Publicados também na minha página no Verso e Prosa.
SONETO (tentativa mal sucedida nº 13. 11 silabas)
Sou poeta se nunca obrei um soneto?
Se respiro a poesia o dia todo,
Meu talento não será qual – engodo -
A sonata que não compôs o Hermeto?
A tradição das formas, o quarteto,
A fixidez das heranças literárias,
São como efígies, são como medalhas,
Como peças preenchendo branco preto
Deste tabuleiro exato de xadrez,
Onde reina a fórmula e vence a invenção.
Não se compreende de pronto o novo
Sem o fundo familiar da tradição
E pelas sonatas sei o músico nato.
Ficou ruim, mas e aí, sou poeta então?
Jogo das Três Palavras
Mamão
pássaro
músculos
poesia que fosse pintura
tarde eterna na sala
preguiça eterna do gato
mamão do meu sol claro do meio do mundo
dos ventos frescos, das águas puras
fruto passageiro
do meu mundo de louça
mesa de madeira, pano bordado
pai, filho, esposa
faca de alta cultura
doce na boca
poesia que fosse almofada
terno abraço e lágrima
sempre a saudade do oceano
pássaro semeabundo do meu mato verde
simpósio à minhocas, penas de gala
vivente voador
servidor da vida
feito eu, feito um nada
dócil argila
em mãos de alta inteligência
harmonia para olhos
e ouvidos, martelada
poesia que fosse corrida
vontade de poder e respiração
poesia olimpíada, sempre, agora
músculos tesos da minha doida dança
juntas, dedos, calores e bafos, saliva, tesão
peça de mim,
da minha vontade,
trabalho
fornalha, motor
célula, química - verso.
+ Jogo
só o que é poema mesmo são as três palavras, o resto apenas sugestões, de como se desenvolve o jogo.
janela
lençol
música
um poema que fosse fora e dentro
a diferença de onde venta e onde não
a chuva ou o burburinho, o rush e o jornal
janela, buraco intruso, por onde pulo.
janela alta que suga, por onde vislumbro
a copa densa da mangueira
a noite, as formas de monstros
os morcegos
o fundo do quintal
o coração da mangueira
o escuro desconhecido onde projeto
as formas do medo e da imaginação
poema, poema músico, chiado, miado,
poema deitado, poema com só um olho aberto
poema dentro de casa, poema em outra dimensão
lençol suado, coçado, chão mijado
lençol manchado, café com pão, metrô
o outro, o outro
os vidros, os relógios
eu quero chegar em casa
nunca nunca que chega
meu lençol, meu colchão
meu estudo tântrico
ela, elo, textura fina
viola
versos de um canção rápidinha e calma
clara e palavrada
tentando uma métrica off-anais
música titititatata
Da minha relação íntima com eles
Eles têm cantigas,
melodias,
que não se pode ouvir diretamente;
você fica meio de lado,
seja encantado pelo fogo aceso
ou derretido por invisíveis raios;
escuta no fundo, escuta por alto, escuta de longe
mas sabe de coração, desde pequenininho, a cantiga,
mas só ali, naquela hora, você se deu conta, agora,
da melodia misteriosa;
a melodia que evoca os sonhos
da cama antiga de madeira escura,
a melodia que evoca amores
não vividos, não acabados;
e que sacode chãos
e derruba velas e, vá lá, candelabros;
eu vou rimando mas estou falando sério,
melodia que limpa os poros,
ondas de luz que o som da palavra
create, que nem na bíblia;
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eles têm estandartes,
brilhantes;
você não os vê diretamente.
você é um senhor que lembra
quando fora um menor na rua da diamantina
vendo passar a comitiva
sorridente e caótica, pelas ruas,
nalgum carnaval do Brasil, mascarados,
carnaval que joga uns nos outros,
carnaval que nos mistura num cozido,
verdes, azuis, amarelos, derramando cerveja
todos pulam e pulam e você, uai, também pula,
hehehe;
no meio do caos,
guardados pelas milícias dos bobos,
dos tocheiros, das vanguardas,
e das catirinas, dos batuqueiros,
do porta estandarte, das baianas,
estão o rei e a rainha,
membros antigos e serenos
de existir oculto
quisera ser a pulga no vestido da rainha
a ser a gente comum que fica nos bares
vendo, ano e ano
a banda passar
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eles têm animais,
perfumes,
roupas interessantes!
não posso dizer como é
exatamente,
porque só de vez em quando vou lá
e só meio de lado,
servindo,
só vejo suas mãos
de indizíveis texturas
e outro dia
quiseram dar-me uma rosa,
um agrado, um mimo;
e minha alma toda era uma mão
que se abria e acolhia
a invisível rosa alienígena.
eu peguei, mas não foi com a mão
eu senti, mas com nenhum sentido
e soube da alma
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alá: põe ponto
onde dá
na telha
O três dos três da noite
passos
braços
chave
um sininho
guia o um-dois da nossa encenação
luzinha abre os braços
dançar é tão antigo...
quem? quem está aí?
em quantos salões estou,
de quantos costumes,
de quantos forrós?
poço, sabe quem eu sou?
um moço magro,
que vive numa torre rica
de quando em quando,
oh lua prateada
a faca e o poço, espelho
vê-se os passos das estrelas
na água parada e negra;
vê-se os braços se movendo,
braços, numa dança,
ombros, numa encenação;
dentes, num beijo,
uma chave
numa corrente, sobre o seio
amor, arranque o esqueleto
o erotismo azul dos amantes afogados
Uma voz
avô vai entoando,
nina o neto no colo:
que será de ti?
o pai bandido na cadeia
mãe vadia, vive tonta na rua
que espécie de dor
de cabeça serás, pedro, pedrinho?
será uma dor só minha
que carregarei no peito
como um amuleto
maquiada de riso e grito
avó alimenta
e queixa do mundo:
tanta mandioca
arrancada da terra
para dar de comer
a esse povo sujo, perdido, escuro
só jesus salva!
antes duvidar de deus:
depois da morte, será melhor
a grata surpresa da presença divina,
que a dura decepção do nada
minha mãe não é vadia,
só tenta ser livre;
meu pai não é mais bandido
que o sistema que o pariu.
a dor de cabeça que serei
será como a que teve deus
parindo a justiça
Outra voz
Trago a resposta aqui na minha mão:
o amor, a paz
Eu sei como fazer:
quero as rédeas do mundo.
Marx.
Não queremos ser iguais
Tenho a solução!
tudo é sofrimento: não queira mais
Liberdade de expressão:
nada a declarar
Darwin.
Vamos brigar para ver quem é mais apto
Sei: democracia
direitos
damos a todos
ninguém quer saber de política
Deixa Jesus
concertar o mundo
Política é a arte
de ter alguém que faça pra mim
Não estamos interessados
num mundo melhor:
perdeu seu tempo,
Platão
prefiro ser judeu que ser humano
a ser homem, prefiro ser atleticano
mineiro, da floresta, da rua tal,
do lado direito da rua tal
Não sou como todo mundo
Não quero conviver
em paz com os Africanos
Eliminar a pobreza não dá,
porque a riqueza vai junto...
Outra voz
na esquina do bar Brasil: este dia é síntese de todos os outros, entre nós, entre as cadeiras dos bares, entre as garrafas de cerveja (como é o nome da cor das garrafas de cerveja? Um castanho escuro como seu cabelo
querida, teu cabelo é castanho garrafa de cerveja).
pai: tenho um baralho de memórias - de bares, de tira-gosto, de violão de futebol mulher e política. Neste dia juntei todas as cartas: deu isso
na esquina do bar brasil: um dia claro, não uma noite boêmia, eu andava com você, pai, trôpego, magro, apagado, escuro, quase um zumbi você estava; e chegamos a uma mesa onde estavam dois homens, e um deles era você! Um outro você, você de vasta cabeleira branca, você todo ereto e sorridente,
de terno branco, um brilho branco, um halo.
e quando eu me virei, você doente já lá ia virando a esquina, foi-se
e eu rindo, que já ia apresentar meu pai pro meu pai.
LAGARTOS
lagartos
tomam vinho
do meu crâneo
lagartos
sorvem o mel
do que eu penso
um gesto
uma dança de alma
umas asas de energia
um sonho
antigo
indecifrável
de naves espaciais
explica meu desacerto
um sonho antigo
de tobogãs de água
que escorrem sobre o mundo
de vertiginosas alturas
um lagarto
jaz adormecido
no meu corpo
aqui, em algum lugar
quando ele desperta
sou eu que fico sonolento
ainda vamos nos encontrar um dia
eu tenho plantada
dentro de mim
uma flor alienígena
quando ela desabrocha
eu viro um campo magnético
acontecem umas coisas de ficção científica
o túnel do tempo
eles virão
os verdadeiros:
nos resgatar deste hospício
MEDITATION
requer o sol
requer a água
requer o homem
para esta coisa besta,
o arco-íris
Alfabeto
de que te servem essas letras,
uma atrás da outra, nestes livros?
e a mim?
borges diz que a vida de um escritor é solitária,
mas ele de repente descobre-se cercado de amigos:
invisíveis amigos dos livros
és visível, janete
sabes certamente lavar, passar, ninar,
sabes certamente amar, és gostosa
de que te servem as letras?
se eu, que te quero impô-las, eu, o educador,
no fundo temo que as trocaria todas, a a z
por comer a tu?
bom é amor, quintal,
cantoria poesia oral
seo juquinha:
lambari tá pelejando
pra subir na cachoeira
- pra subir na cachoeira
assistência:
eu também tô pelejando
pra arrumar moça solteira
- pra arrumar moça solteira
ROSA HORROROSA
Rosa horrorosa
o honesto é um fraco -
horrorosa
Comida imprestável
cansado, ando ando e nunca chega -
imprestável
Existe a poesia
estragada
existe a pedra no feijão, o espinho no peixe
a rosa de hiroshima