecia de noite o que havia ganhado durante o dia, e esquecia de manhã o que havia dado de noite. Na estrada, ele esquecia de andar, em casa, ele esquecia de sentar. A qualquer momento ele estava inconsciente do que havia se passado antes, e mais tarde ele não sabia o que havia se passado agora.

                Toda sua família estava preocupada com sua condição. Eles chamaram um adivinho para descobrir o que devia ser feito, mas não houve nenhum prognóstico. Eles chamaram um xamã para rezar por ele, mas isso não adiantou. Eles chamaram um doutor para tratá-lo, mas ele não encontrou a cura.

                Havia um Filósofo* que se dizia capaz de curar o homem, e sua esposa e filhos ofereceram a ele metade de suas posses pelo remédio. O Filósofo disse, “Isto não pode ser descoberto por oráculos, não pode ser aliviado por rezas, não pode ser tratado pela medicina. Eu tentarei transformar sua mente e mudar seus pensamentos, na esperança que ele vá melhorar.”

                Então, quando o Filósofo testou o homem, botando-o na chuva, o homem pediu roupas. Quando o fez passar fome, o homem pediu comida. Quando o trancou na escuridão, o homem pediu luz. O Filósofo anunciou alegremente às crianças, “essa doença pode ser curada. Meu remédio, no entanto, é secreto e não pode ser revelado a outros. Por favor, leve todo mundo e me deixe a sós com o homem por sete dias.” A família fez como ele pediu, e então ninguém ficou sabendo dos meios que o Filósofo usou, mas um dia a moléstia de que sofria o homem por anos havia desaparecido.

                Quando o homem acordou, ficou uma fera. Atirou a mulher para fora da casa, castigou as crianças, e saiu atrás do Filósofo com uma machadinha. As pessoas da vizinhança o agarraram e perguntaram o porquê daquilo. O homem disse, “Em meu passado esquecimento eu era claro e livre, sem nem mesmo saber da existência ou da não-existência do céu e da terra. Agora que estou consciente, todas estas décadas de ganhos e perdas, tristezas e alegrias, gostos e desgostos, de súbito ocorrem-me numa onda de confusão. Tenho medo de que ganhos e perdas futuros, futuras tristezas e alegrias, e gostos e desgostos, causem distúrbios à minha mente. Será que não terei de novo mais um momento de esquecimento?”

 

* Literalmente, um Confucionista. (N. T.)

 

A Moléstia.

                Lung Shu disse ao médico Wen Chi, “Sua arte é primorosa. Tenho uma moléstia; você pode curá-la?”

                O médico respondeu, “farei como você diz, mas primeiro, conte-me sobre os sintomas.”

                Lung Shu disse, “eu não me sinto honrado quando toda a vila me adora, nem envergonhado quando todo o país me critica. Ganhos não me fazem feliz, perdas não me abalam. Eu olho para a vida como olho para a morte, vejo a riqueza como a pobreza. Vejo as pessoas como porcos, e vejo a mim mesmo como às outras pessoas. Em minha casa, faço como se estivesse no bar, e olho para os meus conterrâneos como a estranhos. Sofrendo disso, recompensas não me encorajam, punições não me ameaçam. Não faz diferença perda ou ganho, florescimento ou declínio; não estou nem aí para alegria ou sofrimento. Sendo assim, não posso servir ao governo, associar-me aos amigos, comandar minha casa, controlar meus servos. Que doença é esta? Há uma maneira de curá-la?”

                O médico colocou Lung Shu de pé com as costas para a luz e olhou bem para o seu peito. Depois de um tempo, ele disse, “Aha! Eu vejo seu coração, ele está vazio! Você é quase um sábio. Seis das aberturas de seu coração estão abertas, apenas uma permanece fechada. Talvez por isso você pense que a sabedoria de um mestre seja uma moléstia. Isso não pode ser resolvido por minha tímida arte.”

 

A História de Wan Baochang.

                Wan Baochang era um homem de origem desconhecida. Um gênio de nascença, ele tinha um profundo entendimento de música e construía toda a sorte de instrumentos musicais.

                Certa vez quando estava viajando, ele viu um grupo de dez pessoas vestidas de belos panos e cavalgando sobre magníficas carruagens embandeiradas. Elas estavam paradas, em colunas, como se estivessem esperando por alguém.

                Wan se moveu para sair de seu caminho, mas mandaram alguém para convidá-lo a ir até o grupo. Quando ele se aproximou, disseram: “Foi-lhe dada uma natureza musical, e você vai manejar oito tipos de instrumentos musicais, para salvar a música desta era degenerada de uma corrupção iminente. Mas você ainda não conhece plenamente todos os sons dos princípios corretos, então o Deus Supremo mandou oficiais do Alto Céu para mostrá-lo as sutis e misteriosas essências.”

                Então eles puseram Wan sentado por ali e o ensinaram a música das idades, os sons da ordem e do distúrbio. Eles disseram tudo em detalhes, e Wan gravou tudo. Depois de um tempo, o grupo de imortais voltou para o céu, e Wan voltou para casa. Quando ele voltou, ele descobriu que havia estado fora por cinco anos. Depois disso ele estudou toda a música do mundo dos homens.

                Durante as dinastias dos Zhou e dos Sui do norte, nos fins do século sexto, Wan ganhou reconhecimento por seu incomum talento e aprendizado. Contudo, ele não serviu ao governo, mas viveu uma vida de boêmio.

                Ao princípio dos anos 590, quando um certo homem nobre completou uma composição musical e a submeteu ao trono para adoção oficial como música da corte da recém estabelecida dinastia Sui, o imperador Wen chamou Wan para uma consulta. Depois de ouvir a música, Wan disse, “Esse é o som da destruição de uma nação; triste, amargo, apressado e disperso. Não é um som de verdadeira elegância. Não serve como música clássica.”

                O imperador fez Wan produzir instrumentos musicais. Todos os instrumentos feitos eram em tons baixos, diferente daqueles que eram comumente usados. Wan também disse que havia um estilo na música ritual da antiga dinastia Chou, quase dois mil anos anterior, que nenhum dos maiores especialistas pôde entender durante séculos. Quando ele compôs uma peça nesse estilo, todos riram e debocharam dele, mas quando ele a tocou, todos se maravilharam.

                Pouco depois, Wan consertou incontáveis instrumentos musicais, mas o tom resultante era sempre sereno e elegante, não estando de acordo com o gosto popular da época; e assim eles nunca estavam na moda.

                Quando Wan ouviu uma composição musical chamada “Para Sempre e Sempre”, ele chorou e disse às pessoas, “Ela é licenciosa, dura e triste; não tardará e as pessoas estarão se matando umas às outras por aí.”

                Bem, nesse tempo havia paz por toda a terra e a economia florescia, então todos que ouviram os ditos de Wan acharam que ele estava errado. Mas no fim da era dos Grandes Feitos (618, quando a dinastia Sui caiu), as palavras de Wan se provaram verdadeiras.

                Wan Baochang não teve filhos e foi abandonado por sua esposa. Ele morreu sozinho e sofrendo, pensando em seu íntimo que ele fora punido pelo Céu por ter estado tão apaixonadamente envolvido com o mundo.

 

Borboletas Douradas.

                No tempo do imperador Muzong da dinastia T’ang, no século nono, entre os membros do corpo de elite da guarda imperial havia um japonês chamado Kan Shiwa.

                Kan Shiwa era um extraordinário escultor. Podia fazer todo tipo de pássaro e fazê-lo de modo que ele pudesse beber água, saltitar por aí, esticar o pescoço e assoviar, e outras coisas mais, tudo de uma maneira bem charmosa e adorável. Ele punha máquinas nos estômagos dos pássaros que construía, então além deles ostentarem uma bela plumagem eles podiam voar cem ou duzentos pés pelo ar.

                Shiwa também esculpia gatos que faziam ainda mais; corriam por aí e até mesmo caçavam pequenos pássaros.

                O capitão da guarda achou aquilo realmente maravilhoso, e escreveu ao imperador sobre isso. O imperador Muzong convocou Kan Shiwa à sua presença, e ele também foi cativado pela habilidade de Shiwa.

                O imperador perguntou-lhe se ele podia esculpir algo ainda mais maravilhoso. Shiwa disse ao imperador que faria “um palanque para ver dragões.”

                Vários dias depois, o palanque estava pronto. Tinha dois pés de altura e parecia um tablado comum. Quando o imperador o viu, perguntou-se o que ele teria de especial. Shiwa o disse que ele logo veria se subisse no palanque.

                Não sem desconfiança, o imperador subiu. Assim que ele o fez, um dragão gigante apareceu no céu. Ele era o dobro do tamanho de um homem e tinha escamas, uma cauda, garras, e chifres; ele vôou para as nuvens e cavalgou na bruma, dançando no céu. Sua aparência e energia eram tais que ninguém jamais pensaria que pudesse ter sido feito por mãos humanas.

                O imperador estava encabulado. Ele saltou freneticamente da pequena plataforma e disse, “Bom, bom, muito bom – agora leve isso embora com você!”

                Estranhamente, no momento em que ele saiu do palanque o dragão desapareceu. O que restou foi devolvido a seu lugar.

                Logo depois, Shiwa se desculpou com o imperador por tê-lo assustado tanto, e se ofereceu para fazer algo divertido para compensar.

                O imperador, depois de protestar dizendo que não estava com medo mas apenas surpreso, perguntou a Shiwa o que ele pretendia fazer.

                “Algo pequeno,” respondeu Shiwa, tirando uma caixinha do bolso. Quando ele abriu, dentro haviam pequenos insetos escarlate.

                “O que são eles?”, perguntou o imperador.

                “São como aranhas”, disse Shiwa. “São caçadoras de moscas.”

                “São reais?”, perguntou o imperador, impressionado com sua aparente vitalidade.

                “Não, são feitos pelo homem”, Shiwa respondeu.

                “Então porque elas são escarlates?”, perguntou o imperador.

                “Porque eu as alimento com pílulas de cinábrio”, explicou Shiwa. “Similarmente”, continuou, “se eu as alimento de ácido sulfúrico elas ficam douradas, se eu as alimento de pérolas em pó elas ficam aperoladas.”

                Então o imperador perguntou o que os insetos podiam fazer. Shiwa disse, “Eles dançarão para Vossa Majestade. E, uma vez que apreciaríamos que Vossa Majestade visse a dança, eu convidei os músicos para tocarem “A Canção de Liang-Chou”, que é a música favorita dos insetos.” E assim, enquanto os músicos se preparavam para tocar, as pequenas aranhas vermelhas saíram da caixa e arranjaram-se em cinco colunas. Quedaram-se na formação, esperando a música começar.

                Quando a orquestra pôs-se a tocar, as aranhas começaram um dança bem ordenada em harmonia com a música. Elas iam para frente e para trás; as colunas se aproximavam, então realinhavam-se em diferentes ângulos, e de repente se transformavam em um círculo.

                A coreografia era realmente bela, lembrando um bordado intricado e pitoresco, iludindo deveras o olhar. Enquanto a música tocava, as aranhas também faziam um som sussurrante, tão alto quanto o ruído de um mosquito, mantendo o tempo da música.

                Finalmente, quando a música terminou, as aranhas voltaram para sua posição inicial, arranjadas em cinco colunas; em uníssono curvaram-se ao imperador, e então seguiram em filas ordenadas para dentro da caixa.

                O imperador exclamou seu deleite. Shiwa seguiu explicando que as aranhas eram, como seu nome sugeria, insetos apanhadores de moscas. Para demonstrar, ele tomou uma delas e a pôs na palma de sua mão; apontando para uma mosca perto de uma árvore, disse: “Pegue-a”. A aranha pegou a mosca bem como um gavião pegaria um pardal. Então aranhas saltavam das mãos de Shiwa para pegar moscas nos ombros das pessoas ou mesmo moscas zumbindo pelo ar. Pegando as moscas, uma por uma as aranhas retornavam para a palma da mão de Shiwa.

                O imperador se maravilhou com isso. Ele deu a Shiwa uma grande recompensa em prata, que Shiwa distribuiu livremente aos pobres da cidade. Então um rumor começou a circular entre as pessoas da cidade de que Kan Shiwa era um imortal espiritual das ilhas aventuradas do mar do leste. Logo quando esse boato chegou no auge, Kan Shiwa desapareceu da guarda imperial, e ninguém nunca mais o viu novamente.

                Enquanto isso, o Imperador Muzong plantou seu jardim com as flores mais finas e luxuriantes, que preenchiam o palácio com sua fragância na primavera. Toda noite, miríades de borboletas dançavam e perseguiam umas às outras no meio dos botões.

                Estranho dizer, as borboletas eram todas douradas ou aperoladas, e seu brilho esfuziante fazia o palácio parecer tão bonito como os reinos celestiais. Incontáveis milhares apareciam todas as noites, mas nenhuma era encontrada de manhã.

                Todas as noites as damas do palácio competiam entre si para apanhar essas belas borboletas, e elas descobriram que era bem fácil fazê-lo. Elas usavam nós de seda para pregar as borboletas junto ao seio, ou em seus prendedores de cabelo.

                Essas borboletas brilhantes, usadas como ornamentos, eram muito bonitas realmente. Porém, quando vinha a manhã, parecia que perdiam seu brilho, e então as garotas as tiravam. Na noite seguinte as borboletas voltavam à vida, espalhando sua luz brilhante enquanto dançavam por entre as flores.

                Nessas horas o imperador Muzong passeavam pelo jardim alegremente, mas o que ele mais gostava era de apanhar algumas centenas de borboletas e soltá-las dentro do palácio, e divertir-se assistindo as garotas do palácio persegui-las.

                O imperador divertiu-se com esse esporte toda noite, nunca se cansando dele, até que um dia as borboletas não voltaram ao jardim florido. O imperador Muzong e suas damas temeram as haver capturado todas, mas isso não havia se passado. Onde quer que flores crescessem na cidade, agora apareciam essas estranhas e belas borboletas. Elas se provaram ser especialmente fáceis de apanhar entre as flores e árvores plantadas pelos pobres; e então os pobres as apanhavam de vez em quando e as vendiam aos ricos por altos preços, usando os ganhos para comprar o que precisavam.

                Um dia o imperador foi a sua casa do tesouro para apanhar um certo prato feito de ouro. Quando ele chegou lá, descobriu que seu precioso artigo fora esmagado e feito em pedaços, e também outros objetos de ouro e pérolas.

                No meio dos fragmentos ele pode discernir vagamente o formato de uma borboleta, e percebeu naquele momento que as borboletas desaparecidas eram obra de Kan Shiwa. Ele imediatamente vasculhou toda a casa de tesouros, mas não achou nem sinal do mago. Depois disso ele teve o palácio e toda a capital, com suas avenidas e passarelas, vasculhadas de canto a canto, mas o homem não foi mais encontrado.

                E as borboletas nunca voltaram.

               

A história de Nieh Shih-Tao.

i.

                Nieh Shih-tao era considerado Aquele Que Penetrou o Sutil. Ele era um homem brilhante, e mesmo assim simples e direto. Modesto e prudente em sua fala e comportamento, ele era reconhecido por cuidar bem de seus pais em sua velhice, e era altamente respeitado em sua comunidade. Quando ele era jovem, ele se tornou aluno de um d'Aqueles Para Além das Convenções. À idade de trinta, foi ordenado monge taoísta e aos cinqüenta recebeu o símbolo esotérico do método de cultivar a realidade.

                De acordo com seus próprios relatos, certa vez quando Nieh Shih-tao estava lendo livros taoístas deparou-se com uma prescrição para comer da seiva de um pinheiro e decidiu escalar a Montanha dos Cem Abismos com um colega taoísta para colher alguma seiva.

                Essa montanha era muito alta e íngreme, e do seu pico tinha-se ampla vista das quatro direções. De noite os dois taoístas descansaram sob os pinhais no pico da montanha; o céu estava limpo, a lua estava clara. De repente eles ouviram música imortal vindo da Montanha Púrpura Gelada para o sudeste, bem bem longe, passando vagarosamente pela Montanha de Pedra e a Montanha de Metal, que era tão alta quanto a Montanha dos Cem Abismos, e que, embora distantes cem milhas na superfície da terra, pareciam próximas olhando de um pico a outro.

                Quando eles ouviram a música imortal os alcançando, ela parou um pouco; então houveram três batidas de um pequeno tambor, e a orquestra foi claramente ouvida enquanto se punha de novo a tocar. Embora instrumentos de percussão mantivessem um compasso, era impossível determinar a melodia. Os sons eram altos e claros, diferentes da música do mundo humano. Eles continuaram da meia-noite até a madrugada, finalmente parando ao cantar do galo.

                Mais tarde os dois homens constataram, ouvindo os habitantes da vila que fica ao pé da montanha, que todos haviam escutado a música. O colega de Nieh disse, “quando estávamos colhendo medicina mística, repentinamente ouvimos música imortal. Isso deve significar que nossas intenções foram percebidas no outro mundo! Eu também tenho isso como um sinal de que tu alcançarás o Tao”.

                Depois disso, Nieh viajou por aí, então foi a Nanyue, a Montanha Sagrada do Sul, onde ele se prostrou diante dos altares da Pureza de Jade e Do Jade Azul do Céu de Luz. Subseqüentemente ele ficou no Observatório de Convocação Imortal e entrou na Fonte do Espírito da Claridade Aberta.

 

ii.

                Então veio a primavera, e ele ouviu dizer que o velho eremita Ts'ai Verdadeiro Humano, um famoso adepto dos séculos passados, não estava muito longe. Ele também ouviu que haviam estranhas flores e árvores por aqueles lados, e que lenhadores às vezes viam Ts'ai Verdadeiro Humano.

                Nieh Shih-tao, deliciado pelo prospecto da possibilidade de ver Ts'ai Verdadeiro Humano, jejuou por sete dias para purificar-se e então levantou cedo uma manhã e foi sozinho para as montanhas.

                Quando ele ia em frente, sentiu um cheiro de flor incomum. Antes de se dar conta, já era noite, e ele se encontrava em um enorme vale cortado por um rio. Ele viu um lenhador sentado na areia, olhando a água. Nieh apressou os passos em direção ao lenhador que agora tinha pegado suas coisas e estava descendo o vale.

                O lenhador se virou e olhou Nieh, então pôs sua bagagem no chão e perguntou, “Onde está indo assim sozinho?”

                Nieh replicou, “Estou fazendo meu melhor para aprender o Tao e encontrar os imortais. Ouvi dizer que o Ts'ai Verdadeiro Humano está escondido nessas montanhas, e eu só queria vê-lo uma vez”.

                O lenhador disse, “A morada de Mestre Ts'ai é extremamente funda – pessoas não podem ir lá”.

                Nieh disse, “Eu já vim tão longe, escalando as alturas dos penhascos – se há montanhas a cruzar, de que importa a distância?”

                O lenhador disse, “De qualquer maneira está ficando tarde, quase noite, por agora, vá por essa montanha e depois a leste e você vai encontrar uma casa onde você pode ficar”.

                Nieh queria ir com o lenhador, mas o lenhador rapidamente entrou no rio. Parecia bem raso quando o lenhador entrou, mas no momento que Nieh pisou na água viu que o rio era extremamente fundo, com uma rápida corrente. Logo Nieh não ousou cruzar as águas.

                O lenhador disse, “Você vai estar apto a cruzar este rio daqui a cinqüenta anos”.

                Nieh viu o lenhador atravessar o rio e sumir na margem oposta.

                Nieh caminhou algumas milhas pelas montanhas e viu na distância uma cabana rústica com um jardim cercado, galinhas e cães. Chegando mais perto, ele viu um pálido homem que parecia um fazendeiro, tendo por volta dos trinta anos, vivendo sozinho.

                Quando esse homem viu Nieh, ele achou bem estranho que alguém estivesse viajando sozinho nas montanhas. De repente ele disse: “Os problemas da família saem pra fora juntos; quem está no comando?” E perguntou a Nieh, “Onde está indo?”

                Nieh disse, “Estou procurando pelo ermitão Ts'ai Verdadeiro Humano.”

                O homem disse, “Você viu um lenhador por aí?”

                Nieh respondeu que sim.

                O homem disse, “Aquele era o Adepto Taoísta Ts'ai, que acabara de passar.”

                Quando Nieh ouviu isto, ajoelhou-se em prece e disse, “Quando um homem comum ignorante encontra um sábio imortal e não sabe reconhecê-lo, isso também é parte da ordem das coisas”.

                Já era noite e a mata das montanhas já estava profundamente negra. Nieh não tinha onde ficar.

                O homem perguntou, “De onde você vem?”

                Como resposta, Nieh contou-lhe seus princípios e sua jornada em busca da realidade. Então o homem permitiu-o entrar em sua casa e até mesmo sentar com ele na bancada perto da lareira.

                O homem comentou, “Neste momento estou sem provisões aqui nas montanhas.”

                Nieh disse, “Estive jejuando por um longo tempo, e não estou com fome”. Ele viu perto do fogo uma jarra de água quente e um punhado de jarros de porcelana amarela, cobertos.

                “Pode beber o que está nos jarros”, disse o anfitrião, “sinta-se à vontade para pegar o que quiser.”

                Nieh então tirou a tampa de um deles e descobriu que havia chá lá dentro. O anfitrião disse-lhe que pusesse água quente ali dentro e bebe-se.

                Bebendo do chá, Nieh descobriu que sua energia e sabor eram bem diferentes do chá comum. Depois de um tempo ele queria de novo um pouco de chá e foi destampar outro jarro, mas descobriu que não podia fazê-lo. Ele tentou todos os potes mas descobriu que não conseguia abrir nenhum deles. Ainda que desconfiado de que este não era um fazendeiro comum, ele não ousou dizer nada.

                O anfitrião, que dormia em outro quarto, não levantou na manhã seguinte, mesmo quando o sol estava alto no céu. E não havia fogo aceso na lareira. Dormindo, o anfitrião disse, "Neste lugar desolado e solitário, de repente me preocupo por não ter nada a oferecer-lhe. Há vários lares na vila lá pra cima - você devia ir lá".

                Nieh caminhou umas duas milhas mas não avistou nenhuma casa, nada além de desfiladeiros e penhascos. Quando ele deu meio-volta e olhou para trás, ele percebeu que perdera o caminho para o lugar onde ele havia passado a noite. Ele seguiu mais dez milhas até que deparou-se com um velho homem.

                Nieh e o velho sentaram-se numa rocha lisa para conversar, e o velho lhe perguntou porque ele se aventurou nas montanhas. Nieh contou-lhe tudo que havia se passado. O velho homem disse, "Mestre Ts'ai e seu filho ambos se escondem nestas montanhas. A última noite você passou com seu filho."

                O velho também disse a Nieh, "você tem um ar rico do Tao em você, mas seus ossos imortais ainda não estão completos. Você vai morrer de fome e sede nessas montanhas - como pode permanecer aqui?"

                Então o velho subitamente partiu o galho de uma planta e entregou-o a Nieh. Tinha a forma de um broto de gengibre e por volta de 30 centímetros. Nieh mastigou a planta e achou-a doce e deliciosa. O velho também lhe deu água da fonte para beber.

                Quando Nieh levantou a cabeça depois de beber da água, descobriu que o velho homem já tinha sumido.

                Nieh estava desapontado, mas tendo bebido o chá e comido a erva, ele se sentia mais leve e forte do que quando ele havia chegado.

                Ele queria seguir a trilha da montanha para procurar um lugar para ficar, mas a trilha estava coberta e bloqueada por galhos e cipós, impossível de passar.

                Então Nieh retornou para o Observatório de Convocação Imortal, onde os monges taoístas exclamaram com surpresa, “este observatório é próximo dos penhascos espirituais, mas há por lá várias criaturas peçonhentas e bestas selvagens, então pessoas raramente aí se aventuram sozinhas. Estivemos pensando, porque você partiu a mais de um mês atrás, e estivemos preocupados com você por muito tempo.”

                Disse Nieh, “Mas eu parti ontem, e fiquei apenas uma noite!”

                Então ele contou tudo sobre seu encontro com o lenhador, a cabana onde ele passou a noite, e também sobre seu encontro com o velho homem. Os monges ficaram impressionados. Eles disseram, “Enquanto estivemos vivendo neste observatório, estivemos apenas estudando o taoísmo; sabíamos da existência do Ts'ai Verdadeiro Humano, mas não tivemos oportunidades de vê-lo. Você já deve possuir o tao em você, porque você agora viu Mestre Ts'ai e seu filho. E sobre o velho homem, no passado foi dito que P'eng Verdadeiro Humano também se esconde nestas montanhas; talvez o velho fosse esse Mestre P'eng. Logo que você vai para as montanhas, você encontra três imortais, e passa um dia e uma noite lá que duram mais de um mês no mundo humano. Na verdade, isto é o que a prática acumulada o levou a obter.”

                Nieh estava ele mesmo admirado. Ele ficou no Observatório de Convocação Imortal por anos. Mais tarde ele decidiu retornar para sua terra natal porque seus pais estavam ficando velhos; ele voltou para a Montanha do Retiro perto de sua casa, onde ele ficava na juventude.

 

iii.

 

                Quando Nieh ia para as montanhas colher lenha e ervas, se por acaso ele encontrava com tigres e leopardos, quando eles viam Nieh eles baixavam as orelhas e o rabo, estirando-se no chão. Nieh acarinhava-os e falava com eles, e eles se levantavam e seguiam-no. De vez em quando ele amarrava lenha ou ervas nas suas costas; eles levavam até sua casa e depois iam-se embora.

                Há muitos exemplos similares de como o povo do Caminho podia influenciar animais selvagens. Havia uma montanha lá perto de onde Nieh vivia que era famosa por ser habitat de bravíssimos animais que não faziam nenhum mal às pessoas; isto era atribuído à influência de Nieh.

                Seus pais perguntaram-lhe sobre os proveitos de suas viagens de estudo, e Nieh contou-lhes toda a sua história. Seus pais ficaram muito felizes porque não só receberam seus cuidados no mundo comum, mas também se enriqueceram do Tao que-tudo-abarca fluindo através dele. Eles se consideraram muito bem  afortunados por serem seus pais.

                Mais tarde ele foi de novo viajar, tendo ouvido que Mei Verdadeiro Humano e Administrador Siao estavam escondidos na Montanha do Tubo de Jade e que muitos do seu tempo os haviam encontrado. Mei era Mei Fu, que havia sido um oficial do governo; Siao era um príncipe da dinastia Liang (século sexto a.C.), Siao Tzu-yun. Quando o governador de seu distrito fugiu da rebelião do infame Hou Ching, famílias inteiras foram para as montanhas, e ambos alcançaram o Tao ali.

                Nieh, ficando um tempo no Observatório do Puro Espaço, na Montanha do Tubo de Jade, queria procurar por Mei e Siao, então ele fez uma viagem especial na esperança de vê-los. Ele partiu com determinação e foi fundo nas montanhas. De repente ele viu um homem vestido de musselina, com um chapéu de seda preto. Por seu rosto, parecia ter uns cinqüenta anos de idade.

                Nieh prestou respeitos ao homem e perguntou-lhe quem era. Primeiro o homem disse que era um trabalhador e perguntou a Nieh onde ele estava indo. Nieh disse-lhe que procurava por Mei e Siao. O trabalhador disse, “Ouvimos dizer que você é bastante diligente em sua busca pelo Tao, viajando a todas as famosas montanhas. Isto não é nada fácil! Se você quer ver aqueles dois mestres, eu posso levá-lo até eles. Seus atos passados são bastante puros, já dignos de um nome no Registro de Jade; Embora você não vá ao último vôo ainda, você ainda vai cruzar o mundo.”

                O trabalhador também disse, “Eu sou Hsieh T'ung-hsiu. Você não me conhece, então vou me apresentar. Estive vivendo em reclusão nas montanhas com os imortais P'eng e Ts'ai por trezentos anos agora. Eu sei que você viajou para a Fonte da Clara Atenção; acontece que fui ordenado pelo Mestre da Flor do Leste para tomar conta desta montanha, floresta e imortais da terra na Montanha do Tubo de Jade, e também estou por conta dos santuários do Observatório da Convocação Imortal, então eu e você já temos uma conexão espiritual. É por isso que nos encontramos. Em relação a mestres Mei e Siao, durante o dia eles foram chamados pelo rei do Céu de Pouca Existência, e eu duvido que eles voltem cedo, então é inútil esperar por eles.”

                Nieh então curvou-se respeitosamente e disse, “Mortais no mundo comum procuram o Tao do jeito errado, congelando seus espíritos e concentrando seu pensamento da manhã até a noite sem ainda conhecerem a maravilha essencial. São como pessoas perdidas num oceano sem praia. Este encontro inesperado com você hoje é realmente uma rara fortuna para mim, já que cheguei a ver um mestre do Tao.”

                T'sung-hsiu disse, “Sua sincera devoção é bem tocante. Você ainda não terminou suas tarefas no mundo, então eu vou te mostrar uma saída das montanhas. Nós vamos para onde eu fico.”

                Nieh segiu T'ung-hsiu por uns dois quilômetros quando ele de repente viu uma casa de bambu de dois andares, muito nova e limpa. Lá dentro havia banquinhos baixos e uma pequena chaleira no fogo, com água fervendo nela. Parecia o estúdio de um estudante, e não havia niguém lá dentro.

                T'sung-hsiu convidou Nieh a sentar-se num cavalo de madeira, enquanto T'sung-hsiu sentou-se num cervo de pedra. De repente uma criança entrou e deu a Nieh um copo d'água. Quando bebeu, Nieh sentiu a água muito limpa e refrescante.

                T'sung-hsiu também deu-lhe um livro da estante. Ele disse, “Este é o Livro Básico. Seja diligente em aprendê-lo, e você alcançará a essencia da realidade.”

                Nieh queria ficar por lá e aprender com T'sung-hsiu, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, T'sung-hsiu, já sabendo dos seus pensamentos, disse, “Você tem pais que estão ficando velhos, e embora você tenha um irmão mais velho que pode cuidar deles, eu não posso dizê-lo para ficar, caso você queira viajar para estudar mais. Eu tenho um discípulo vivendo numa certa montanha; se você for vê-lo, dê-lhe uma mensagem para mim, e também mostre-lhe o Livro Básico. Então você poderá descobrir o que ele significa. Se você não o ver, apenas lance o Livro Básico na caverna sobre uma certa ravina, e rabisque minha mensagem numa rocha por lá. Então meu discípulo vai ensinar-lhe a essência do Caminho.”

                Depois de dizer tudo isso, T'sung-hsiu mandou Nieh de volta. De repente Nieh descobriu que T'sung-hsiu havia desaparecido, e ele mesmo estava perto do local de onde ele havia saído. Voltou ao Observatório do Puro Espaço, onde os monges Taoístas disseram atônitos que ele havia sumido por sete dias. Onde ele fôra?

                De qualquer maneira, Nieh tinha o Livro Básico, que estava escrito em caracteres legíveis, contando o verdadeiro segredo das essências esotéricas usadas pela Rainha Mãe da Corte Celestial para ordenar e educar a Comunidade dos Imortais. Quando estes imortais põem-nas em prática, eles podem adquirir a habilidade de subir para os céus; quando mortais no mundo recebem-nas, estando na terra participam do Governo Interior. Contudo, para Nieh havia alguns pontos cujo sentido era-lhe incerto, então mais tarde ele foi ao Observatório da Realidade e ficou lá por um mês procurando pelo discípulo de Hsieh T'sung-hsiu.

                Alguns disseram que havia um eremita que vivia perto da ravina que T'sung-hsiu mencionara, mas ninguém sabia seu nome, embora alguns o tivessem visto. Nieh foi para as montanhas vezes e mais vezes procurando por ele, mas não o viu. Por fim ele fez como T'sung-hsiu havia lhe dito, jogando o livro na caverna e rabiscando a mensagem na face de uma rocha. Depois disso ele adormeceu e sonhou que um homem espiritual chamado Sagrado Cogumelo Púrpura, o discípulo de T'sung-hsiu, ensinou-lhe de tal forma que seus bloqueios mentais todos derreteram. Então ele acordou.

                Um ano ou mais depois, de novo ele retornou a seu antigo retiro nas montanhas perto de sua terra natal, e viveu lá por vinte anos. Ele tinha os Verdadeiros Humanos T'sai, P'eng e Hsieh como seus mentores ocultos, e empreendeu pessoalmente o trabalho de coletar contos sobre estes imortais no meio dos monges taoístas e do povo em geral.

                Eventualmente Nieh Shih-tao foi reconhecido como adepto Taoísta de grandes poderes, respeitado por todos. Suas preces eram sempre atendidas, e ele tinha mais de quinhentos discípulos, dos quais quinze também obtiveram adeptos e deram sua graça à Escola Mística. Pessoas vinham de todo lugar para estudar com ele, e ele ensinava cada um de acordo com sua natureza e percepção. Ele morreu com a idade de sessenta-e-oito, mas como muitas das Pessoas Reais, foi visto de vez em quando por muitos e muitos anos além.