1
Um bebê macio
quase ainda um feto
me perseguia
cabia na palma da minha mão
e quando o ergui do chão
proferiu a profecia
um oráculo
embrião
2
Caí da cama
estou rente ao chão
ouço passos ligeiros
aí vem um faisão
tocamos testa com testa
misturando reinos
sempre cobicei
ter penas e um rabo
penas de azul fosforescente
parece que ele
cobiça um nome
cobiça ser ciente
ele no paraíso
querendo sentir vergonha
doido para descobrir-se nu
e eu querendo voltar a ser
coberto somente de penas
feito faisão azul
3
Que desespero
aqui nesta sala
com estas crianças
jogando a bola de borracha
que quica ligeira
cobrindo distâncias
de um lado pro outro
do teto ao chão
vai quebrar a lâmpada
derrubar os vasos
deslocar os móveis
que loucura
estou tentando
impor a ordem
mas alguém me lembra
que a lei de deus
rege a bola
rege as crianças
e pareço ateu
com essa minha falta
de confiança
4
Eu bem queria te dizer
mas não posso
com essa goma espessa
em minha boca
esse chiclete gigante e sem gosto
que eu tento tirar
babando nos dedos
eu bem queria te contar
o que sinto
mas com esses ferros nos dentes!
que me cortam os lábios
que doem, que roem o osso
que fazem ruídos
que ouço por dentro do crânio
eu queria, para te falar
arrancar meus lábios
meus dentes, quebrá-los todos
queria cortar fora a língua
queria falar, mas não posso
com todas estas palavras
entre nós